Teich navega às cegas e Guedes se agarra à cartilha

Ministro da Saúde não responde a senadores. Paulo Guedes não abre mão de congelamento de gastos. País tem maior taxa de infecção de coronavírus do mundo

William Turner

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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O NOVO NAVEGANTE ESTÁ À DERIVA

Durou mais de cinco horas a audiência do ministro da Saúde Nelson Teich com os senadores ontem, feita por videoconferência. Convidado a prestar esclarecimentos sobre as ações da Pasta em meio à pandemia do coronavírus, desde o início da conversa ele foi pressionado pelos parlamentares a deixar clara a orientação sobre isolamento social.

A pressão não surtiu muito efeito. Teich disse que não podia oferecer respostas simples a perguntas complexas… Mais uma vez citou a intenção de alterar a diretriz atual, orientando o isolamento só para as regiões mais críticas e só para algumas pessoas, como idosos, casos confirmados e aqueles que tenham tido contato com doentes. “Ficar em casa é genérico demais. Ficar em casa vai ser a melhor opção para algumas pessoas, não para todas. Vamos trabalhar isso de forma mais específica”, afirmou, sem citar o já mal-afamado termo “isolamento vertical”.

“Estou estarrecido. Com todo respeito, mas acho que é uma dubiedade muito séria. Por favor, seja firme e claro nessa posição. Dê o recado à nação como líder da Saúde no país. Não pode haver dubiedade, especialmente quando o presidente da República está dando sinais contrários”, disparou o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE). Kátia Abreu (PP-TO) também engrossou: “Não estou satisfeita com as suas respostas. Respeito seu currículo, sua história, mas sinceramente eu quero saber: isolamento ou não isolamento? Se o senhor for defender o não isolamento, temos respiradores para atender a todos que vão precisar? O senhor sabe o que fazer? Se não sabe, vamos seguir com o isolamento”. Teich tirou o corpo fora: “O Ministério nunca se posicionou para saída do distanciamento. Tem que ficar muito claro. Nunca”, afirmou.

Mentira, não é. Só faltou dizer, evidentemente, que esse foi o ponto central na discórdia entre Bolsonaro e o defenestrado ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, e que os sinais enviados pelo presidente nesse sentido para os estados e municípios – e, pior, para a população – não poderiam ser mais diretos. Teich, é óbvio, não quis comentar as falas e atitudes de Bolsonaro, mas lamentou os números. “A gente sofre com as vidas que estão sendo perdidas. A gente não é indiferente às mortes das pessoas”, garantiu, completando: “Não vou discutir aqui o comportamento, mas eu posso dizer que ele está preocupado com as pessoas e com a sociedade”. Estamos vendo…

O ministro admitiuque não faz ideia de quando será o pico de casos do coronavírus no país. Não tinha mesmo como ser diferente, já que inexistem informações precisas sobre o número de infectados e de mortos, tornando nebuloso o cálculo da taxa de infecção. “Não sabemos qual o percentual da sociedade acometida pela doença, quantos são assintomáticos, e se essas pessoas transmitem tanto quanto as mais graves. Os testes que a gente faz não permitem hoje saber essa realidade. Sem esse conhecimento, estamos literalmente navegando às cegas, essa é a verdade”, afirmou.

Teich disse ainda que está discutindo apenas os “critérios para que haja uma flexibilização do momento certo” e que “é importante que já tenha um planejamento prévio quando isso acontecer”. Não é que seja errado planejar saídas do isolamento. Na verdade tem que haver planejamento mesmo, ou não há a menor chance de dar certo. O que ainda não ficou claro – e que bem já poderia ter sido adiantado pelo ministro – é se as diretrizes que ele pretende anunciar em breve vão exigir que se tenha esse tal “conhecimento” real sobre a curva de contágio no país antes que se possa tirar a reabertura do papel. Ou se, ao contrário, estados e cidades deverão tomar essa decisão a partir dos seus precários registros (como alguns já vêm fazendo). Além do mais, não deixa de ser estarrecedor que a energia do Ministério da Saúde esteja sendo dispendida nesse tipo planejamento enquanto as mortes no país seguem numa escalada monumental.

EM QUE PÉ ESTAMOS

Pelos dados oficiais, o Brasil chegou ontem a 5.466 óbitos (novamente, houve mais de 400 registros em 24 horas); já o número de casos confirmados está em 78.162. Se parece muito, podemos nos preparar para o pior: o relatório semanal do Imperial College de Londres projeta que até o próximo domingo podem ser 9,7 mil mortes no caso mais pessimista. Mas nosso ministro da Saúde já disse mais de uma vez que não gosta de projeções matemáticas, pois elas dão medo…

Voltando ao relatório, o documento avalia que o Brasil tem hoje a maior taxa de reprodução dos casos do mundo: 2,8. Esse número indica para quantas pessoas um infectado pode transmitir a doença. Para comparar, vimos ontem que a Alemanha está em alerta porque sua taxa chegou a 1.

Os números do InfoGripe, que devem ser acompanhados de perto diante da subnotificação de covid-19, mostram que entre os dias 19 e 25 de abril houve uma tendência de aceleração no crescimento das internações por SRAG (Sídndrome Respiratória Aguda Grave). Como noticiamos aqui, havia sido observada uma desaceleração na semana anterior, em consequência do isolamento social. “É importante aguardarmos a próxima semana para verificarmos com mais segurança se, de fato, houve uma retomada da aceleração e realizar análises mais concretas. Esta cautela é importante pelo impacto que o atraso tem nas estimativas de notificação mais recentes”, explica Marcelo Gomes, coordenador do sistema.

Aliás, a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão do MPF questionou ontem Nelson Teich sobre a provável subnotificação de mortes no Brasil. Os procuradores falam do aumento de sepultamentos em várias cidades, que crescem mais do que os registros de óbitos, e também mencionam o crescimento nas internações e mortes por SRAG.

E saíram os resultados da segunda rodada de testes da pesquisa coordenada pela Universidade Federal de Pelotas na população gaúcha (por enquanto, não se trata do levantamento nacional, que deve começar no dia 5 de maio). Como já explicamos, vai haver algumas rodadas de testagem de sintomáticos e assintomáticos para avaliar a prevalência do vírus e a velocidade com que ele se espalha. Até agora, cerca de 0,13% da população gaúcha já foi infectada, e os dados sugerem que pode haver de cinco a 26 casos não notificados para cada registrado. A boa notícia é que, se há muita gente infectada, a letalidade do vírus pode ser mais baixa do que se pensava. Quando se compara o número de mortes com o de infectados sintomáticos (ou, no caso do Brasil, só os muito graves e internados), essa taxa é alta. No Rio Grande do Sul, como foram incluídos muitos assintomáticos que testaram positivo, ela ficou em 0,33%.

Em tempo: a BBC lançou uma ferramenta que permite buscar o número de casos confirmados e óbitos em todos os municípios.

EXPECTATIVA CRESCE

A divulgação dos resultados do medicamento remdesivir contra o novo coronavírus veio cheia de spoilers, mas nenhuma certeza. Primeiro, um hospital de Chicago anunciou que, ao usá-lo em pouco mais de uma centena de pacientes graves, tinha conseguido salvar quase todos. Dias depois, vazaram alguns dados do primeiro ensaio clínico randomizado mostrando um desempenho frustrante: a droga não havia melhorado as condições de saúde nem reduzido a carga viral dos pacientes. Agora, de ontem para hoje, sites do mundo inteiro publicaram uma enxurrada de manchetes falando tanto em “esperança” como em ausência de benefícios. Isso porque ao mesmo tempo foram anunciados resultados de três pesquisas sobre o medicamento – e um é bem diferente do outro.

Os mais aguardados eram os resultados preliminares do maior estudo realizado até o momento. Financiado pelo Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID, na sigla em inglês), ele acompanhou 1.063 pacientes em 22 países. É dela que partem as mensagens esperançosas. A taxa de mortalidade no grupo que recebeu o remdesivir foi de 8%, só um pouco menor do que no grupo que recebeu placebo (11,6%). Já a diferença no tempo de recuperação dos pacientes foi bem expressiva: 31%. Pessoas que tomaram a droga tiveram alta em média quatro dias mais cedo, o que pode ser importantíssimo num cenário de falta de leitos.

Anthony Fauci, diretor do NIAID, ficou otimista: “O que este teste provou é que um medicamento pode bloquear o vírus”, disse ele, que ficou conhecido por se opor a Donald Trump. O médico afirmou que a situação o faz lembrar de quando saíram os primeiros resultados preliminares sobre o uso de terapia antirretroviral para HIV/Aids.  Na época, houve apenas melhoras modestas, mas dela partiram pesquisas que levaram a terapias eficazes. De acordo com ele, o remdesivir pode se tornar um tratamento padrão para a covid-19; a FDA (agência reguladora de medicamentos dos EUA) deve autorizar seu uso emergencial.

Porém, ao mesmo tempo, um novo artigo publicado no Lancet analisa os efeitos do remédio em pacientes de Wuhan. Foi este o estudo que vazou na semana anterior, e ele mostra que, embora o uso do remédio seja seguro, não houve aceleração significativa da recuperação nem redução das mortes. Cerca de 14% das pessoas no grupo de tratamento com remdesivir morreram após 28 dias, em comparação com 13% no grupo que não recebeu o tratamento. Mas há uma diferença gigante de escala entre a pesquisa do NIAID e esta, que envolveu apenas 237 pacientes adultos em estado grave, e todos em Wuhan. Por outro lado, para este estudo já há o artigo completo, que passou por um mês de revisão antes de ser publicado. No caso do NIAID, a pesquisa ainda não foi revisada por pares e os resultados finais só devem ser conhecidos em maio.

Tem ainda o terceiro estudo, o único que não teve um grupo controle recebendo placebo. Veio da Gilead, farmacêutica que produz o remdesivir, e diz respeito à duração do tratamento; não foram encontradas diferenças relevantes ao administrá-lo por cinco ou dez dias.

Representantes da OMS ainda não quiseram julgar nenhum dos resultados. “Normalmente, não há um estudo que venha a ser um divisor de águas. Depois de analisar todos os estudos e julgá-los coletivamente, podemos chegar a algum tipo de conclusão”, disse Maria Van Kerkhove, líder técnica da OMS para a crise da covid-19. O diretor-executivo de emergências em saúde da Organização, Mike Ryan, disse que ainda não havia lido o estudo completo mas “esperava fervorosamente” que algum dos remédios em fase de testes ajudasse a melhorar o estado clínico dos pacientes.

NADA O FARÁ MUDAR DE IDEIA

Para Paulo Guedes, dar à crise provocada pela pandemia do novo coronavírus uma resposta que envolva a ampliação de investimentos públicos é o mesmo que “bater a carteira” do governo. A declaração foi dada ontem na coletiva de atualização da covid-19. O ministro da Economia apareceu ao lado do chefe da Casa Civil, Braga Netto, em mais um lance da renovação de votos que o Planalto vem promovendo para afastar temores sobre a saída de Guedes e, assim, acalmar ‘os mercados’. 

O batedor de carteiras, no caso, seria o ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, que tentava articular de dentro do governo um caminho alternativo ao dogmatismo neoliberal da equipe econômica. O primeiro passo – Plano Pró-Brasil – era incipiente, cabia em sete slides de Power Point, mas tinha uma pré-condição contrária à cartilha de Guedes: a flexibilização da Emenda Constitucional 95. “Apertar o botão da gastança e sair procurando farra eleitoral é simples. Volta e meia tem um que pensa isso, e o que nós temos que fazer? Bater em quem faz isso. Bater no bom sentido, bater internamente. Brigas internas, nós conosco”, afirmou o ministro da Economia.

Aparentemente, Paulo Guedes acha que já faz muito por ter abandonado, com reticência e momentaneamente, a agenda das reformas para a adoção de “medidas emergenciais”. A isso ele chama de “rumo”. Ontem, ele disse que a retomada depende da flexibilização de marcos regulatórios em áreas como saneamento e energia e defendeu o fim do regime de partilha, que garante à União uma fatia nos lucros obtidos por todas as empresas na exploração do Pré-sal. “É isso que vai garantir que os recursos venham do setor privado”, disse, seguindo sua lógica muito particular. 

É claro que ele continua querendo vender empresas públicas e imóveis da União para… pagar a dívida pública. “Tem uma dívida de R$ 4 trilhões. Se acelerar privatizações, desestatizações e venda de imóveis. Pode reduzir bastante”, disse antes da coletiva, em uma videoconferência com empresários do varejo. “Estou absolutamente igual, com a mesma energia, mesma determinação. O presidente tem me apoiado, as hipóteses com que eu trabalho têm se mantido”, reforçou.

Além de economistas ortodoxos, parte do PIB vê com preocupação a teimosia do ministro da Economia. Dois exemplos. Para André Lara Resende, chama “restrição dogmática” o que paralisa Guedes à espera de que “o investimento externo crie um novo milagre brasileiro”. Para ele, o fiscalismo é uma “obsessão” vendida como “algo derivado de posição técnico-científica”, mas na verdade é “uma posição ideológica de restrição do Estado”

Já para um integrante do grupo Diálogo Pelo Brasil, que reúne os 50 maiores conglomerados empresariais do país, entrevistado em off pelo Valor, “Guedes terá de adaptar sua cartilha” e “abrir mais as torneiras para ativar a economia e reforçar as políticas que ajudem as famílias mais pobres a manterem algum poder de compra”. Do contrário, o ministro da Economia vai “expor no curto prazo milhões brasileiros a terem uma vida pior do que tinham antes da pandemia”.

DEMORA

Falando na parcela mais vulnerável da sociedade, existem nada menos do que 13,6 milhões de trabalhadores informais que terão de refazer o cadastro no aplicativo da Caixa Econômica Federal na saga pelo auxílio emergencial de R$ 600. O que atrasa a conclusão do processo são dados inseridos de forma incorreta ou não inseridos ou conflitantes. No total, 49,2 milhões fizeram cadastro. E 20,2 milhões foram considerados elegíveis por enquanto.

ECONOMIA PRA QUEM?

Dois analistas da Organização das Nações Unidas afirmaram que as “políticas econômicas e sociais do Brasil colocam milhões de vidas em risco“. Juan Pablo Bohoslavsky, especialista em direitos humanos e dívida externa, e Philip Alston, relator especial sobre pobreza extrema, criticam o governo federal por priorizar a economia. “Não é permitido colocar em risco a saúde e a vida das pessoas, incluindo os profissionais de saúde, pelos interesses financeiros de alguns. Quem será responsabilizado quando as pessoas morrerem por causa de decisões políticas contrárias à ciência?”.

Ambos defendem a revogação da Emenda Constitucional 95: “Os cortes no financiamento do governo violaram os padrões internacionais de direitos humanos, inclusive em educação, moradia, alimentação, água e saneamento e igualdade de gênero”. Também reforçam que o Brasil deveria estar estudando como melhorar o SUS e sua rede de proteção social. “Estados de todo o mundo devem construir um futuro melhor para suas populações, e não valas comuns”.

Por aqui, o Conselho Nacional de Saúde também criticou o governo federal em uma carta aberta. “Não bastasse atitudes irresponsáveis, criminosas e genocidas, além da campanha de desinformação disseminada pelo presidente da República, o ministro da Economia Paulo Guedes aplicou e aplica uma política de austeridade fiscal danosa, que se encontra sob fogo cruzado nas principais economias do mundo, inclusive por aquelas que a defendiam como única alternativa pouco tempo atrás”, diz o texto, que também defende a revogação da EC 95.

PREOCUPANTE

Em péssimo momento, o governo federal decidiu adiar para 2021 a entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados, que estabelece regras para que empresas e o poder público usem e compartilhem nossos dados pessoais. Ela começaria a valer agora no meio de ano. No meio da pandemia, quando vemos vários países se apoiando em informações geradas por aplicativos para conter o coronavírus, seria importantíssimo ter essa lei protegendo a população; aqui no Brasil, estados e municípios já fizeram parcerias com empresas para monitorar a localização das pessoas. O Congresso vinha conversando há tempos sobre esse adiamento. Mas a decisão acabou sendo arbitrária: veio por uma medida provisória assinada ontem por Jair Bolsonaro e Paulo Guedes.

BOLO E BILHÕES

Ontem, Jair Bolsonaro promoveu um café da manhã no Palácio da Alvorada para cerca de 30 deputados federais. Todos bem juntinhos e sem máscaras de proteção debatendo a estratégia de defesa do governo contra a oposição. Mais do que bolo e suco de laranja, o presidente está oferecendo R$ 10,6 bilhões para os partidos do Centrão se unirem à blindagem. A conta foi feita pelo repórter André Shalders, da BBC Brasil, que pesquisou os recursos que estão livres para investimento nas autarquias e empresas públicas que foram colocadas na mesa de negociação com partidos como PP, PL, Republicanos e PSD. Essas quatro siglas têm, juntas, 146 deputados.

DE VOLTA À VELHA TÁTICA

Ontem, durante a cerimônia de posse, o novo ministro da Justiça e Segurança Pública, André Mendonça foi elogiado por Bolsonaro por ser “terrivelmente evangélico”. Provavelmente será ele o indicado do presidente para ocupar a vaga no Supremo aberta com a aposentadoria de Celso de Mello. Por seu turno, Mendonça abusou do jargão bíblico. Disse que o presidente tem sido um “profeta no combate à criminalidade” e que atuará como um “servo”. 

Para o colunista da Folha, Bruno Boghossian, o episódio é mais um sinal de que Bolsonaro “resolveu abrir um baú de brinquedos antigos para distrair suas bases”. Ele lembra que, na semana passada, depois de acertar a demissão do diretor da Polícia Federal, o presidente publicou no Twitter um vídeo em que crianças diziam ser contra o aborto. Obteve mais de 85 mil interações com seus seguidores. No pronunciamento da sexta-feira e na cerimônia de ontem, elogiou o ministro da Educação Abraham Weintraub e reclamou da “doutrinação ideológica” nas escolas brasileiras. 

“Como se não existisse uma doença devastadora, ele voltou a acenar a redutos conservadores com uma pauta voltada à segurança pública e sua conhecida cartilha ideológica. (…) A ideia é mudar de assunto e reforçar seu vínculo com grupos que poderiam ficar perturbados com a escalada de mortes ou a saída de Sergio Moro do governo”, escreveu Boghossian.

Por pouco, o colunista perdeu a última atualização dessa velha tática. Ontem de noite, Bolsonaro imitou o outro Weintraub e acusou a Organização Mundial da Saúde de incentivar a “masturbação” em crianças. Arthur Weintraub postou no Twitter que a OMS tem “diretrizes recomendando que crianças de 0 a 4 anos sejam ensinadas sobre ‘masturbação’, ‘prazer e diversão’, ‘tocar o corpo’ e ‘ideologia de gênero’”. 

No Facebook, Bolsonaro tirou do contexto e distorceu orientações de um guia voltado para pais produzido pelo Centro Federal de Educação em Saúde da Alemanha em conjunto com o escritório europeu da OMS. “Essa é a Organização Mundial da Saúde que muitos dizem que devo seguir no caso do coronavírus. Deveríamos então seguir também suas diretrizes para políticas educacionais?”, postou, apresentando uma lista com expressões como “identidade de gênero positiva” e frases como: “As crianças têm sentimentos sexuais mesmo na primeira infância”. Tudo entremeado por comentários como “brincar de médico”. Minutos depois, Bolsonaro apagou o post. 

MAIS UM ROUND

Jair Bolsonaro disse “e daí?” para mais de 400 mortes, foi dormir e acordou ontem pronto para mais um round com governadores e prefeitos em plena pandemia. “Essa conta tem que ser perguntada para os governadores. Perguntem ao senhor João Doria, ao senhor (Bruno) Covas, de o porquê terem tomado medidas tão restritivas e continua morrendo gente. Eles têm que responder. Vocês não vão colocar no meu colo essa conta”. Questionado por um repórter se não tinha nenhuma responsabilidade na crise sanitária, o presidente afirmou que “a pergunta era tão idiota” que não merecia resposta.

Houve várias reações dos governadores. “Estou indignado com essas omissões, com essas inércias, com essas frases bárbaras, com essa indiferença. (…) Eu estou vendo a situação por dentro, como está o país todo, todo mundo está vendo pela TV, pela internet, menos Jair Bolsonaro“, disse Flávio Dino (PCdoB) ao UOL. “Não é ‘E daí?’, não, presidente. Seja responsável. A sua ‘gripezinha’ chegou e, em vez de continuar atacando os governadores, faça o seu trabalho. Sua atuação na maior crise de saúde do mundo é desastrosa”, escreveu Wilson Witzel (PSC) no Twitter. Já Doria respondeu durante a coletiva de imprensa que acontece diariamente que ao invés se divertir em estandes de tiro ao alvo, Bolsonaro deveria sair da sua bolha em Brasília e visitar unidades de saúde em São Paulo ou Manaus. “Esta é a resposta do ‘fazer o quê?’: é fazer aquilo que o senhor não fez”, disse.

GIRO PELOS ESTADOS

O Amazonas resolveu recorrer à ONU para conseguir recursos de fora, já que o governo federal tarda e falha. O governador Wilson Lima (PSC) enviou ontem uma carta à Organização em que denuncia a “pouquíssima ajuda federal” na pandemia. Ele é presidente da GCF, um grupo das Nações Unidas que reúne 38 governadores de estados localizados em áreas de floresta em dez países diferentes. “Na carta que eu estou encaminhado à ONU, na condição de presidente do GCF, peço que os esforços que estavam voltados para a proteção da floresta se voltem nesse momento para a área de saúde, para a aquisição de equipamentos, montagem de infraestrutura e contratação de pessoal para atender àquelas pessoas que foram responsáveis, ao longo dos anos, pela proteção de 97% da cobertura vegetal no estado do Amazonas”, disse o governador.

Segundo um estudo da Fiocruz, além do Amazonas, houve um aumento preocupante de óbitos em dez estados. O indicador utilizado pelos pesquisadores do grupo MonitoraCovid-19 leva em conta o tempo que levam para duplicar o total de óbitos. O estado que apresenta o maior ritmo desse crescimento letal é o Maranhão, onde a duplicação vem ocorrendo, em média, a cada cinco dias. Em seguida, vem Amazonas, Alagoas, Pará, Paraíba, Pernambuco e Rondônia, onde a duplicação de óbitos é registrada a cada seis dias. 

Os cientistas alertam que, a partir do dia 27 de abril,  dois estados aumentaram bruscamente o ritmo de aceleração no total de óbitos: Rio Grande do Sul e Sergipe. O tempo para duplicação de vítimas fatais da doença caiu à metade. No RS, o indicador caiu para oito dias. No caso de Sergipe, levou seis dias para a última duplicação. 

O levantamento também aponta para a interiorização da epidemia. Nas últimas semanas, a quase totalidade das grandes cidades (com mais de cem mil habitantes) apresentou casos da doença. Cerca de 44% das cidades médias ( que têm entre 20 mil e 50 mil habitantes) já possuem casos. Agora, a tendência é a emergência de ciclos de transmissão em cidades pequenas, que têm infraestrutura de saúde muito precária. O quadro tende a pressionar ainda mais as grandes cidades, como acontece em Manaus. 

O MonitoraCovid-19 oferece um aplicativo que será usado pelo Consórcio Nordeste para contratar profissionais e distribuir pelos nove estados da região. As pessoas entram, fornecem seus dados clínicos e se forma um mapa com os focos. A partir daí, será distribuída a força de trabalho da chamada “Brigada Especial de Saúde”. Serão aceitos médicos formados no exterior. “Para 15 mil médicos brasileiros e estrangeiros que estão no Brasil sem poder praticar a medicina, nós estamos oferecendo a nível estadual, em cada estado do Nordeste, a possibilidade de eles fazerem um processo rigoroso de revalidação do seu diploma em seis meses. Eles vão ter esse componente de ensino-serviço, onde vão estar juntos com as equipes para ir à linha de frente do combate do coronavírus”, disse ao Brasil de Fato o coordenador da Comissão Científica do Consórcio, o neurocientista Miguel Nicolelis.

Duas situações chocam nas últimas 24 horas. Em Belém, o governador Hélder Barbalho anunciou que decidiu transformar o Hospital Abelardo Santos em um pronto-socorro dedicado exclusivamente à covid-19. Depois da notícia, um grupo de pessoas tentou derrubar o portão da unidade. Para a Polícia Civil, a tentativa de invasão teria acontecido não por desespero, mas seria fruto de “grupos políticos que querem desestabilizar a sociedade”. O fato é que desde o fim de semana, a rede do SUS na capital está saturada. Além disso, não há leitos de UTI também nos hospitais privados. O Abelardo Santos começa a funcionar hoje, com 20 leitos de UTI e 75 de internação. O índice de isolamento está em 46% no estado. Para reverter a situação, o governo resolveu lançar uma campanha com a seguinte pergunta: “Você quer morrer e matar sua família e amigos?” 

Já em Pernambuco a conta dos leitos de UTI também não fecha. O estado abriu vagas e conseguiu ampliar a capacidade para mais de 400. Mas, por lá, 186 pacientes aguardavam para receber cuidados intensivos ontem. “Nenhum sistema de saúde do mundo suportou isso. Ou nos conscientizamos para suavizar a curva nos próximos 15 dias, ou a situação será duríssima em Pernambuco. Não criem falsas expectativas: o número de casos e de mortes, a continuar essas filas enormes nas portas dos bancos, as pessoas desrespeitando as medidas de isolamento, vai crescer exponencialmente. Às vezes as pessoas não têm acreditado nisso. São dezenas e dezenas de coletivas feitas, nas quais sempre alertamos a gravidade da situação. Agora podemos constatar essa maior dificuldade, e a cada dia se somam mais dificuldades”, apelou o secretário estadual de saúde, André Longo.

Em busca de algum critério objetivo, o Conselho Regional de Medicina do estado publicou uma recomendação estabelecendo um sistema de pontos que ajudam a decidir os casos que devem ter prioridade e os pacientes que não receberam os cuidados necessários. A prioridade será dada a quem tem mais chance de sobreviver a longo prazo com qualidade de vida. É o critério usado em outros lugares que tiveram de fazer essa escolha de Sofia, como Itália. 

E, ontem, o Maranhão se uniu a Amazonas e Pernambuco e atingiu os 100% de ocupação de UTIs. Flávio Dino tinha prometido estabelecer um lockdown se o índice chegasse a 80%. Nos últimos dias, ele vem dizendo que o estado está mais perto dessa medida de bloqueio da circulação e, ontem, deu a entender que vai decretá-la semana que vem. “Não há dúvida que nós temos uma tendência, infelizmente, a partir da próxima semana, de termos um endurecimento de medidas [restritivas]. Elas são necessárias, é o caminho que o mundo todo indica”, afirmou em entrevista à TV Mirante.

No Rio de Janeiro, o secretário estadual de saúde, Edmar Santos, divulgou ontem que o governo trabalha com a projeção de que haja, na verdade, 140 mil infecções – embora apenas oito mil casos tenham sido confirmados. “Pelas estatísticas internacionais, isso fará com que nas próximas semanas a gente tenha a necessidade de 21 mil internações em enfermarias, algo em torno de sete mil em CTI. Não tem sistema de saúde no mundo que dê conta dessa ampliação de leito em um período de tempo tão curto. Nem há médicos, enfermeiros, fisioterapeutas em número suficiente para se abrir um número tão grande de leitos. Isso fará com que a gente enfrente uma situação de desbalanço entre a necessidade de leitos e a possibilidade de tê-los”, sinalizou em entrevista à CNN.

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