13 de maio: a resistência das camélias e a abolição tardia

Inspirado em romance de Alexandre Dumas, movimento abolicionista usava flores como símbolo da liberdade. Mas, apropriadas pela aristocracia racista, foram usadas como adorno para cerimônia de uma Lei Áurea inconclusa e injusta

Ex-escravos do Quilombo do Leblon fazem reverência à Princesa Isabel com camélias, símbolo do movimento abolicionista. Capa da “Revista Ilustrada”. Julho de 1888.

Por Paulo José Penalva Mancini, no EcoDebate

Muitas camélias, flor de origem asiática, símbolo da liberdade e dos abolicionistas brasileiros do século XIX, foram levadas do Quilombo do Leblon para ornamentar a cerimônia de assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel em 13 de Maio de 1888. O Brasil foi um dos últimos países a, formalmente, abolir a escravatura. Talvez, sem contudo eliminar o sistema escravagista, mantido através da exploração da mão de obra barata.

O Quilombo do Leblon era uma chácara situada no bairro hoje denominada Leblon, inicialmente de propriedade de um francês e que, nos anos 80 do século XIX, foi adquirida por um fabricante de malas no Rio de Janeiro e que, nesta chácara, abrigava negros fugidos. No Quilombo do Leblon eram plantadas camélias e vendidas. Os abolicionistas as usavam na lapela do paletó como insígnia de sua militância. Também nos jardins de suas casas eles plantavam pés de camélias para serem identificados como tal.

Lerda, sem vontade, ‘prá inglês ver’ (expressão atribuída a leis criadas pelo Império, por pressão dos interesses da Inglaterra, proibindo tráfico de escravizados, mas quase nunca aplicadas), a abolição da escravatura no Brasil foi tardia também porque já eram muitas as rebeliões de negros escravizados, muitos os negros libertos (forros) que de alguma forma conseguiram comprar sua liberdade e crescente a consciência abolicionista de boa parte da intelectualidade brasileira na segunda metade do século XIX.

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Ao contrário da abolição da escravatura nos Estados Unidos, consolidada após uma guerra civil (Guerra da Secessão), onde o governo Abraham Lincoln promoveu uma reforma agária garantindo uma porção de terra a cada família de negros, no Brasil os negros saíram para liberdade sem qualquer indenização, fundo de garantia, qualquer bem que remunerasse todo trabalho responsável pela construção da nação brasileira, ou que garantisse o mínimo de recursos para sobrevivência com alguma dignidade. Por que será que nas favelas brasileiras predomina população preta ou mulata?

Mas, se por um lado a Lei Áurea (lei de apenas um artigo), foi injusta com os negros, por outro lado não indenizou os escravocratas que reivindicavam indenização por suas ‘propriedades’ perdidas. Certamente essa insatisfação e o receio de que o Imperador ainda viesse a promover uma pequena reforma agrária para beneficiar os negros libertos (havia projetos de lei neste sentido no Senado), influenciaram a conspiração palaciana que levou ao primeiro golpe militar no Brasil, que hoje chamamos de Proclamação da República. É triste, mas é essa nossa realidade histórica. O regime republicano que, em tese, visa garantir o direito do povo dirigir seu próprio destino, nasce, no Brasil, de um golpe militar – o Marechal Deodoro era o Ministro da Guerra de D. Pedro II, ou seja encarregado de defender o Império – articulado pela aristocracia rural brasileira e, obviamente, com o apoio de intelectuais republicanos idealistas brasileiros. A proclamação da República no Brasil teve de tudo, menos participação do povo brasileiro. Aliás, como nossa Independência…As organizações realmente construídas pelo povo brasileiro – p.ex.: Palmares, Revolução Pernambucana de 1817, Cabanagem no Pará, Farrapos no Sul, Belo Monte ou Canudos na Bahia, etc – foram todas, como a maioria de nossos povos originários ou indígenas, massacradas!

Em São Carlos, SP, houve reuniões conspiratórias para derrubada do Império. A família Arruda Botelho, cujo primogênito, Antônio Carlos de Arruda Botelho, era o Conde do Pinhal, uma liderança política e econômica monarquista, tinha, contudo, nas pessoas de seus irmãos Bento Carlos de Arruda Botelho e Cel. Paulino Carlos de Arruda Botelho,, importantes lideranças republicanas. Foi no Palacete do Bento Carlos de Arruda Botelho, situado na rua 13 de Maio, em frente a Praça Cel. Paulino Carlos, onde uma destas reuniões de articulação para a Proclamação da República realizou-se. .

As recentes (e pequenas) medidas compensatórias, chamadas também por ‘ações afirmativas’, como cotas para negros ou afrodescendentes e outras, como Bolsa Família, Programa Minha Casa Minha Vida, Mais Médicos, Luz para Todos, etc., que promoviam um pouco de justiça econômica e social às populações empobrecidas de nosso país, composta em sua maioria por descendentes de negros, causou enorme rancor das elites brasileiras e de parte da classe média brasileira que ainda estão imersas numa cultura que naturalizou a escravidão, insensível às dificuldades pelas quais passam àqueles e àquelas que os servem. Os quartinhos de empregada, os elevadores social e de serviço, a confusão de negro de terno com segurança, são algumas das evidências de um racismo estrutural e preconceito de classe escandalosos para uma sociedade que se considera, predominantemente, cristã.

Por que a Camélia tornou-se símbolo do abolicionismo?

Através de um vídeo da série “Pé de Quê?” da TV Futura, protagonizada pela Regina Cazé, onde cada edição discorre sobre alguma árvore, tomei conhecimento da história do Quilombo do Leblon que plantava camélias e cuja venda ajudava na manutenção da comunidade e a alforriar novos negros. Mas porque a Camélia era símbolo dos abolicionistas?

Um pouco de pesquisa leva-nos ao famoso romance francês “A Dama das Camélias” de Alexandre Dumas Filho, publicado em 1848, com sucesso quase instantâneo em toda Europa. Por exemplo, ‘La Traviatta’ de Giuseppe Verdi, publicada em 1855 na Itália, já foi inspirada no romance de Duma Filho.

“A Dama das Camélias”, como todo bom romance, conta a estória de um grande amor proibido. Obviamente tudo que é proibido, especialmente o amor, clama por liberdade. Dessa forma a camélia, e sua exótica beleza (é uma planta de origem asiática) não tardou a tornar-se símbolo da liberdade na Europa. Essa foi minha primeira dedução.

Tem um detalhe botânico que dá um tom de picardia e explica o título “A Dama das Camélias”. O grande amor proibido é de um jovem estudante de direito em Paris (personagem que lembra um pouco a juventude do próprio autor) e uma cortesã parisiense. Cortesã é um eufemismo usado para prostitutas de alta classe na Corte de Paris. Não ficava bem, eram enormes as inconveniências sociais , tanto para o jovem estudante de classe média, tanto para a cortesã, viver plenamente este romance.

Marguerite Gautier, a Dama das Camélias, adorava camélias e as usava como adereço em seus vestidos (creio que foi a inspiração para a criação da grife ‘Chanel’, que tem uma camélia estilizada como símbolo). Na natureza existem duas variedades de camélias: as brancas e as rosa avermelhadas. Atualmente, graças à engenharia genética existem camélias de quase todas as cores. Pois bem, Marguerite tinha por hábito se adornar com camélias brancas quando estava disponível. Nos dias em que sua condição feminina não favorecia os relacionamentos amorosos, ou seja, quando menstruada, usava então as camélias avermelhadas.

É uma estória pitoresca e faz sentido pensar que essa fosse a origem do uso da camélia pelos nossos abolicionistas. Mas é uma transposição apenas muito romântica para ser verossímil. Mas caminhei com essa explicação por algum tempo.

Um dia, por mera curiosidade, fui ler a biografia do autor de “A Dama das Camélias”, Alexandre Dumas Filho. Adolescente fui um leitor voraz de seu pai em “O Conde de Monte Cristo”, “Os Irmãos Corso! e, sua obra mais famosa “Os Três Mosqueteiros”. Quase caí de costas!

Agora sim, compreendia o real motivo da camélia ser usada pelos abolicionistas como símbolo da liberdade, símbolo do reconhecimento da dignidade humana, especialmente para os negros escravizados nas Américas.

Em sua vida, Alexandre Dumas Filho teve dois grandes estigmas.

O primeiro deles foi o de ser filho ‘bastardo’, fruto de um relacionamento clandestino de Dumas pai, com uma costureira. O já famoso Alexandre Dumas só veio reconhecer seu filho plenamente – registrando-o inclusive com seu próprio nome – quando ele já estava com 7 ou 8 anos de idade. Esse fato também ressoa na estória do romance indicando que ele tem mesmo fortes elementos autobiográficos.

O segundo estigma: Alexandre Dumas Filho tinha ascendência africana! E de herança paterna!!! Alexandre Dumas, pai, era neto de um nobre (marques) francês com uma escrava negra haitiana. Lembremos que o Haiti foi colônia francesa e a primeira nação da América Latina (e formada por população de maioria negra) a conquistar sua independência, e, por isso. sempre sofreu forte discriminação e isolamento por parte das nações imperialistas da Europa, temerosas de suas colônias tomarem o mesmo rumo.

Por não ter ‘sangue puro’, Alexandre Dumas, autor francês mais traduzido e publicado em todo mundo, provavelmente, até os dias atuais, nunca havia sido reconhecido pelo estado francês, como digno de ter seus restos mortais depositados no Panteão dos Paris que homenageia grandes filósofos e escritores franceses como Victor Hugo, Rousseau , Voltaire, Emile Zola, Louis Braille, etc.

Apenas em novembro de 2002, 132 anos após sua morte em 1870, seu corpo foi exumado, na cidade onde nasceu no interior da França, e conduzido para o Panteão dos grandes franceses.

Alexandre Dumas, Pai e Filho, foram vítimas de racismo na França do século XIX e chegaram a escrever sobre questões raciais. Obviamente os dois eram abolicionistas.

Agora sim, estava claro – como uma camélia – porque esta bela flor tronou-se símbolo dos abolicionistas brasileiros.

“Prá não dizer que não falei das flores”, diante da tragédia passada e presente de nossa mal abolida escravidão.

São Carlos, 13 de maio de 2020

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