Um futuro bem distante

Segundo OMS, pode levar até cinco anos para controlar pandemia e coronavírus pode se tornar endêmico. Como viver com ele?

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Descobrir que há muitos casos não notificados não é necessariamente uma má notícia. Para os países que querem reabrir suas economias, seria na realidade a melhor notícia possível: um grande número de infectados, com uma quantidade estável de mortes, significa mais gente potencialmente imunizada contra o coronavírus (com todos os poréns que essa afirmação carrega). Em alguns lugares os testes de anticorpos (também com todos os poréns da variação na sua confiabilidade) estão sendo usados em massa, por amostragem, justamente para fazer essa estimativa e ver em que pé eles estão. Se um percentual muito alto da população já foi infectada, o vírus tem menos chance de encontrar novas vítimas, e é mais seguro voltar ao normal.

Mas os números não são animadores. A França divulgou recentemente que, de acordo com esse tipo de levantamento, menos de 10% da população foi infectada. Agora foi a vez do governo espanhol, que publicou um estudo afirmando que cerca de 5% da população foi contaminada. Seriam 2,3 milhões de pessoas, enquanto oficialmente o país tem 290  mil casos registrados. O percentual é muito baixo e, mesmo em Madri e outras cidades centrais mais afetadas pela pandemia, não passa muito dos 10%. “Estamos longe da imunização de grupo. Não sabemos o que vai acontecer, mas poderia haver um novo pico da infecção. Por isso, os critérios de cautela e de tomar as decisões com a maior informação disponível, é o mais sensato”, disse o ministro da Saúde, Salvador Illa.

Com apenas 5% das pessoas infectadas, cerca de 27 mil pessoas morreram no país. Imaginem se alguém sugerisse deixar o coronavírus correr solto até contaminar 70% da população…

Se nos países que começaram a fazer esses cálculos o percentual de pessoas afetadas é tão pequeno, a única certeza é a de que ainda tem muita gente passível de se infectar. Embora o número de casos no mundo esteja crescendo num ritmo mais lento, a pandemia ainda pode vir a piorar, alertou ontem a cientista-chefe da Organização Mundial da Saúde, Soumya Swaminathan. Em uma videoconferência promovida pelo Financial Times, ela disse que pode levar quatro ou cinco anos até que o coronavírus esteja sob controle – e notem que ela não disse “eliminado”. Isso vai depender das mutações que ele possa sofrer, da eficácia das medidas de isolamento, e, é claro, da descoberta de uma vacina viável.

Mesmo a vacina, que é a grande esperança, pode não dar resultados perfeitos. “Desculpem se pareço cínico, mas vejam quantas doenças poderíamos ter eliminado com vacinas perfeitamente eficazes, como a do sarampo, e não o fizemos. Podemos até descobrir, produzir e entregar, mas as pessoas precisam também tomar as vacinas”, completou Michael Ryan, diretor-executivo da OMS. De acordo com ele, o mais provável é que esse coronavírus se torne endêmico e que precisemos aprender a conviver com ele, como ocorre hoje com o HIV.

Até o momento, existem a grosso modo duas maneiras para conviver com ele depois que a primeira onda passar. Uma é esperar cada nova onda bater na nossa cara e enfrentá-la como o mundo fez agora de forma meio (ou muito) descontrolada. Ou seja, precisando decretar medidas duras e abrangentes de isolamento quando são identificados surtos, o que quase sempre esconde um monte de casos não registrados. Outra, que requer investimento e planejamento mas, no fim das contas, afeta menos a vida das pessoas e a economia, é começar a ter testes em massa o tempo todo, jamais se restringindo a pessoas com sintomas leves ou graves, mas sim englobando assintomáticos. E testar massivamente não adianta nada se o esforço se encerrar nos próprios testes: quando são encontradas infecções ativas (no caso dos testes PCR), é preciso isolar os contaminados até o fim do ciclo do vírus, e necessariamente testar seus contatos também. Dessa forma, novos surtos são localizados desde o princípio com mais facilidade, e podem ser adotadas apenas medidas mais pontuais e localizadas de isolamento. Essas medidas, por sua vez, precisam ser tomadas na hora certa e com segurança.

Como dissemos ontem, a cidade chinesa de Wuhan anunciou que vai fazer uma rodada de testes em todos os seus habitantes depois que seis novos casos foram identificados. No resto do país a testagem não é obrigatória, mas incentivada. Alguns governos locais custeiam parte das despesas, e várias empresas bancam o valor total para seus empregados. O país está com capacidade para produzir cinco milhões de kits de testes por dia.

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