Cinema: O universo de cowboys machões subvertido

Em O atalho (2010) e First Cow (2019), Kelly Reichardt chacoalha as mitologias do Velho Oeste. Em vez de tiros e heróis durões, um olhar agudo sobre a vida doméstica, o inóspito, os sonhos de liberdade e riquezas – e até um casal improvável

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

O faroeste sempre foi um gênero marcadamente masculino, mas nos últimos anos uma diretora norte-americana, Kelly Reichardt, vem abalando sem estardalhaço esse último bastião da macheza, com filmes como O atalho (2010) e First Cow (2019), ambos disponíveis na plataforma Mubi. Este último está em cartaz também nos cinemas e no canal de streaming Now, com o subtítulo enganoso A primeira vaca da América.

O que os westerns de Kelly Reichardt trazem de diferente? Tudo, basicamente: o enfoque, o ritmo, a mise-en-scène. Em lugar da mitologia do desbravamento do Oeste como um ato de intrepidez e afirmação de liberdade, entra uma observação muito mais nuançada dos gestos humanos em um ambiente inóspito.

Terra de ninguém

Ambos os filmes em questão são ambientados no Oregon, no noroeste dos atuais Estados Unidos, só que antes de o território ser incorporado ao país. O Oregon só se tornou um estado norte-americano em 1859 e os filmes se passam em 1845 (O atalho) e nos anos 1820 (First Cow). Na época das duas histórias, portanto, tratava-se de uma espécie de terra de ninguém, uma região em disputa entre os indígenas nativos, os ingleses e os norte-americanos.

As paisagens não poderiam ser mais contrastantes: em O atalho, uma pequena caravana formada por três famílias e um guia local atravessa uma planície desértica. Terra, pedras e areia são tudo o que se vê de horizonte a horizonte. First Cow, por sua vez, desenrola-se quase todo numa região de mata exuberante nas proximidades do Rio Columbia. Era então um território de intensa caça (com armadilhas) de castores, cuja pele era vendida a alto preço a mercadores europeus.

Em O atalho busca-se a “terra prometida”, um lugar onde estabelecer a família e ganhar a vida honestamente, com o trabalho das próprias mãos. Em First Cow o que se procura é uma maneira de juntar dinheiro rápido para empreender algum grande negócio. São as duas faces da expansão americana para o Oeste.

Forçando um pouco, é possível dizer que o primeiro trata, não sem ironia, do sonho americano de liberdade; o outro, da realidade suja da briga pela riqueza, retratando o que se poderia chamar de acumulação primitiva de capital na formação dos EUA.

Vida doméstica

O que une os dois filmes é o olhar da diretora para os detalhes do dia a dia, para uma certa vida doméstica e para as relações que se formam entre os personagens, todos eles desterrados, de passagem, fora do lugar – com a exceção óbvia dos indígenas. Mas até mesmo estes vivem num mundo que já não é propriamente o seu, depois da chegada do primeiro homem branco.

Em O atalho, o guia, Stephen Meek (Bruce Greenwood), é portador da ideologia da conquista do Oeste a ferro e fogo. Do alto de sua suposta experiência na região, ele retrata os indígenas como intrinsecamente maus e desumanos, para não dizer subumanos, o que justificaria seu extermínio preventivo. Mas Kelly Reichardt desmonta sutilmente essa perspectiva atentando para a rica e ambígua relação que se estabelece entre uma das mulheres da caravana (Michelle Williams) e o índio aprisionado pelo grupo (Rod Rondeaux).

Em First Cow quase não há mulheres no primeiro plano, mas o olhar feminino se manifesta de modo ainda mais sutil e indireto. O protagonista, de apelido Cookie (John Magaro), cozinheiro que acompanha uma expedição de caçadores de castor até uma feitoria britânica à beira-rio, conhece casualmente um aventureiro chinês, King-Lu (Orion Lee), com quem desenvolve uma profunda amizade.

Essa relação entre os dois homens adquire logo as características de uma vida de casal, com Cookie assumindo as atividades e preocupações associadas tradicionalmente às mulheres: limpar a casa, costurar, colocar flores num vaso e, claro, cozinhar, sem falar do afeto pelo parceiro, cobrindo-o quando está dormindo, deixando um bolinho para ele no parapeito da janela. Os dois planejam juntar dinheiro vendendo os bolinhos que Cookie faz usando leite tirado às escondidas da vaca do administrador da feitoria, a primeira a surgir naquele território. Essa vaca fora do lugar é um signo concentrado da situação de todos os personagens.

Aos poucos vamos conhecendo as relações que se estabelecem entre os moradores, permanentes ou transitórios, da região do forte: ingleses, americanos, chineses, russos e indígenas. King-Lu, que já viveu em Cantão, em Londres e muitos outros lugares, sabe que há urgência: logo acabarão (ou sairão de moda) as peles de castor, e outras vacas virão, trazendo concorrência na produção de bolinhos. Nas suas palavras, “a história ainda não chegou aqui, mas não demora a chegar”.

História de amor

É nesse terreno ainda informe, nesse esboço de sociedade, que se desenvolve a relação entre esses dois homens, desterrados entre desterrados, deslocados entre deslocados. É, no fundo, uma delicada história de amor, ainda que não necessariamente homoerótica (como em Brokeback Mountain). As imagens iniciais, de uma garota e um cachorro encontrando, nos dias atuais, dois esqueletos lado a lado na margem de um rio, só vão ter sua explicação parcial na magnífica cena final. Assim como O atalho, First Cow termina em aberto, incitando o espectador a pensar e preencher as lacunas.

Do ponto de vista da construção narrativa, o que chama a atenção, nos dois filmes, é a distensão dos planos, configurando um ritmo mais de observação do que propriamente de ação. Há suspense, mas um suspense lento e discreto, quase silencioso. A música é mínima, os diálogos são enxutos. Numa subversão de elementos do gênero western, poucos são os tiros, em geral fora do quadro, e não acertam ninguém.

O velho Oeste visto da cozinha, quase se poderia dizer. E algumas cenas breves são de um frescor incomum. Cito duas de First Cow. A primeira: quando o administrador da feitoria recebe um capitão de navio inglês para o chá da tarde, eles discutem o comércio de peles, motins em barcos e outros “assuntos sérios”. Quando os homens saem para ver a preciosa vaca, a mulher do administrador e a mulher do líder indígena local começam a conversar como duas comadres, com um carinho, uma cumplicidade e um interesse mútuo que contrastam com o competitivo pragmatismo masculino ao redor.

A outra cena é dessas que só o cinema pode proporcionar, de tão fugaz e inefável: depois de reencontrar Cookie e levá-lo a sua cabana, King-Lu serve bebida ao amigo na única caneca disponível e, com a garrafa na mão, propõe “um brinde a… alguma coisa”. É tão bonito como singelo. São dois cavalheiros em meio a uma gente bruta.

Do ponto de vista da imagem, ressalta, nos dois filmes, a estupenda fotografia de Christopher Blauvelt, em particular nas sequências noturnas, com uma simulação de iluminação natural de velas, lampiões, lua e estrelas. Salvo engano, foram ambos filmados em película de 35 milímetros, num formato mais “quadrado” que o habitual hoje em dia, o que reforça a sensação de filme antigo.

Kelly Reichardt trabalha quase sempre em parceria com o escritor e roteirista Jonathan Raymond. No caso de First Cow, eles recortaram apenas uma parte do romance The Half-Life, de Raymond, que atravessa os séculos e continentes. O que interessava a ela era contar apenas a história daqueles poucos personagens naquele ambiente histórico-geográfico específico. O que ela perdeu em amplitude, ganhou em profundidade. E nos deu um belíssimo filme.

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