Isolam-se os corpos, não a esperança

Em quarentena, cada ser humano transforma-se em ilha – mas, conectados e solidários, formam um continente contra a loucura e estupidez. Na crise, se revelam: uns emergem em busca de outro mundo; outros, naufragam com os ultraliberais…

Posto como destino inevitável e única solução, era por demais frágil a dita solidez do neoliberalismo, pois agora, como profetizou o velho barbudo, “tudo o que era sólido se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado”. Um vírus, parasita que age com intensa voracidade e velocidade, faz ruir as estruturas frágeis de uma civilização erguida sobre alicerces necrófilos: exploração, miséria, violência, preconceito e desastre ecológico. Tudo assentado sobre a imensa concentração de riquezas, uns poucos a viver em ilhas de paraísos sobre a agonia dos infernizados.

O Congresso, a elite empresarial e a imprensa corporativa, desde o golpe e da eleição do Inominável, de outra coisa não falou a não ser em defender as chamadas reformas que cortam conquistas sociais e aumentam o abismo entre as classes sociais. Impuseram a reforma trabalhista que achatou salários e destruiu dignidades e vidas. Apoiaram a destruição da cultura, da educação e da saúde públicas. Trombetearam que, assim fazendo, estariam promovendo um novo surto de desenvolvimento econômico, de emprego pleno, de felicidade geral. Puras mentiras, sobre um arranjo de empresários e banqueiros desejosos de lucrar com isso, via privatização e desmonte das estruturas do Estado, que chegaram próximas do desmantelamento total. Agora, percebe-se que, sem um Estado de bem-estar social, estamos diante do caos.

Em meio à distopia e à grande crise que se instalou, surge a necessidade de solidariedade e coragem de agir de forma correta, inclusive aceitando o isolamento social, mas não o isolamento da esperança. Nesse momento, cada homem é uma ilha, mas a conexão espiritual e solidária de todas essas ilhas faz um continente. O altruísmo é chamado a suplantar a loucura e a estupidez. Afinal, o navio afunda, e a tragédia, aparentemente, atinge a todos, embora penalize muito mais aqueles que a pobreza acorrenta nos porões.

Em tempos assim, de grande crise, uns crescem por sua coragem, generosidade e postura ética; outros se afundam na mais completa mediocridade.

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