Ecos de Machado e as portas entreabertas do Brasil

Moralista? Racista? Rendido às elites? Frente a polêmicas, célebre escritor parece olhar-nos, ainda hoje, com sarcasmo. O Bruxo do Cosme Velho (e sua radicalidade crítica) mora nos detalhes — e suas narrativas desvelam o obsceno dos poderosos

Já se escreveu em demasia, à exaustão, à náusea até, sobre Machado de Assis. Tornou-se ele em decorrência – e por ter dado forma literária à matéria brasileira com genialidade inigualável – o maior e principal escritor brasileiro. Há uma presença de Machado entre nós que atravessa a literatura mesma – e ainda perpassa a cultura, a moral e a política. Ele é nosso representante estético no cânone e nossa eterna sensibilidade poética secular (Harold Bloom). Com os estudos dialético-marxistas de Roberto Schwarz, sem se esquecer dos pioneirismos de Lúcia Miguel Pereira e Raymundo Faoro (bem como da fortuna recente com Hélio de Seixas Guimarães e João Cezar de Castro Rocha), passava-se a ler o autor de Dom Casmurro, Iaiá Garcia e Helena como o desvelador crítico da elite brasileira. Na pena dele encontraríamos os traços, para bem dizer, o íntimo violento e farsesco do escol nacional. Porém, não poderia deixar de acontecer com Machado nos tempos vindouros e após sua morte, o que é mais do que comum na história da literatura, e é parte intrínseca da obra dos maiores, de seus romances, ideias, posicionamentos políticos e vida pessoal, que estivesse envolto pela bruma da polêmica ingênua. Esteve ele marcado pelos signos do pessimismo? Lutou contra a escravidão? Foi um moralista de época? Considerava-se, dado o tom de sua pele, um homem negro? E foi a partir daí personagem da luta contra a escravidão? Falou e escreveu do ponto de vista dos negros e negras com destinos trágicos? As obras que deixou não eram sutis pontos de vistas literários que expressam certo conservadorismo? Mas Machado de Assis mesmo acaçapado por aquelas e estas evocações existenciais ainda insiste irromper na cena cultural do país – e a nos olhar com sarcasmos e advertências.

Suas narrativas são exercícios de linguagem que em si mesmas cintilam radicalidade crítica; é necessário, assim, ler Machado de perto. Lê-lo não como um totem, não como um autor que extrinsecamente cria personagens marcantes que formam nosso panteão literário-cultural. Inescusável ao defrontarmo-nos com a obra machadiana fazer seus enredos e figuras declamarem a si explicitando nosso traço social. Vejamos. Ora, posto a questionar seu criado quem lhe queria falar na hora do almoço, um certo senhor indaga estupefato e incrédulo – se seria um escravo? (Ou um negro velho há pouco liberto?). Entretanto, no arranjo literário de Machado a voz – mesmo que quase “afásica” aqui pelas circunstâncias deste caso – que responde, sugere ser da Grécia. Pois ao dizer usar roupas de “dois belos séculos de Antenas” e ser indagado: “– Vossa senhoria é ateniense?”, a visita redargui “– Não me dês senhoria. Lá em Atenas todos me tratavam por tu […]” (veremos que essa é uma linguagem para o conformismo renitente). Entretanto, isto é como se no significado do momento verbal, acrescentado por uma elipse temporal que irradia neste ponto e por todo o diálogo até nosso tempo, agora ela (a voz) estivesse a exprimir dissabores (com irrefreável tom lamuriante) em ser referenciada pela dicção do passado. Estes feixes luminosos da declamação de si da trama machadiana dão existência, articulado a outros textos, a um universo com intrincados lineamentos “morais”. Eles fazem mover com impudências sutis, sistemas (éticos e culturais) obscenos de modo a ocultar a agressividade social que nos rodeia, e isto de modo bem pensado como nesta outra casa – “às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia”; com efeito, “costumes velhos”. Nesta residência falava-se ao estilo da simpatia da pessoalidade; em formas sinuosas do dizer a vida. A tessitura da narração de Machado lança dialéticas por suas personagens interagindo neste microcosmo ético, de modo que a ambiência do local tinha no Sr. Meneses a expressão evasiva, porém obstinada, do pai sempre paciente – era um observador de esguelha. Era “escrivão”. E saia invariavelmente calado quando o narrador – de nome Nogueira – se dispunha a ir no teatro com ele: no entanto, a cultura não dava ouvidos a esse. Soube-se depois que este morador da Rua do Senado, por aqui sempre há um senado a aparecer no horizonte nacional, da cultura e da moral, “trazia amores com uma senhora, separada do marido e dormia fora de casa uma vez por semana”. Meneses, como chicote recôndito (o pai observador sempre presente) desaparece da narração de Machado – ele está ali por outras semblâncias. Em si mesmo o universo discursivo dos modos de vida cotidiano é o dele: senão porque “a família recolhe[ria-se] [sempre] à hora do costume[?]” E a obscenidade organiza o entrecho justamente quando é enunciada pela simbolização do Sr. Meneses que metaforicamente surge com a “pancada na janela, do lado de fora, [e] uma voz brada […]: Missa do Galo! Missa do galo”. Foi o suficiente para encerrar o excurso insinuante e sorrateiro (erótico) que o caso machadiano cria acerca de Dona Conceição, segunda esposa do escrivão de Mangaratiba (esta vem de longe), e a voz “sempre” (não-)presente de enunciação da intriga – o agregado que admira a arte dramática. (Por aqui se faz estirpe.)

Se lermos de perto, e fizermos as figuras de Machado declamarem a si próprias, notaremos a “oscilação” bem pensada das expressões que vagueiam neste mundo de derrisão. De suscetibilidades que transbordam o tempo e incitam a trama a entoar uma voz dizendo “que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos”. Sem nenhuma feição ou gesto de materialidade, de explicitação densa de princípio sincero (são troças sociolinguísticas…), as linhas de interações traçadas nestes trechos machadianos fazem vir à superfície – um tipo social que vez por outra sobrevém como o que restringe, o Katechon – os vocábulos efetivos em que presenciamos aquela mesma voz sem mais dizer, apesar de circunstâncias “incompreensíveis” para Pancrácio, que ele “é […] livre [e] podes ir para onde quiseres. Aqui tens ‘casa amiga’, já conhecida e tens mais um ordenado, um ordenado que […]”. A Pancrácio o conveniente é insistir; “– Oh! Meu senhô! Fico.” (O “liberto” sabe que está ali o solo e o torrão da vida, e que o ordenado é ordem, sistema, sociedade, família, religião.) Declamando anuência e “ponderando” a condição ofertada o personagem da narrativa de Machado com exuberância altiva “propõe” ao molecote Pancrácio o esforço do “consenso”: sim “–… Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo; tu cresceste imensamente […] era um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver […]”. Estrutura-se na história algo decisivo no texto cáustico de Machado: os olhos de esguelha, dialeticamente, convertem-se em guardas reais dessa composição literária aos quais percebendo as vozes dos Pancrácios desejarem se rebelar e interpelar a intriga (uma conjuração) são transformados em situações reais que se desvelam com rancor e ódio intransigente; eles dizem com polido decisionismo “– Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis, […] é de grão em grão que a galinha enche o seu papo”. O arremate é típico e cortês, alvissareiro até: “Tu vales muito mais que uma galinha”. E o que fez Pancrácio? A alegoria invertida machadiana é “sutil” – uma negatividade latente que subjaz à narrativa – “Pancrácio aceitou tudo; aceitou até um peteleco”. (Por que Pancrácio aceitaria o salário e o peteleco sugere a voz entoada de Machado?) É que o peteleco foi dado com a mão vestindo a simbólica luva de ferro: não há dúvida que os olhos de espreita possuem não só uma mão, como é intimamente aconchegada por luvas de ferro (Conceição Evaristo). Não obstante, notemos os sinais de Machado de Assis. Ocorre que na elocução surge um ponto-e-vírgula temporalizando o trecho entre o aceitar e a ação da mão no peteleco com vestis de ferro. É um relâmpago incontido a dizer não à mirada de soslaio e sua cercadura de aço, e podemos sugerir que o dispositivo de sinais em Machado está a fabular o andamento declamatório das vozes, falas e comportamentos das figuras de sua obra. Um ponto final encerraria a dúvida sobre o ordenado (“[de] seis mil-réis […]”); dois pontos prolongariam a exposição a tornando indiferente; a exclamação não pertence às narrativas envolvidas pela desfaçatez de classe – há em Machado o perecível e o firme; a ocasião e o sistema –; e a vírgula é pouco espessa como tempo do discurso. Por isso o ponto-e-vírgula é a solicitude que pulsa da prosa machadiana – é o excesso literário percorrendo a dicção, aqui de Pancrácio, mas de todos os Pancrácios (e Ponciás…). O ponto-e-vírgula constitui-se como a representação estética do derramamento de não-aceitação: é o entre de subjetividades e sujeitos de fantasias incontáveis que lá onde se presumia o sim harmonizado defrontamo-nos com o “Oh! Meu senhô! […]” disruptivo.

Assim, Machado de Assis sabia que é inimaginável não se expressar pela profanação do ponto-e-vírgula em circunstâncias aos quais as figuras do enredo se deixam a si mesma nos estilhaços miúdos de falas singelas e opressivas; “– Onde anda que nunca ouve o que lhe digo?” Esse ornato normativo e fraseado vem acompanhado de condescendências frágeis – porém intimistas. Ocorre que na fatura do texto ouvem-se falações de serenidade cultural-familiar serem pronunciadas; na mesma modulação admoestadora de sistema lemos e ouvimos um ente que quer civilizar a descendência (nacional), “hei de contar tudo a seu pai, para que lhe sacuda a preguiça do corpo com uma boa vara de marmelo”, ou será de ferro? Mas há em Machado o ímpeto insistente das falas que evocam e enunciam a si mesmas. Pois ao trazer a sintaxe da fala rígida que quer ao mesmo tempo ser vista como uma mão tórrida e aconchegante, ele espera forjar na sensibilidade do leitor elementos que iluminem o porquê no mesmo entrecho lemos que “D. Severina tocou-lhe no pé, como pedindo que acabasse”; ora Inácio sabe e entende a imanência ao qual foi lançado – não obstante “Borges espeitorou ainda alguns impropérios, e ficou com Deus e os homens”. Era a Rua da Lapa, em 1870. Aí residia o olhar mimético de varão (Inácio fundo queria imitar Sr. Borges) a se formar sob estruturas de través; a cultura do cinismo que olha, vigie (e oprime) atrás da porta. Com quinze anos feitos – e Machado dirá – “bem feitos”, este filho de um “barbeiro na cidade Nova” estava a ser moldado pela gramática ética rigorosa de Borges: que vez por outra no proscênio familiar “virgulava a oração com um golpe de vinho e continuava logo calado.” Certo das consonâncias existências como explicitação de agradecimento, reverência simbólica a todo este estado de coisas, os olhos de Inácio encontram (através) “[d]os braços de D. Severina” o significado (machadiano) de nossa moral de classe. Mas se lá em Pancrácio irrompe o ponto-e-vírgula de fantasias outras – aqui há a dupla força do vernáculo culto e sistólico. O espaço literário que Machado constrói é um maciço entoar pelo qual lemos: “Inácio […] comendo devagarinho, não ousando levantar os olhos do prato, nem para colocá-los onde eles estavam no momento em que o terrível Borges o descompôs. Verdade é que seria agora muito arriscado. Nunca ele pôs os olhos nos braços de D. Severina que se não esquecesse de si e de tudo […] Também a culpa era antes de D. Severina em trazê-los assim nus, constantemente”. Se Pancrácio é uma pulsação exaltada como vimos; Inácio=Borges=Borges>Inácio é esse advérbio insistente de tempo que conforma civilização.

O decisivo, neste ponto, são as aguçadas percepções literárias de Machado sobre nossa cultura – cultura de elite. É D. Severina quem, contraditoriamente, as explicitam em suas vicissitudes imaginárias. Seu mundo não poderia ser outro, senão aquele que adquire feições autolinguísticas de um patíbulo patriarcal. Nesta personagem de Machado de Assis perpassa e se ergue a vivência de um lugar em que são os olhos preventivos da desconfiança, sempre a espreitar atrás da porta, a oferecer impositivamente seu método. Ora; poder-se-ia ler as elocuções de D. Severina e o andamento narrativo enquanto oscilações entre uma paixão arrebatadora e palimpsestos de moralidade social. Entretanto, não é isto o que a prosa machadiana está a nos dizer neste trecho peculiar. (Não que em certos personagens não ocorra oscilações de temperamento; o próprio Inácio mimetiza o entrever oculto de Borges e explicita voragem pela negação do hábito-parentela: a certa altura sua voz de si enuncia; “– Deixa estar, […] fujo daqui e não volto mais”.) É que Machado faz Severina recitar na ação a linguagem “dignificada”, pois ela desde então maculou a si por autoverbalizar que Inácio, ao menos o Inácio da veneração imitativa, era uma criança – e ela “Rejeitou a ideia logo” de um braço pornográfico. (Ingênua impudente?) Não é que D. Severina esteja a nos falar de racionalidades outras de maneira figurada; o bruxo quer uma personagem (e uma literatura) que sugestione para a nação a latência da teimosia, a insistência de ideias que pousem com denodo na exaltação conjurada da narração. Por isso ele faz a trama ressoar que “por mais que a gente as sacuda [certas ideias], elas tornam e pousam.” Fogo-fátuo que incita Severina – “Inácio não é criança!” Seria ele espaço de realização; de afeto nacional reconciliado? Ainda assim – era Borges que ele espelhava. Ser mimético da cultura. Esta traçava sua fisiognomia de olhos de esguelha herdado no convívio da casa, pois “entre o nariz e a boca do rapaz havia um princípio […] de buço”. Não tinha a inocência da não-identidade que quer outro mundo. Bem entendidas as coisas, “princípio de buço” não é começo cronológico-etário; é fundamento do Brasil como sociedade. É vida cercada por dispositivos de sagração. Na urdidura do caso D. Severina e Inácio possuem deleites antagônicos; enquanto esse Borges apócrifo exerce com tímidos arabescos sua destinação na cultura do escarnio que se quer séria, mas é desde há muito preservadora da ordem, da família e da propriedade, aquela se quer deixar, ainda que com palpitação (erótica) ínfima, enternecer-se pelos redemoinhos da contingência desafiadora. Há uma angústia fabulada nas figuras de Machado, pois entre o peteleco com luva de ferro e sua tensa sedimentação no discurso direto (Inácio, no fundo quer ser Borges, ele está sempre à mesa obscenamente violenta da intriga) – presenciamos a narrativa machadiana entoar “E não era ela bonita?”. Não é necessária uma resposta derradeira; é suficiente diante da civilização brasileira que a declamação de si de Severina interpele com ousadia o sistema da casa e seus olhos de través. E este suposto ceticismo organizado foi extirpado pela própria D. Severina; é que “esta […] ideia”, de ser bonita, “não foi rejeitada”. Severina queria a flor da transgressão como ato de subversão da civilização da terra brasilis – porém não ignota. Estamos aqui a ler uma história atravessada por um jogo explosivo de sortilégios espirituais contra estruturas de identidade; ora não é que D. Severina tenha aprendido algo do bovarismo, ela sonha acordada e não esvazia de si a bruma cintilante e ligeira de felicidade – a ideia de ser bela não só não era rejeitada: “antes [foi] afagada e beijada”.

Assim, se Machado constrói o duplo fundamento – Borges-Inácio – dos olhos de soslaio a espreitar, a flertar, a recorrer ao hábito de afagar com o peteleco (com luvas de ferro); ele neste terreno de dissimulações oferta na sua obra outros olhares. Existe um fluxo de desafios e elocuções de si que faz vigília profana a este mundo de depravação – nossa farsa violenta. Mas isso não é meramente um enredo criado com artifícios oratórios extrínsecos; na literatura machadiana existe uma síntese impossível (Walter Benjamin): há ingenuidade urdida; conspiração inocente. O extraordinário chão nacional declamado por Machado (e suas figuras) se faz tecer no próprio excesso de insinuações, de modo que na voz a indagar quem está a querer conversar no momento do ato de dignificação – o poder almoçar é sempre o gesto loquaz do mais forte – existe antecipação discursiva. Quando se lança no fundamento, no implacável princípio da civilização, a voz ecoa a dúvida sórdida; quem me toma a palavra nesta sagração “– É escravo?”. Contudo o interrogar preventivo não é ingênuo, ele complementa o estatuto literário dos olhos de esguelha a vigiar a casa e a sociedade (e porquê não da nação); não é mera curiosidade ou admiração espontânea (“– É escravo? Perguntei admirado”) – é isto sim inquirição detetivesca, inquérito excogitado, forma real explicitada com modulação traiçoeira pronta para a “defesa” da casa. Compreende-se, assim, porque Machado é o escritor do desvelamento de algo que configura um círculo de aço intimista e intransigente, de viés e excessivo, que forma nossa “cultura”. Meneses é a voz oculta, a não-presença que dá andamento ao enredo; o senhô o portador do peteleco dado com luva de ferro à rebeldia negativa contra os seis mil-réis; Borges o civilizador que anseia por rejuvenescer-se em Inácio; este é a mimese da cultura ou o romantismo legado que ergue flerte desavergonhado como prova de civilismo aprendido daquele (Inácio sempre volta… e olha de través D. Severina); a voz que declama a si na inquirição sobre a ousadia indeterminada interrompendo o momento augusto é a ordem natural que dá o arranjo para todas as nossas questões. Há uma sociedade sempre no limiar da ruptura no sistema estético machadiano. Pois em a Missa do Galo duas escravas arcam com os costumes velhos (de Meneses, de Conceição e de Nogueira a incitar essa, “– Que velha o quê, D. Conceição […]”) da cena, da casa; em Uns Braços, irrompe na prosa o “trabalhava como um escravo” cínico de Borges – aqui se deixa entrever a moralidade agressiva de uma sociedade escravagista (Caio Prado Jr.). Pancrácio e sua recusa ao salário de seis mil-réis é uma crônica chamada Abolição e Liberdade. Resta saber se os ecos de Machado de Assis irão nos livrar das nuvens do desespero em que fomos lançados. Para isso é necessário um certo redemoinho crítico machadiano – ou estamos destinados a responder como aquele não-personagem que ao ser indagado “– É escravo?” responde, “– Antes fosse”; então é “– Pior que escravo?”, não ele diz, “– O escravo pode libertar-se, eu não posso nada” (Grifo meu); é que “– […] eu sou o próprio Ostracismo”; “– Tu… Ostracismo…”: “– Eu mesmo […]”. A crônica nomeada de O Sr. Ostracismo foi escrita pelo bruxo do Cosme Velho em 04/01/1886. Quanto tempoi!


i Não sei se fui bem sucedido: busquei neste ensaio articular crítica imanente e filologia. Ver respectivamente: Neil Larsen – Literatura, Crítica Imanente e o Problema do Ponto de Vista. Revista Remate de Males, V. 30, nº 1, 2010 e Giambattista Vico – Ideia da Obra. In: A Ciência Nova. Record, 1999. Sobre as obras de Machado de Assis: foram utilizadas Missa do Galo e Uns Braços. Edição comemorativa da Unesp de 100 anos da morte de Machado, ed. Unesp, 2008; e Abolição e Liberdade e O Sr. Ostracismo estão em Crônicas Escolhidas de Machado de Assis, ed. Folha de São Paulo/Ática, 1994. Os autores que aparecem no texto podem ser consultados e lidos em: Harold Bloom – O Cânone Ocidental: os livros e a escola do tempo, ed. Objetiva, 1995; Conceição Evaristo – Ponciá Vicêncio, ed. Pallas, 2017; Walter Benjamin – A Imagem de Proust. In: Obras Escolhidas: Magia e Técnica, Arte e Política, vol. 1, ed. Brasiliense,1994; Caio Prado Jr. – Evolução Política do Brasil, ed. Brasiliense, 1999.

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