Um possível viés, antes da largada

Vacinas com adenovírus podem não funcionar muito bem em países pobres, alerta reportagem

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Talvez algumas das vacinas em testes hoje funcionem melhor quando administradas às populações mais ricas do mundo, alerta a repórter Roxanne Khams, na Wired. São aquelas que usam adenovírus humanos (que geram resfriados comuns) como vetores para induzir a produção de anticorpos contra o Sars-CoV-2. Entre as principais candidatas na corrida por resultados hoje, pelo menos três usam esses adenovírus. A Sputnik 5 (do Instituto Gamaleya) e a vacina da Cansino Biologics usam o Ad5; já o Ad26 está tanto na Sputnik 5 como na vacina da Jonhson & Johnson.

Já havíamos comentado aqui que há alguma desconfiança em relação a esse tipo de vetor. Como muitas pessoas já tiveram resfriado, há um risco de o organismo reconhecer o adenovírus e não produzir anticorpos contra o novo coronavírus. A novidade da reportagem da Wired é que ela traz dados que mostram como as infecções por esses adenovírus são mais comuns em países de baixa e média renda. Um estudo de 2006, que observou cerca de mil pessoas em cinco países, estimou que 34% dos adultos nos EUA tinham anticorpos contra o Ad5, em comparação com 89% e 96% dos adultos na Nigéria e na Costa do Marfim, respectivamente. Outro, de 2010,  viu que os anticorpos para o Ad26 também eram mais comuns entre as pessoas nos países mais pobres. Nos Estados Unidos, 88% dos participantes do estudo pareciam nunca ter sido expostos ao Ad26, mas esse número caiu para 39% na Tailândia, 31% no Brasil e 12% em Camarões. 

E até os adenovírus não-humanos podem vir a gerar problemas. O mesmo estudo de 2006 sobre o Ad5  encontrou grande prevalência de anticorpos contra a adenovírus de chimpanzé nos países africanos – esse é o vetor usado pela vacina de Oxford/AstraZeneca.

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