Horror e sexo no cinema

Chegam ao streaming três filmes que exploram o medo, a culpa e a libido. Um deles é Repulsa ao sexo, em que Polanski mostra, na história de uma jovem tímida, como o desejo reprimido pode virar doença e morte – e esfacelar “castelo de purezas”

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Não é preciso ser psicanalista para perceber que boa parte da literatura e do cinema de terror tem a ver, de algum modo, com o sexo: com o medo dele, com a repressão a ele, com a culpa associada a ele. Três clássicos do gênero lançados pela plataforma de streaming Belas Artes à la Carte expõem, cada um à sua maneira, essa conexão: O chicote e o corpo (Mario Bava, 1963), O pássaro das plumas de cristal (Dario Argento, 1970) e Repulsa ao sexo (Roman Polanski, 1965).

Dos três, o mais curioso talvez seja o mais antigo. Em O chicote e o corpo o então já veterano Mario Bava, precursor do gênero giallo – o exuberante e sangrento suspense italiano –, realiza sob a roupagem do gótico romântico (ambientação noturna, castelo sombrio, sepulcros subterrâneos, fantasmas, possessão) um estudo do sadomasoquismo.

Em época e local não definidos, o aristocrata Kurt Menliff (Christopher Lee) retorna ao castelo da família, num penhasco à beira-mar, supostamente para felicitar o irmão mais novo, Christian (Tony Kendall), por seu casamento com a bela Nevenka (Daliah Lavi). Logo descobrimos, porém, que Nevenka é a ex-noiva do próprio Kurt, que está de volta para atiçar antigas paixões e perturbar a paz conjugal e familiar.

Todo o repertório iconográfico do gênero – cavalgadas noturnas na praia, luar entre nuvens sob uivos de lobos, sarcófagos profanados, candelabros que se apagam com o vento uivante que bate janelas – é mobilizado para transportar o espectador a um universo de espectros e alucinações. Mas no centro de tudo há o desejo enlouquecido de um homem sádico e de uma mulher masoquista, situação sintetizada no próprio título do filme.

A virada de Argento

Discípulo confesso – e travesso – de Bava, Dario Argento leva por sua vez o giallo a um aparente paroxismo, que acaba por se revelar uma releitura crítica e irônica do próprio gênero.

O ponto de partida de O pássaro das plumas de cristal é o de tantos outros gialli: assassinatos brutais de belas jovens, aparentemente cometidos por um único psicopata. Desta vez quem resolve investigar os crimes, depois de presenciar uma tentativa frustrada de homicídio, é um escritor norte-americano (Tony Musante) às vésperas de partir de Roma de volta aos Estados Unidos.

Neste longa-metragem de estreia de Argento ainda está em embrião o estilo barroco que ele desenvolverá em seus filmes seguintes, com suas tramas cada vez mais intrincadas e uma crescente exuberância formal (opulência cromática, contrastes violentos de luz, abuso da câmera lenta e dos supercloses, música caudalosa, etc.).

Mas é uma estreia em grande estilo, com fotografia de Vittorio Storaro e música de Ennio Morricone. E, numa evidente homenagem ao ídolo Hitchcock, um dos vilões, um matador de aluguel, é interpretado por Reggie Nalder, o assassino frustrado do concerto no Albert Hall de O homem que sabia demais. O que torna o filme marcante, porém, é a virada dramática no final, que dá um nó nos códigos convencionais do gênero e de gênero.

O olho mágico de Polanski

Ficou para o fim falar de Repulsa ao sexo, de Polanski, por ser, de certa forma, um passo adiante nas relações entre sexo e horror no cinema. Ao gótico romântico de Bava e ao barroco irônico de Argento, Polanski contrapõe seu cinema paranoico-moderno. Moderno não apenas pela ambientação – o indivíduo solitário na multidão é seu personagem, o apartamento na metrópole é seu elemento –, mas pela autoconsciência de alguém que entendeu o básico da psicanálise. E por que paranoico? Porque o indivíduo polanskiano é alguém que lê o mundo como uma conspiração de forças hostis e desconfia do próprio desejo.

Mas vamos ao filme. Primeiro longa-metragem realizado por Polanski fora da Polônia, Repulsion (o sexo é uma contribuição mercadológica do título brasileiro) retrata uma jovem manicure belga, Carol Ledoux (Catherine Deneuve), que vive e trabalha no centro de Londres. Virgem e tímida, ela se revela aos poucos não apenas frígida, mas avessa ao sexo. Fica incomodada com os sons que sua irmã e o amante produzem no quarto ao lado e enojada com a presença dos apetrechos de barba do homem no banheiro do apartamento, e repele com asco os beijos e carícias de um pretendente enamorado.

Tudo isso passa a perturbar sua concentração no salão de beleza chique onde trabalha. A própria cidade, com seu trânsito, suas ruas em obras, seus homens assediadores, passa a ser um ambiente inóspito. Quando a irmã sai em viagem de férias (com o amante casado), Carol se enfurna no apartamento e se entrega a sua paranoia delirante.

Não convém descrever as etapas desse processo, mas apenas destacar a maestria com que Polanski manipula seus instrumentos. À medida que o equilíbrio mental da protagonista vacila, vão mudando sutilmente os enquadramentos, predominando a câmera ligeiramente mais alta (plongée) ou mais baixa (contre-plongée), e até mesmo as lentes usadas, distorcendo crescentemente o espaço do apartamento e o próprio rosto da atriz. Uma cena banal, antes da metade do filme, “anuncia” esse processo: no reflexo de uma reluzente chaleira cromada, Carol vê seu rosto retorcido monstruosamente.

A deformação do espaço, dos objetos e dos seres como manifestação visível da perturbação mental, emocional ou espiritual dos personagens: eis uma linha de força do cinema de Polanski. O apartamento é seu cenário privilegiado. Há até uma “trilogia do apartamento” formada por Repulsa ao sexo, O bebê de Rosemary (1968) e O inquilino (1976), curiosamente ambientados cada um numa metrópole: Londres, Nova York e Paris.

E dentro do apartamento há sempre uma ou várias cenas em que o protagonista ou a protagonista observa pelo olho mágico o que está do lado de fora. É um signo poderoso: o mundo exterior visto por uma lente que distorce. Se fosse possível resumir o cinema de Polanski numa imagem, seria essa: a de um olho mágico de apartamento.

Claro que a filmografia do diretor está repleta de grandes filmes ambientados nos mais diferentes tempos e cenários. Basta lembrar Chinatown, Tess, Piratas, Lua de fel, Macbeth, O oficial e o espião. Mas, reparando bem, é como se cada um de seus personagens principais enxergasse o mundo através da lente deformadora de um olho mágico.

Em Repulsion o que está do outro lado da porta são os homens e com eles a ameaça do sexo. Ao se trancar a eles, Carol pretende fazer do apartamento um castelo da pureza, para citar o título de um filme mexicano de Arturo Ripstein. Mas, como se verá, a pureza é uma quimera contígua à podridão, e o próprio apartamento, aos olhos de Carol, ganha vida, com suas rachaduras ameaçadoras, mãos libidinosas, desvãos traiçoeiros. Reprimido, renegado, rechaçado, o desejo vira doença e morte. Damares Alves faria bem em assistir a esse filme.

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