Retratos da vida em quarentena: Solo

Coloca a filha na frente da TV. Reunião. Precisamos responder à crise. Travou aí? Onde foi parar essa menina… Esquenta a lasanha. Chora – mas precisa terminar o relatório. Como encontrar poesia nesse amontoado de tarefas que chamam de rotina?

Retratos da vida em quarentena é resultado de uma chamada pública de textos lançada pelas editoras Elefante e Dublinense em março de 2020, quando a covid-19 começava a se espalhar pelo país, levando boa parte da população ao isolamento social — e outra boa parte, ao risco da labuta diária fora de casa em plena pandemia. A proposta era “selecionar textos narrativos em prosa, em primeira ou terceira pessoa, escritos em língua portuguesa por brasileiros e brasileiras (ou estrangeiros e estrangeiras residentes no Brasil), sobre a experiência de atravessar a pandemia de coronavírus”. Mais de mil textos foram submetidos, entre os quais dezenove foram escolhidos. Aqui você pode adquirir o livro.

Pega a meia jogada no meio da sala e cada pecinha do brinquedo colorido que pareceu uma ótima ideia de presente no último natal. lembra do e-mail que deveria ter sido enviado ontem, mas vai hoje, sem falta. o pão tá quase queimando na torradeira. grita para o filho mais velho vir logo. a mais nova passa deixando um rastro de água, ou será xixi? os três sentados pra comer, passa pão, passa geleia, toma o leite, derrama café na toalha limpinha.

coloca o filho na frente do computador, a filha na frente da tv, vai usar o celular para a reunião de alinhamento estratégico da equipe. quem inventou essa história de escola em casa? procura uma roupa menos amassada, avisaram que é preciso ligar a câmera. as olheiras não tem como disfarçar.

um fala, o outro responde, ela tá com o microfone no mudo, travou aí também?, precisamos responder à crise, não dá para ficar parado. o filho tem uma dúvida sobre fração. a filha não está mais no sofá. onde foi parar essa menina, tá muito quieta, boa coisa não é.

não acredita que já é meio-dia. come aqui essa banana que eu ainda preciso terminar esse relatório. não, não pode brincar lá embaixo. digita, analisa, reflete, a cabeça no trabalho, na casa, nos filhos, no maldito ex que resolveu fazer quarentena na casa de praia com a namorada e um casal de amigos.

liga para os pais para conferir se estão em casa, se não estão saindo, se precisam de alguma coisa. chama os filhos. uma beija a tela que mostra os avós, o outro conta do documentário sobre dinossauros que assistiu na semana. desligam com a voz chorosa.

se espreme num canto da sala para sentir o único raio de sol que entra na casa. aproveita para ver o que as outras pessoas estão fazendo, quantas morreram, quem foi cancelado. promete que o próximo que disser que “vai passar”, ela manda à merda.

olha de longe para uma mancha na parede, não sabe se é canetinha, comida ou meleca de nariz. pensa na mancha como um buraco que a leva para outra dimensão, outro tempo na história, um universo paralelo. para, volta. você não é virginia woolf, uma mancha na parede é só uma mancha na parede.

coloca a lasanha no micro-ondas, lava uma alface e corta um tomate bem fininho, como em um livro que leu faz tempo. é o jeito que ela tem de colocar um pouco de poesia nesse amontoado de tarefas que chamam de rotina. a louça tá acumulada de ontem.

os dois estão brincando juntos depois de almoçar, percebe que pode escrever aquele e-mail. no segundo parágrafo começa a gritaria, briga de irmãos, ninguém sabe como começou, mas termina sempre com a mãe aos berros também. dessa vez não aguenta e chora.

chora. chora. chora. chora.

quarenta dias dentro de casa e não tinha chorado ainda. mas agora chora. os filhos, estáticos, olham a mãe se desfazer diante deles. se pudesse, ficaria horas assim. mas enxuga as lágrimas, fala que tá tudo bem, vai ficar tudo bem. diz que vai passar.

como se não tivesse nada mais importante para fazer – e talvez não tenha – vai para a cozinha. faz o bolo de cenoura, receita da avó. com os filhos em volta, comem juntos a massa crua, sujam de farinha o chão engordurado.

já desistiu de trabalhar antes deles dormirem. brincam um pouco com um jogo da memória que compraram na última viagem, conversam sobre as pessoas que estão fazendo falta. depois de conseguir que os dois tomem banho, pede a segunda pizza da semana.

mal pode acreditar que a filha já dormiu e o filho está lendo na cama, sozinho. abre um vinho e tenta acompanhar as 172 mensagens no grupo das amigas da faculdade. manda uma mensagem: saudades e um coração lilás. deixa o celular na mesa e senta no sofá. toma um gole de vinho, respira fundo. ainda tem aquele e-mail que precisa enviar. amanhã, sem falta.

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