Quem salvará a Cinemateca Brasileira?

Ameaças a uma entidade à beira do colapso. Envolvida em imbroglio desde 2013, está sem verbas e perspectivas. Com acervo histórico inestimável, é retrato do descaso de governos com a Cultura

Adilson Mendes  e Carlos Augusto Calil em entrevista a Gabriela Leite, no Tibungo

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Queremos resgatar a história dessa instituição, no episódio de hoje. A Cinemateca Brasileira enfrenta um momento de crise financeira tão grave que corre o risco de não conseguir mais pagar a conta de luz. Funcionários trabalham sem receber. O material histórico que a instituição preserva corre sério risco de se deteriorar — e desaparecer para sempre. 

Esse desmonte vem desde muito antes do governo Bolsonaro, mas agora passa por um momento crucial. Um manifesto, assinado por figuras importantes da cultura e do cinema, foi lançado para chamar a atenção para o pedido de socorro da Cinemateca.

Para entender a crise da Cinemateca Brasileira, temos dois convidados. Carlos Augusto Calil, professor do departamento de Cinema da USP, cineasta e pesquisador. Foi diretor da Embrafilme, empresa brasileira de filmes, extinta no governo Fernando Collor. Também foi diretor da Cinemateca Brasileira, e, mais recentemente, secretário municipal de Cultura de São Paulo:

“A Regina Duarte não tem como dar certo na Cinemateca, porque é um cargo técnico e ela não tem nenhum preparo para isso. De uma maneira bastante neutra, sem nenhum exagero. E o governo não pode nomeá-la porque não tem [cargo] para onde nomear. Os cargos todos da Cinemateca foram retirados, no governo Temer, quando o ministro era Sérgio Sá Leitão, atual secretário de Cultura da cidade de São Paulo. A Cinemateca não tem mais cargo nenhum público, portanto ela não pode ser nomeada.”

Mas para entender os meandros de como a Cinemateca chegou à situação em que está agora, é preciso voltar no tempo para conhecer um pouco de sua história. O cinema no começo do século XX não era uma arte consagrada, e para poder reafirmá-la, alguns cineastas interessados na renovação artística, ligados aos movimentos de Arte Moderna, começaram a criar clubes de cinema. Daí nasceram as ideias de preservação das imagens em movimento — com movimentos fortes na França e nos Estados Unidos. 

Influenciada por esses movimentos, a elite intelectual paulista resolve importar a ideia. A Cinemateca nasceu dentro do Museu de Arte Moderna de São Paulo, e uma figura central para sua criação foi Paulo Emílio Salles Gomes. 

“É uma caminhada árdua com muitos problemas”, conta Adilson Mendes, historiador do cinema brasileiro. Ele nos ajudou a recuperar um pouco da história da Cinemateca:

“É uma história de destruição, marcada pela precariedade, por quatro incêndios. O primeiro deles, e talvez o mais desastroso, foi o que aconteceu em 1957, quando num primeiro esforço de reunir materiais pelo Brasil inteiro, tentar preservar, esse material reunido numa sede, na rua 7 de abril, pega fogo. Recentemente, entrevistei o Antonio Cândido, e ele dizia que talvez esse tenha sido uma das maiores perdas para a Cultura brasileira. É uma história muito difícil de ser contada, por ser uma junção do modelo francês com o modelo norte-americano, e por ser uma história de uma instituição não reconhecida pelos poderes oficiais”.

Apesar de ter um papel importantíssimo de recuperação e conservação de filmes, a Cinemateca não tem um papel apenas de museu. Ou pelo menos não deveria ser assim. Adilson conta, por exemplo, a importância que a Cinemateca teve para o Cinema Novo, um dos movimentos cinematográficos mais importantes do Brasil e do mundo, durante os anos 1960 e 70.

“Parece só uma história triste, mas é uma história que marcou profundamente a cultura brasileira, especialmente a partir dos anos 1960. A Cinemateca, mesmo com toda a precariedade, participou da difusão e da criação de uma cultura cinematográfica brasileira, e foi decisiva para a invenção de um cinema mais original, voltado para as especificidades da vida brasileira, que pensava num conteúdo e numa forma calcada na experiência histórica do Brasil. Então a Cinemateca, apesar da precariedade e das dificuldades de manter seu acervo, é uma espécie de célula mater do Cinema Novo. Em 1961, graças ao Paulo Emílio, mas também ao grande intelectual Mário Pedrosa, foi possível criar dentro da Bienal uma espécie de um lançamento oficial do Cinema Novo”.

“O reconhecimento da Cinemateca enquanto instituição de Cultura é muito recente. Em 1984, há o reconhecimento por parte do Iphan, a Cinemateca passa a ter funcionários ligados ao poder público. Então ela claudica dos anos 1950 até os 80, quando tem uma memória, passa a ter laboratórios de restauração. Porque uma coisa é ser uma filmoteca, que é um lugar que exibe filmes, mas uma Cinemateca contém, em seu conceito, a ideia de restauro”.

“E isso, na Cinemateca Brasileira, só passa a acontecer na passagem dos anos 1970 aos 80. Ganha uma força com essa inclusão no Iphan, mas tem sua época de ouro durante o governo Lula. E é uma época curta, porque já no governo Dilma isso acaba. Como se sabe, a Cultura, para o governo Lula tinha um peso, no seguinte tinha um peso muito inferior, vide as tristes figuras que foram escolhidas para ser ministras da Cultura.”

“Em 2013 há uma intervenção do ministério da Cultura na Cinemateca e isso paralisa por completo um sistema que se construiu a duras penas de uma junção de sociedade civil, poder público e algumas iniciativas privadas, que criaram, mesmo a duras penas, um formato de preservação e divulgação do cinema brasileiro. Ajudando a divulgar e estimulando novos olhares sobre a realidade brasileira, isso eu acho muito importante, porque ela não é só uma instituição ligada ao passado, mas ao colocar esse passado no presente, influencia o presente, e como os cineastas vão descobrindo que o Brasil já foi visto por outras pessoas antes dele, e como esses cineastas do presente se encaixam numa espécie de corrente, e como eles precisam se nutrir desses seus antecessores para renovar essa tradição. É uma instituição fundamental para o cinema. E essa influência oscila, naturalmente, em função das personalidades, dos momentos históricos. Mas com certeza o cinema dos anos 2000 se serviu muito dessas imagens preservadas pela Cinemateca. Para você ter uma ideia, como a Cinemateca virou uma instituição importante nessa época, é que ela passou a ser a terceira cinemateca do mundo a preservar filmes. Ela era a que mais preservava na América Latina, e a terceira do mundo”. 

“A recuperação desse passado serviu a inúmeros documentários, filmes de ficção e programas de televisão, que passaram a comprar essas imagens antigas e atualizá-las em suas produções. A Cinemateca não é só um museu voltado para o passado, ela faz essa conexão entre passado e presente de uma maneira muito orgânica. Quando funciona direito. Mas desde 2013, que é o momento dessa última crise, e a situação dela hoje é uma espécie de desdobramento de tudo que aconteceu desde 2013, isso não tem acontecido muito. Em primeiro lugar pelo funcionamento inconstante do laboratório de restauro. E também de uma política de difusão local e não nacional, que é o que se espera de uma Cinemateca que tem esse nome, Brasileira.”

Uma vez dentro do Ministério da Cultura, a Cinemateca fica à mercê de questões políticas delicadas. Ganhando mais visibilidade, passa a receber questionamentos sobre a gestão de seus recursos. O professor Calil nos ajuda a entender melhor essa parte da história:

“Mas ela entrou na jogada política, e com isso politizou-se e foi politizada. Isso significa paixões, disputas. E com essa questão toda, ela começou a ser questionada dentro e fora do ministério, quando ganhou uma espécie de excessiva visibilidade. E foram apuradas algumas irregularidades. Eu não diria que foram desvios de dinheiro para grupos ou pessoas, acho que não foi isso que aconteceu, mas irregularidades administrativas foram cometidas dentro da Sociedade Amigos da Cinemateca”

A Sociedade Amigos da Cinemateca é uma sociedade civil que foi criada em 1962 com a finalidade de auxiliar financeiramente a Fundação Cinemateca Brasileira. Quando a Marta Suplicy assume o ministério da Cultura, já no governo Dilma Rousseff, ela encontra um dossiê sobre as possíveis irregularidades na Sociedade Amigos da Cinemateca.

“E então ela intervém na Cinemateca, sem perguntar nada a ninguém nem tentar entender a outra parte. Ela simplesmente demite o diretor, nomeia um secretário do audiovisual completamente hostil à Cinemateca e demite o diretor; intervém na instituição, não renova o mandato do conselho, e a Cinemateca então passa a ser alvo de investigações que duram até hoje sobre essas irregularidades. Mas quem acabou sendo punido foi o conselho da Sociedade Amigos da Cinemateca, composto de gente como o professor Ismail Xavier e Roberto Teixeira da Costa, que não tem nada a ver com a gestão, que dava uma cobertura institucional. E a Cinemateca ficou paralisada a partir de então, porque seu conselho estava sob suspeição. E o problema, e agora quem fala é um ex-diretor e presidente da Embrafilme, não é muito distante a memória, quando um órgão participa da política cinematográfica, ela é arriscada. A política cinematográfica é violenta, ameaçadora para as instituições. A Embrafilme acabou melancolicamente, a Ancine agora vive uma agonia…”

A partir dessa crise a Cinemateca Brasileira foi perdendo relevância.

“E a Cinemateca então foi tratada com indiferença e hostilidade pelos funcionários da Secretaria do Audiovisual. Culminou que os funcionários foram se aposentando, não foram repostos porque não houve recurso. A Cinemateca foi minguando, minguando, até que a solução foi criar, contratar uma OS. A gestão Lula não contratou nenhuma OS, porque o PT tem uma desconfiança com esse modelo de gestão”. 

“A atual OS chamada Ascep é egressa da TVE, do RJ, ou seja, uma OS que entende de televisão pública, não entende nada de arquivo de filme, que é uma questão muito técnica.”

É nesse contexto já de deterioração que entra a gestão Bolsonaro, e extingue na primeira hora o ministério da Cultura, transformando-o em secretaria especial dentro do ministério do Turismo. A pasta, com orçamento limitado, teve como breve e repugnante secretário o diretor de teatro Roberto Alvim, que foi demitido por fazer uma cópia fiel demais do nazismo, durante um pronunciamento.

Regina Duarte, que assumiu a pasta depois de Roberto Alvim, ficou pouco mais de dois meses no cargo, mas foi o suficiente para exaltar a ditadura militar e fazer pouco caso dos mortos pela pandemia de coronavírus.

Após breve crise, foi limada do governo. Mas recebeu um prêmio de consolação que o professor Calil considera mais um presente de grego… Foi teoricamente encaminhada à coordenação da Cinemateca Brasileira. 

“Assim que assumiu o governo Bolsonaro, eles, como você tá vendo, substituíram todas as pessoas do governos anteriores, estão instrumentalizando os órgãos todos, e também na Ascep foi trocada toda a diretoria para gente ligada ao novo governo. Parecia que eles estavam se entendendo. Até que no final do ano passado (2019), para a surpresa geral, o atual ministro da Educação rompe o contrato com a Ascep e até hoje ele não foi restabelecido”.

“Como a Cinemateca estava vinculada a esse contrato, a Ascep continua cuidando dela e mesmo sem repasses suficientes, até onde estou informado, ela começou a adiantar as despesas da Cinemateca com sobras de caixa.”

Acabou o dinheiro, não há mais contrato com o Ministério da Educação e a secretaria de Cultura diz que não pode repassar recursos. Uma situação Kafkiana, como definiu o professor Calil. Os funcionários estão sem receber salários e sem perspectivas. Foi nesse contexto que foi lançado o Manifesto pela Cinemateca, em 15/5. 

Em um trecho, o Manifesto diz o seguinte:

“Se o orçamento da Cinemateca não for imediatamente repassado a ACERP, assegurando a manutenção do quadro mínimo de contratados e as condições físicas de conservação, não haverá necessidade de uma perspectiva de fôlego, pois já teremos alcançado a solução final.”

Adilson: “Eu acho que realmente a Cinemateca tende a ser esquecida, e o esquecimento dela é muito grave, porque isso significa novos acidentes, novos incêndios, mas também o esquecimento dos filmes. E esse esquecimento também significa a sua destruição. Porque a gente tem essa ideia de que os filmes estão guardados e uma hora poderão reaparecer, mas isso é um engano: sem manutenção as películas — mas também os arquivos digitais — vão se perdendo. Cada dia que a Cinemateca passa sem o orçamento que ela precisa, é mais um dia que a memória audiovisual brasileira vai se perdendo.

Calil: “Alguma solução vai ser encontrada, eu espero. Eu não sou totalmente pessimista, agora eu não vejo clareza no governo federal para resolver a situação.”

“Para além dos problemas de emergência, há um problema institucional na Cinemateca. Começa pela autonomia. Quando ela foi transferida de uma fundação privada, em 1984, para ser um órgão da Fundação Nacional da Memória, houve um contrato registrado em cartório, no qual o patrimônio dela era transferido para o governo federal, e as condições dessa transferência se dava. E uma delas era de que ela manteria permanentemente um conselho da sociedade civil, e esse conselho é quem elege o diretor. Esse conselho não é renovado desde 2013, ele não está funcionando porque o governo se recusa a nomeá-lo. Nós vamos esperar que a institucionalidade da Cinemateca se refaça para ela voltar à normalidade?”

O professor Calil acredita que a melhor solução para a Cinemateca seria voltar a um órgão de conservação, um pouco mais afastado das disputas políticas…

“Para ter um vínculo com um órgão de patrimônio, seja o Iphan seja o Ibram. Sair da política cinematográfica, sair da secretaria do Audiovisual. Mas tudo isso é distante. Agora, ela precisa de socorro: pagar salário, pagar as dívidas, retomar um mínimo de normalidade e bom senso. Se não houver um contraponto ao desmando do governo, a cultura fica atrelada, ela fica a serviço ou no mínimo neutralizada pelos interesses do governo”. 

“A Cinemateca precisa ser salva. Precisa de oxigênio e perspectiva de sobrevivência. E depois de acerto de sua institucionalidade.”

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