Cinema: As privatizações na carne e na alma

Contundente, Homem onça retrata o desmonte neoliberal na Era FHC – e as tensões dentro de uma estatal. Sem maniqueísmos, humanismo e política se encontram em mundo onde o emprego, assim como onças pintadas, estão em vias de extinção

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

Homem onça, de Vinícius Reis, que entra em cartaz nos cinemas nesta quinta-feira, 25 de agosto, é desses filmes de brilho discreto, em que a estética não se sobrepõe à ética. Fala ao mesmo tempo de um amplo processo histórico-social e de seus efeitos na carne e na alma de um punhado de indivíduos.

A ação começa em 1997, no contexto das privatizações desenfreadas da era FHC. As primeiras imagens, ainda nos créditos iniciais, são registros documentais de manifestações contra a privatização da Vale, mas a empresa em que trabalha o protagonista Pedro (Chico Diaz, numa de suas melhores atuações) é a fictícia estatal GasBras, que, como o nome diz, cuida da exploração de gás.

Do geral passamos rapidamente ao particular, ao presenciar o clima de tensão dentro da empresa, diante do anúncio de reformulações, enxugamento de custos e, claro, demissões. Mas ainda há espaço para a camaradagem, as brincadeiras, o futebol de salão dos colegas de firma. Pedro conversa com seu melhor amigo, Dantas (o sempre excelente Emílio de Mello), sobre os rumos que deverá tomar o seu setor, o de projetos ecologicamente sustentáveis.

Tudo se precipita com a chegada de uma jovem executiva (Tracy Segal) com doutorado em Chicago, elegante e de fala mansa, que vem com a missão de “modernizar” a empresa, com vistas a sua privatização. As demissões se sucedem, as salas se esvaziam e até o futsal dos colegas deixa de ser cinco contra cinco, reduzindo-se a um improvisado dois contra dois, ainda assim marcado por brigas.

“Quando o jeito é se virar, cada um cuida de si, irmão desconhece irmão”, cantou Paulinho da Viola. O furacão privatizador dispersa o grupo de companheiros – uns são demitidos, outros convencidos a se aposentar – e acompanhamos o destino de alguns deles. Sônia (Silvia Buarque), a mulher de Pedro, que também está desempregada, tenta convencê-lo a abrirem juntos uma firma de comércio. Mas ele prefere morar num sítio na cidade onde cresceu e onde, criança, viu uma vez uma onça morta a bala. É lá que o encontraremos, alguns anos depois, com a namorada de juventude (Bianca Byington), filha do patrão de seu pai.

Humanismo crítico

Nesse trânsito entre o olhar abrangente e o foco concentrado no corpo e na mente dos personagens – bem como no espaço em que eles vivem e interagem – está sintetizada a abordagem política e moral do diretor Vinícius Reis: crítica incisiva dos mecanismos econômico-sociais e, ao mesmo tempo, tentativa generosa de conhecer e compreender os indivíduos e suas reações.

Vinícius Reis não julga seus personagens, não se coloca acima deles, mas a seu lado, ombro a ombro. Faz o que se poderia chamar de humanismo crítico, como herdeiro legítimo do cinema de um Roberto Santos, de um Nelson Pereira, de um Domingos de Oliveira, para não falar de diretores tão díspares quanto Renoir, Ozu, Zurlini, Varda, Almodóvar, que a despeito das diferenças abissais de estilo e temperamento têm isso em comum: amam suas criaturas e fazem com que as amemos também. No cinema brasileiro de hoje, essa linhagem se perpetua no mineiro André Novais Oliveira, na paulista Anna Muylaert, na gaúcha Ana Luíza Azevedo e na carioca Sandra Kogut, entre tantos outros.

Do ponto de vista formal, Homem onça atesta a maturidade criativa do diretor, que opta sempre pela solução mais simples e eficaz do ponto de vista da clareza de expressão. É notável, por exemplo, o seu domínio do plano fixo. Uma discussão crucial entre Pedro, Sônia e a jovem filha do casal (Valentina Herszage) sobre o futuro da família é vista a meia distância, pela porta da cozinha, formando um quadro dentro do quadro. Ao mesmo tempo em que sugere uma discrição respeitosa do olhar, o enquadramento transmite a sensação de confinamento, de escassez de alternativas que pesa sobre aquelas pessoas.

Dois outros planos médios, com profundidade de campo, são notáveis em si mesmos e em sua inter-relação. Ambos mostram salas comerciais vazias em que alguém anuncia projetos animados para a sua transformação em um empreendimento próspero. Num deles, é o amigo Dantas que explica a Pedro como será a consultoria que pretende montar para jovens aspirantes a executivos.

No outro, é Sônia que descreve com palavras e gestos a futura sede da sua firma de produtos de limpeza. Nesta segunda cena, postado em primeiro plano, de frente para a câmera e de costas para a mulher, Pedro parece ausente, olhando para fora do prédio ou para dentro de si mesmo. Não é preciso uma DR para mostrar o descompasso irremediável do casal.

Se na conversa familiar na cozinha a sensação predominante era de enclausuramento, nas outras duas cenas prevalece a de vazio, de desconexão e incomunicabilidade.

Mundo em extinção

Em Homem onça não há heróis nem vilões – com a possível exceção da moça doutorada em Chicago, mas mesmo esta é uma vilã sutil e cordial, que nada tem a ver com os clichês de malvados dos melodramas ou dos filmes panfletários. Ela é um mero instrumento – a mão visível do mercado, por assim dizer. No mais, todas as criaturas do filme são demasiado humanas, com seus deslizes, suas fraquezas e sua beleza essencial. O elenco escalado e dirigido com precisão viabiliza essa discreta façanha.

O amor de Vinícius Reis pelas atividades de congraçamento, celebração e afeto – a música popular, o futebol, as festas –, que já estava presente em seus longas de ficção anteriores (Praça Saens Peña e Noite de Reis), retorna aqui de modo mais maduro, e até um tanto melancólico, como se falasse de um mundo perdido ou em vias de extinção – a exemplo do emprego e da onça pintada.

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