Saúde também é (óbvio) sobre violência e morte

Crédito: Mídia NINJA

Ontem foi assassinada a vereadora Marielle Franco (do PSOL, a quinta mais votada nas eleições de 2016), que tinha os direitos da população negra, das mulheres e LGBTs entre suas principais bandeiras de luta…

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SAÚDE TAMBÉM É (ÓBVIO) SOBRE VIOLÊNCIA E MORTE

Não poderíamos deixar de dar aqui esta notícia. Em um país onde a população negra tem os piores indicadores sociais, em que 80% das pessoas com maior chance de serem vítimas de homicídio são negras, em que a taxa de homicídio de mulheres não-negras vem diminuindo mas a de negras aumenta, em que todos os anos milhões de mulheres são estupradas e milhares são assassinadas; em um estado onde o poder público aposta basicamente no policiamento como forma de conter a violência, apesar de não faltarem relatos de abusos, mortes e ineficácia; em um município onde a população negra e periférica está exposta a todo tipo de violência institucionalizada…

Foi neste país, neste estado e neste município que ontem foi assassinada a vereadora Marielle Franco (do PSOL, a quinta mais votada nas eleições de 2016), que tinha os direitos da população negra, das mulheres e LGBTs entre suas principais bandeiras de luta. Como se descrevia no twitter, Marielle era “mulher negra, cria da Maré e defensora dos Direitos Humanos”. Ela  estudava e criticava o modelo das UPPs há vários anos, era relatora da comissão que acompanha a intervenção federal no Rio e denunciava a violência policial nas favelas.

No domingo, escreveu no twitter uma postagem que teve mais de mil compartilhamentos: “O que está acontecendo agora em Acari é um absurdo! E acontece desde sempre! O 41° batalhão da PM é conhecido como Batalhão da morte. CHEGA de esculachar a população! CHEGA de matarem nossos jovens!”

Ela foi morta depois de sair de um evento chamado “Jovens negras movendo as estruturas”. O crime está sob investigação e há a suspeita de que Marielle tenha sido executada – foram cinco tiros na cabeça e nada de valor foi levado. O motorista que estava com ela também foi morto. Está marcada para hoje no fim da tarde uma Marcha contra o genocídio negro, motivada por este assassinato, no Rio.

“EU NÃO TERIA SOBREVIVIDO”

O cientista Stephen Hawking, morto este semana aos 76 anos, era grande defensor do sistema público de saúde britânico, o NHS. Hawking batia de frente com políticos ligados a privatizações,  que, segundo ele, transformariam o NHS em um sistema de saúde no estilo norte-americano, administrado por empresas. “Ao longo dos últimos seis meses, ele esteve completamente comprometido com a luta em defesa do NHS, para parar a privatização e a dissolução. Não consigo pensar em um melhor testamento em sua memória do que reinstituir o NHS como serviço público, e foi para isso que ele lutou até o fim “, disse ao Guardian o professor Allyson Pollock, da Universidade de Newcaslte (a propósito, o Outra Saúde já analisou as crises do SUS e do NHS aqui).

No Brasil, o Ministério da Saúde anunciou que vai liberar R$ 2,3 milhões para pesquisas sobre a Esclerose Lateral Amiotrófica, doença de que Hawking sofria.

CÂNCER NO SUS

Em quem acreditar? O governo federal decidiu manter a compra de um medicamento para leucemia que, diz o Estadão, é considerado ineficaz. O remédio será distribuído em hospitais do SUS, mas instituições privadas credenciadas e hospitais filantrópicos vão receber recursos para comprarem os medicamentos que julgarem mais convenientes. Segundo o jornal, esta semana o Centro Infantil Boldrini citou um estudo que indica a falta de qualidade do medicamento, chamado L-asparginase, para uso em humanos. Ao comparar esta droga, produzida na China, com a asparginase alemã, o poder de ação da chinesa corresponde a só 30% do da alemã. Mas o remédio chinês é mais barato. O Ministério questiona o estudo citado pelo Centro Boldrini.

E ainda não chegou às pacientes um medicamento para câncer de mama autorizado no início de fevereiro pelo Ministério. Trata-se de uma das drogas mais eficazes, mas, no Rio Grande do Sul, mulheres têm precisado recorrer à Justiça para conseguirem acesso.

TRANSGENIA

Um contrato de parceria de quatro anos para produzir cana-de-açúcar transgênica vai ser assinado hoje pela EMBRAPA Agroenergia. A nova variedade vai ser resistente a uma doença chamada broca… E à aplicação do glifosato – sim, aquele mesmo, o ingrediente ativo do Roud Up (herbicida produzido pela Monsanto e campeão de vendas), que vários países tentam restringir ou banir. Um pesquisador da empresa, Hugo Molinari, diz que tornar a planta resistente ao glifosato faz com que este herbicida precise ser menos utilizado, mas essa informação é sempre muito questionada. Isso porque o fato de o Brasil ter se tornado um dos maiores consumidores de agrotóxicos no planeta é associado por muitos pesquisadores justamente ao cultivo de plantas transgênicas no país.

Este artigo coloca a discussão sobre genética e transgenia como um problema  não mais “científico, mas econômico, jurídico e político”. Vale a leitura.

A COCA-COLA BANCA TUDO

A megaempresa leva mães blogueiras a um evento com muito marketing e pouca ciência em uma de suas fábricas no Recife. O passeio inclui comida feita por um renomado chef – comida quase natureba, a não ser pelos toques de refrigerante usados como tempero – e uma palestra sobre vida saudável, proferida por um médico. Prepare-se para ler, no site O joio e o trigo, os caminhos de campanhas como essa, voltadas para ganhar corações e mentes de influenciadores digitais. A propaganda tem outros alvos, como gente ligada à cultura pop, a moda e estilo. Mas as mães… Ah, estas são especiais. E o mesmo médico, Victor Matstuto, reconhecido e premiado ortopedista e cientista do esporte (e financiado pela Coca para “estudos sobre obesidade infantil”) é presença certa.

MORTALIDADE INFANTIL AUMENTOU

E foi no Reino Unido. Entre 2016 e 2017, o aumento foi de mil mortes para cada 100 mil nascimentos. Não parece muito, mas é preocupante, e ainda não há certeza sobre as explicações. Porém, tabgismo e obesidade entre as mães, aumento da pobreza e escassez de parteiras têm sido citados.

DUAS DE MOÇAMBIQUE

Desde dezembro, a estimativa de portadores do vírus HIV no país subiu de 1,9 para 2,1 milhões. Segundo o Ministério da Saúde, apenas 64% das pessoas infectadas conhecem o diagnóstico e 54% estão em tratamento.

E foram apreendidas e incineradas mais de 50 toneladas de carne importada, com suspeita de contaminação por listeriose. Já contamos aqui, mas vale lembrar: as carnes contaminadas são salsichas e outros embutidos produzidos pela Enterprise, que pertence à Tiger Brands, o maior grupo de empresas de alimentos da África do Sul.

POUCO FALADA

Mesmo afetando milhões de pessoas no mundo, ela não é muito comentada. A anemia falciforme é geneticamente adquirida e pode causar dores, anemia crônica e prejudicar órgãos vitais. Agora, descobriram que ela pode estar ligada a uma mutação genética manifestada em uma única criança há mais de sete mil anos. E no início era uma vantagem: essa mutação tinha tornado a criança imune à malária.

QUER VIVER PRA SEMPRE? PODE, MAS É CARO E PRECISA MORRER

É dessas ideias no mínimo estranhas. Uma startup criou uma tecnologia de ‘embalsamento high-tech’ que permite fazer upload da sua consciência para uma nuvem virtual. Assim, um back up seu. Só que pra dar certo você precisa morrer. E tudo custa US$ 10 mil. Por mais bizarro que pareça, já tem até lista de espera.

HYDRO ALUNORTE

O vazamento no Pará continua repercutindo, também internacionalmente. Uma matéria publicada ontem em um dos principais jornais noruegueses (o governo do país é acionista minoritário da empresa) diz que, agora, a Hydro já não sabe mais o que vazou.

FEBRE AMARELA

O Ministério da Saúde atualizou ontem os números. Já são 920 casos e 300 mortes. Muito mais do que no mesmo período do ano passado, quando foram 610 casos e 196 óbitos. A cobertura vacinal cresceu: no estado de São Paulo, 67,9% da meta foi atingida; no Rio, 68,5% e, na Bahia, 64,3%.

AGENDA

É hoje a palestra de lançamento do Outra Saúde no Fórum Mundial Social, em Salvador. Contaremos com o pesquisador Jairnilson Paim, que vai falar sobre os 30 anos do SUS. Se estiver por lá, não deixe de acompanhar.

E no dia 21 de março a Faculdade de Saúde Pública da USP vai receber Michael Moss, jornalista que escreveu o livro ‘Salt sugar fat: how the food giants hooked us’ .

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