Cinema: O real mágico dos povos indígenas

No Festival É Tudo Verdade, o filme A última floresta transcende o documentário etnográfico ou militante. Funde o real às narrativas míticas do povo Ianomâmi; o cotidiano à resistência ao garimpo predatório; o ancestral à modernidade…

Por José Geraldo Couto, no Blog do Cinema do Instituto Moreira Salles

A 26ª edição do festival de documentários É Tudo Verdade termina no próximo domingo, 18 de março, com a exibição, fora de competição, de um filme magnífico: A última floresta, de Luiz Bolognesi, que teve sua estreia mundial no festival de Berlim deste ano.

Filmado na aldeia Watoriki, em Roraima, o filme entrelaça o registro documental do cotidiano da aldeia e a narrativa mítica sobre a origem do povo Ianomâmi. A conexão entre essas duas dimensões é conduzida pelos próprios indígenas, para quem os mitos têm a densidade das coisas palpáveis. Em vez de separar o mito e o real, para eles o mito é o real. O mérito maior do diretor Bolognesi, que teve como corroteirista o líder ianomâmi Davi Kopenawa, foi o de aderir sem reservas a essa visão de mundo e construir com talento e paciência um relato fluente que é ao mesmo tempo poético e político.

Poesia e política

O poético e o político se combinam, por exemplo, na história de um personagem que saiu para caçar, deixando na aldeia a mulher e os filhos, e não voltou ao anoitecer, como se esperava. A esposa suspeita que ele tenha sido seduzido e levado por uma ninfa mitológica para viver com ela no fundo das águas. Mas ele também pode ter abandonado a aldeia para se juntar aos garimpeiros ilegais que infestam a região. Nesse caso, a sedução seria a do dinheiro e das luzes da cidade.

Em outro ponto de articulação entre o mito atemporal e a bruta realidade contemporânea, os ianomâmis acreditam que os minérios que repousam no fundo da terra não devem vir à superfície, para não despertar os espíritos malignos e liberar a “fumaça da doença”. Impossível saber se essa ideia já estava presente nas crenças do povo desde épocas pré-colombianas ou se foi desenvolvida posteriormente. O que importa é que hoje ela faz muito sentido, quando vemos o mercúrio usado no garimpo envenenar os rios e lagos da mata.

E é nisso que reside a qualidade extraordinária de A última floresta. Caso se limitasse a registrar o dia a dia na aldeia e colher os mitos e lendas indígenas, seria, bem ou mal, só mais um documentário etnográfico. Se centrasse todo o foco no conflito com os garimpeiros e outros invasores, talvez se esgotasse na denúncia militante ou na função jornalística. Ao fundir as duas coisas, potencializa a ambas, infundindo vida e atualidade ao mito ao mesmo tempo em que adensa a postura política com o lastro poético, humano e sagrado do imaginário.

A reconstituição do mito de origem ianomâmi, com a história dos irmãos Omama e Yoasi e seu encontro com a ninfa Thuëyoma, é interpretada por jovens da aldeia com um frescor e uma graça que dificilmente seriam alcançados por atores profissionais.

Um confronto (provavelmente encenado) com garimpeiros, o paciente trabalho de tapeçaria colorida, a produção do beiju, o exercício de caça com arco e flecha dos meninos, as histórias contadas na rede, o impressionante transe dos xamãs ao aspirar a fumaça de um pó alucinógeno que os faz dançar, cantar e atuar como numa performance moderna, tudo flui com a naturalidade do rio translúcido que atravessa a região.

Ruídos linguísticos

Chama a atenção, nos diálogos e narrações na língua ianomâmi, a presença, aqui e ali, de palavras do português: nomes de doenças, de armas e de aparatos tecnológicos (“helicóptero”, por exemplo) trazidos pelos brancos, além de números referentes a grandes quantidades (“trinta, quarenta”). Outra que se destaca é “mercadoria”. Esses ruídos linguísticos dizem muito sobre os atritos da cultura indígena com a dita civilização ocidental.

Uma dessas palavras invasoras – “associação” – surge numa das falas mais significativas de todas, a de uma mulher que conclama suas companheiras a organizar uma cooperativa para venderem em melhores condições seu artesanato aos brancos e, com isso, tornarem-se mais independentes dos homens da aldeia. Esse dado desmancha a noção de que a cultura indígena é algo estático, alheio à história, ou que desta só sofre passivamente os estragos e a aniquilação.

Da mesma maneira, para trocar informações e coordenar a defesa contra potenciais agressores, as aldeias ianomâmis comunicam-se entre si pelo rádio, bem como recebem fotos de satélite feitas na região. Como cantou Gilberto Gil, “hoje mundo é muito grande/ porque terra é pequena,/ do tamanho de uma antena parabolicamará”.

O elemento de ligação entre as faces múltiplas desse povo extraordinário é, evidentemente, Davi Kopenawa, ao mesmo tempo xamã, líder político e interlocutor dos ianomâmis com o mundo dos brancos. Não por acaso, o filme termina com uma palestra sua na universidade de Harvard, da qual ouvimos só as primeiras e contundentes frases.

Na verdade, não é bem o fim. Há ainda duas imagens notáveis. A primeira delas, de Davi sentado numa cama de hotel, banhado pela luz que vem da rua e pelos ruídos urbanos, lembra uma cena análoga do Dersu Uzala de Kurosawa, em que o protagonista percebe a cidade como um lugar absurdo e indecifrável. Um homem fora do lugar, em suma.

A segunda imagem, que repete mais detidamente uma que vimos de passagem no início, é da aldeia vista por uma câmera aérea que se distancia cada vez mais, mostrando que aquela linda taba em forma de circunferência em torno de um pátio de terra batida é um ponto mínimo no meio da mata exuberante, em contraste com as horrendas cicatrizes deixadas pelo garimpo predatório. Nunca ficou tão claro, ao menos para mim, que defender os indígenas e defender a floresta são uma única e mesma luta.

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