Sem posse à vista, Queiroga segue Pazuello e ouve do general: ‘rezamos na mesma cartilha’

Futuro ministro culpa população pelo caos sanitário e planeja lançar diretrizes nacionais de isolamento sem falar em lockdown

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Marcelo Queiroga ainda nem assumiu o comando do Ministério da Saúde, mas já se sucedem os episódios que demonstram que sua gestão será do tipo algo deve mudar para que tudo continue como está.

Ontem, ao lado de Eduardo Pazuello, ouviu o general repetir à imprensa o que o próprio presidente tinha dito quando anunciou sua escolha: que a nomeação do médico significa apenas a continuidade do trabalho do militar da ativa. Segundo Pazuello, Queiroga “reza na mesma cartilha”.

Queiroga parece estar de acordo: “A política pública do governo, não só do Ministério da Saúde, é a política do governo federal, do presidente da República eleito pelos brasileiros.”

Alinhado a Jair Bolsonaro e sem poder criticar o general, o futuro ministro já escolheu seu bode expiatório para o caos sanitário: a população. “Não adianta o governo recomendar uso de máscara, que é simples, e as pessoas não terem condições de aderir. O governo recomenda o fim de aglomerações fúteis e as pessoas ficam fazendo festa. Não adianta esperar que o governo resolva tudo”, criticou, deixando de lado os fatos exemplos de aglomerações sem máscara dados pelo governo federal. 

À colunista Monica Bergamo, o médico sem querer demonstrou a que ponto chegamos: caberia a ele “convencer o presidente” sobre fatos há muito superados. “Ele está sensível para a questão das máscaras“, exemplificou. No meio da pandemia, é esse o trabalho do ministro da saúde do país com o maior número de mortes do mundo… 

Mas o bolsonarismo não admite nem mesmo um simulacro de mudança no projeto de livre circulação de vírus e pessoas que é a marca deste governo. “[Bolsonaro] Já colocou outros e errou feio. [Augusto] Aras, Kassio [Nunes Marques] e agora mais um totalmente avesso às ideias do governo?”. O post deu o tom da recepção dos apoiadores de Jair Bolsonaro nos grupos de WhatsApp, segundo a colunista Malu Gaspar.

Esse equilíbrio impossível entre ciência e bolsonarismo tem tudo para ser um belo faz de conta. Queiroga afirmou ontem que pretende aplacar os sucessivos recordes de mortes a partir de um protocolo nacional de distanciamento social que leve em conta… a economia.

O pedido para que o Ministério da Saúde estabeleça parâmetros gerais foi feito há semanas por secretários estaduais e, depois, foi reforçado por governadores que agora pedem uma reunião com o novo ministro para debater o assunto. Ontem mesmo, o governador do Piauí, Wellington Dias (PT), reforçou: sem restrições, país terá quatro mil mortes.

Mas, aparentemente, o lockdown estará fora de cogitação no cardápio do futuro ministro – o que só torna mais difícil sua adoção, apesar da farta evidência indicando que a medida funciona bem para frear a epidemia.

De acordo com O Globo, a outra aposta de Marcelo Queiroga será a melhora dos serviços hospitalares da rede pública, o que passaria por “mais oferta de telemedicina para diagnóstico, atenção à distribuição de oxigênio e ventiladores e unificação de protocolos para tratamento de urgência”. Ou seja, atenção sem prevenção – o que diversos gestores já admitiram que não está adiantando a essa altura do campeonato. 

O que não quer dizer que não existe muito a ser feito. O Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems) calcula que os estoques públicos de medicamentos para intubação durem só mais 20 dias – e pede que o Ministério da Saúde garanta com a indústria a continuidade do fornecimento. As empresas, por sua vez, dizem que não vão dar conta no curto prazo. Mesmo com essa bomba nas mãos, o governo federal ainda não proibiu a exportação dos remédios. Queiroga assumirá informado da situação. 

Aliás, ainda não se sabe quando assumirá. O Planalto primeiro divulgou que a posse seria hoje, depois jogou para semana quevem, mas sem data definida. Enquanto isso, é possível que Marcelo Queiroga  ande por aí fazendo as vezes de macaquinho de realejo de Pazuello.

Segundo o Valor, crescem pressões chegando para que o novo ministro possa escolher a sua equipe. A insatisfação parte do centrão, obviamente, mas também do Supremo e do TCU. Eles querem a desocupação militar do Ministério da Saúde. Queiroga, contudo, não está se ajudando. Questionado se terá autonomia, disse que fará “ajustes no momento adequado” como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente.

Não tem. O Senado aprovou ontem um requerimento para que ele apresente ao Legislativo os planos do governo para enfrentamento à pandemia

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