10 poemas de um andarilho na própria casa

Feitos durante a pandemia, eles não são canções desesperadas. Veem sim, o horror e as (inúmeras) pedras no caminho para a vida, mas também as miudezas, a beleza de criar e o porvir do mundo: soberbo o muro/ não suportava/ o braço da raiz

Os poemas abaixo fazem parte de brevETERNO, novo livro de Hamilton Faria, com 117 poemas escritos durante a pandemia.

I

escrever poemas
é fazer testamentos
morremos de viver

II

talhar o poema
sem fender a pedra
nem perder a gema

III

de tudo me alimento
do ácido vinho
do suave alento
vezes tento
outra aprendo
ali o extremo veio
onde se esconde
o inteiro e meio

IV

soberbo o muro
não suportava 
o braço da raiz

V

antigo de caminhos
andarilho perdido
segue a beleza

VI

da minha janela
o mundo é plano
redonda é a luz
que se derrama

VII

tudo sumiu
o menino
apagou o giz
na chuva

VIII

dia perguntamos
o porquê das mortes
dia acreditamos
tudo que nos resta

IX

daquela pedra eu sabia
mostrava caminhos
que impedia

X

olho no olho
do espelho
para me ver feliz
vejo um outro meu
mais feliz que eu


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