Egito: revolução longe de terminar

Deposição do ditador Hosni Mubarak foi somente o primeiro passo de uma revolução que ainda tem muito a conquistar para os egípcios.

Por Gregg Carlstrom, da Al-Jazeera (26.02.11) | Tradução: Bruno Cava

Os informes começaram a chegar logo depois da meia-noite: contatos que encontrei em Cairo no começo deste mês, alguns ainda acampados na Praça Tahir, disseram que as forças armadas egípcias estavam usando a força para expulsar manifestantes do centro da capital.

Manifestantes haviam se reunido na sexta, no aniversário de duas semanas da saída de Mubarak, para lembrar a junta militar do país que eles querem reformas democráticas reais.

Testemunhas na praça disseram que os soldados, muitos vestindo máscaras e brandindo cassetetes ou armas automáticas, forçaram todo mundo a sair. Algumas pessoas — não está claro quantas — foram feridas e presas durante o ataque violento.

A repressão sublinhou a tensão que deve piorar nos próximos meses, até as eleições agendadas para setembro. Muitos manifestantes não confiam nos militares, e dizem que vão continuar a agitação por reformas políticas e econômicas; mas a paciência das forças armadas com as demonstrações parece diminuir.

Um processo em andamento

É tentador, e conveniente, enxergar os tumultos em série atingindo o Oriente Médio como eventos finitos. Tunisianos protestaram por 28 dias e obtiveram a saída do presidente Zine El Abidine Ben Ali; egípcios fizeram o mesmo com Mubarak depois de 18 dias.

Agora, o mundo está focado na Líbia, onde o entrincheirado Muammar Gaddafi se segura numa base de poder que encolhe como nunca. Talvez, se ele for removido em breve, a atenção se mova a outra autocracia encastelada — Iêmen? Bahrein? Mas a Revolução no Egito (como na Tunísia) estál onge de terminar, e seria um erro vê-la como passado.

Os manifestantes na Praça Tahir e em toda parte no Egito têm uma lista longa de demandas: eleições justas e livres, o fim de décadas sob estado de exceção, e um sistema econômico mais igualitário e menos corrupto, apenas para nomear algumas das demandas. Nenhuma delas foi obtida até agora.

Noutras palavras: remover Mubarak foi uma grande conquista, mas é ponto de partida, não linha de chegada. “Precisamos decidir nosso próprio destino”, escreveu num e-mail um ativista que estava na Praça Tahir na noite passada, um arquiteto que preferiu ficar anônimo. “Não podemos trocar um llíder por outro.”

As aparições das lideranças militares na TV Sonho foram geralmente bem recepcionadas. Até agora, a junta disse as coisas certas sobre democracia e reforma. Três de seus líderes — Mohamed al-Assar, Mokhtar al-Mollah, e Mamdouh Shahin — todos eles generais, fizeram uma aparição sem precedentes na TV egípcia semana passada. Eles responderam perguntas de jornalistas e do público durante as três horas do programa, e foram bem recebidos em geral pelos egípcios.

Eles prometeram algumas reformas significativas:

  • O atual governo, encabeçado pelo primeiro-ministro Ahmad Shafiq será temporário.
  • Funcionários de alto escalão acusados de corrupção durante o regime de Mubarak serão investigados e prestos (muitos dos quais já foram, mas os generais prometem mais) .
  • Presos políticos serão libertados (embora eles não especifiquem quando).
  • Egípcios poderão votar nas eleições vindouras com suas identidades nacionais, em vez de usar o sistema fraudolento com cédulas de votação.

No entanto, apesar de suas promessas, e dos intermináveis hinos de “o povo e o exército são um!” que ecoaram através da Praça Tahir este mês, existe uma inquietação insistente quanto às motivações do exército. Ele é o mais antigo pilar do estado egípcio moderno, afinal de contas, a fonte de todos os quatro presidentes pós-revolucionários e da força política e econômica do país, conquistada por seu próprio direito.

A repressão de sábado, com suas reminiscências das táticas repressivas do governo Mubarak, apenas aprofundaram a desconfiança.

“Podemos por favor agora parar essa canção nosso-exército-é-legal que todo mundo tem cantado por um mês? tuitou Hossam el-Hamalawy, um jornalista e sindicalista egípcio. “Esses generais são de Mubarak, não nossos”.

Vale a pena recomeçar o sistema?

As forças armadas, de sua parte, parecem tentar driblar os manifestantes, ao prometer reformas políticas enquanto conclamam pela unidade para enfrentar a batalhadora economia egípcia.

O movimento sindical foi uma força-chave atrás dos protestos que removeram Mubarak. Greves pelo país comprometeram o apoio das elites econômicas e políticas, que passaram a ver a manutenção de Mubarak no poder como uma ameaça à economia do Egito.

Desde a deposição de Mubarak, os sindicatos continuaram mobilizados por melhores salários e condições de trabalho. Desde 11 de fevereiro, greves afetaram fábricas têxteis, bancos, o transporte público e vários outros setores da economia.

A junta interpretou a continuada luta do trabalho como uma ameaça. Emitiu uma declaração na semana passada alertando que os protestos organizados pelo sindicatos são “ilegítimos”, e ameaçou adotar os “passos legais” contra as manifestações.

A economia do Egito sem dúvidas sofreu com o mês de tumulto. Turismo, que responde por mais de 10% do PIB, é o exemplo mais visível: as taxas de ocupação dos hotéis, como o Sharm al-Sheik, que normalmente chegam a 60 ou 70% nesta época do ano, amargaram taxas com um dígito só.

Mas na visão dos sindicalistas esta é uma oportunidade rara para conquistar reformas econômicas reais. A corrupção e o nepotismo foram marcas registradas da era Mubarak na economia egípcia, permitindo um punhado de bem-relacionados cupinchas enriquecerem mediante monopólios e acordos de gabinete.

A média dos egípcios recebe pouca seguridade social: o governo assegura-lhes um salário mínimo de apenas seis dólares por mês, e mesmo o salário médio, LE300 (US$ 51), é muito pouco para sustentar uma família.

Greves devem continuar, quer dizer, com alguns sindicalistas inclusive convocando uma greve geral nacional para remover o governo Shafiq e a junta militar.

As forças armadas prometeram mudanças, mas também anseia em por o Egito “de volta ao trabalho”  e restaurar muito do status quo. Opondo-se está um movimento organizado de protesto, energético, que não acredita inteiramente nas forças armadas e vai continuar com a agitação por reformas mais profundas.

A tensão provavelmente vai definir a política egípcia nas próximas semanas e meses, e decidir o resultado (ainda incerto) da revolução egípcia.

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2 comentários para "Egito: revolução longe de terminar"

  1. JANANINE disse:

    Eu acho q essa reportagem poderia ser melhor! 1°Página*-*

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