Por trás do alimento

Novo projeto de jornalismo investigativo vai se dedicar ao uso e consumo de agrotóxicos no Brasil

A nova iniciativa de jornalismo investigativo da Agência Pública e da Repórter Brasil mira os agrotóxicos. Estreou ontem o site Por trás do alimento, que deve ficar no ar pelos próximos dois anos. Além de recuperar reportagens antigas, e reunir notícias relacionadas ao assunto, duas matérias publicadas nessa segunda dão o tom do projeto. Uma fala sobre alguns dos agrotóxicos que são proibidos na Europa, mas não só sua venda é liberada por aqui, como os produtos batem recordes de uso. Tratam-se do paraquate, da atrazina e do acefato derramados em proporções superlativas: em 2017, 60 mil toneladas desses produtos foram usadas no Brasil.

A outra conta um caso recente, quando 96 pessoas foram intoxicadas por uma nuvem de paraquate. Aconteceu em Espigão Alto do Iguaçu, no Paraná, e já é considerado o episódio com mais vítimas da história recente do estado. O município é responsável por nada menos do que 17% da produção nacional de soja e milho. E os afetados por tanto veneno são, na maior parte, crianças que estudavam em uma escola rural próxima ao local onde o agrotóxico estava sendo aplicado: 52 foram intoxicadas. “Pintou o meu nenê de veneno”, resumiu o agricultor familiar Emerson Sachet sobre a nuvem de paraquate que atingiu seu filho de apenas dois anos.

EFEITOS COLATERAIS

No centro de um grande escândalo de assédio sexual, o médium João de Deus atraía, de acordo com a prefeitura de Abadiânia, dez mil pessoas por mês. E 40% delas vinham de fora do país. A cidade de Goiás teme um colapso econômico. Mas segundo o prefeito, a atividade do centro espírita também tinha efeitos colaterais para o SUS: “Muita gente com problema de saúde chega aqui em busca de atendimento espiritual. Mas o que acontece é que muitos acabam parando no hospital”, disse ao Estadão.

Por outro lado, o caso não deixa de ser um problema de saúde pública. Pelo motivo óbvio: as mulheres que denunciam o médium precisarão de acompanhamento psicológico adequado. E pelo motivo não tão óbvio: poderia o SUS fazer alguma coisa pela gente doente que recorria a João de Deus? A maioria diz se sentir melhor, depois de ser desenganado por médicos. Outros, se dizem desesperados com a perspectiva de fechamento do centro. Práticas integrativas e complementares, cuidados paliativos e escuta profissional talvez pudessem ser a resposta laica e republicana que dirimisse parte desse sofrimento.

MEDO E ABUSO

Cláudia Collucci fala na Folha sobre como o medo é o fator central para que as vítimas de abuso sexual tardem a denunciar a violência que sofreram: “Crimes sexuais são historicamente subnotificados no mundo todo. É uma situação própria do pós-trauma, da dificuldade das vítimas em revelar o ocorrido. Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), apenas 10% dos casos de estupro no país são formalmente denunciados. Em 2016, a polícia brasileira registrou 49.497 crimes dessa natureza. São vários os motivos que levam mulheres de todas as idades, credos, raças e condições socioeconômicas a agirem dessa forma. Às vezes, as vítimas não conseguem identificar determinados comportamentos como atitudes criminosas. Ou temem que ninguém acredite nelas. Em geral, abusos sexuais são crimes de difícil comprovação, acontecem entre quatro paredes, sem testemunhas. Muitas vezes a palavra da vítima é a única prova da violência. E em muitas sociedades, como a brasileira, a palavra da mulher tende a ser relativizada, vista com desconfiança.”

DESCOBERTA

Todos os anos, cerca de sete mil pessoas são picadas pela aranha-marrom no Brasil. O Instituto Butantan desenvolveu uma pomada capaz de interferir no processo de inflamação e lesão cutânea causadas pelo veneno do bicho. A descoberta foi feita depois de mais de 20 anos de pesquisas, que começaram com engenharia genética (para fazer com que uma bactéria produzisse a quantidade suficiente de veneno para o estudo) e seguiram com testes em células, animais e, desde outubro, pessoas. Participarão 240 voluntários de 61 hospitais de Santa Catarina.

GILEAD

Volta e meia falamos aqui sobre a polêmica envolvendo o sofosbuvir, medicamento para hepatite C, cuja patente foi garantida no Brasil para a farmacêutica Gilead – embora a Fiocruz tenha capacidade de produzir o genérico, a um custo R$ 1 bilhão menor por ano. Pois a empresa anunciouontem a contratação de um novo presidente. O escolhido foi um executivo de carreira da Roche chamado Daniel O´Day. E, segundo a Xconomy, um dos principais motivos pelos quais a mudança na direção da empresa aconteceu é justamente o sofosbuvir, que tem sido produzido por outras empresas. Em 2018, as vendas do medicamento produzido pela Gilead caíram 60%.

FURA-PRINCÍPIOS

Não era para chamar a Márcia. Mas outra história, desta vez tendo como protagonista o deputado estadual do Paraná Ademir Bier (PSD), mostra como princípios do SUS, como universalidade e equidade, podem ser corroídos pela corrupção. O político é alvo da Operação Mustela, deflagrada ontem, que prendeu outras 12 pessoas acusados pelo Ministério Público estadual de participar de um esquema de fura-fila há mais de dez anos. Ao longo do período, um assessor do deputado pego num grampo telefônico confessou que cerca de 10 mil procedimentos cirúrgicos foram acertados por fora da regulação de vagas do Sistema Único. No gabinete de Bier, foram apreendidos documentos. Outro alvo da investigação é Lourival Aparecido Pavão, ex-assessor do governador eleito Ratinho Júnior (PSD).

NOS PRESÍDIOS

Já o Ministério Público de São Paulo entrou com ação para obrigar o estado a contratar emergencialmente psiquiatras para atender nos presídios, enquanto concurso público não for aberto. Os promotores afirmam que apenas 2,82% das unidades prisionais contam com esse profissional. E dão um exemplo: no Centro de Detenção Provisória de Pinheiros haveria 82 presos com transtornos mentais não diagnosticados necessitando de assistência médica.

CRISE DOS MÉDICOS

Ontem, o Ministério da Saúde divulgou novo balanço e informou que 53% dos médicos já se apresentaram nos municípios. Sexta vence o prazo para que o restante faça o mesmo. E o número exato de vagas que não receberam nenhuma inscrição é 106. Elas ficam em 29 municípios.

JÁ OUTRA CRISE…

A da saúde carioca, parece não ter fundo. Na madrugada de ontem, Paula da Silva chegou ao Hospital Pedro II com fortes contrações. Não encontrou um profissional de saúde que pudesse lhe ajudar em uma das maiores unidades hospitalares da capital. E pariu, desassistida, em plena recepção. O parto durou cerca de 30 minutos. De acordo com ela, uma enfermeira e três médicos só apareceram depois que ela “já tinha feito tudo sozinha”.

E em meio ao processo de demissões que deve atingir cerca de 1,5 mil profissionais, o movimento Nenhum Serviço de Saúde a Menos lança hoje uma campanha de arrecadação de alimentos. É voltada para os trabalhadores que, além de terem perdido o emprego, estão com salários atrasados. Quem quiser doar pode ir à sede da CSP-Conlutas, na Rua Álvaro Alvim, 37, quarto andar.

EBOLA

Depois de quatro meses, o surto de ebola na República Democrática do Congo continua. Já foram confirmados cerca de 500 casos, e o desfecho de metade foi a morte.  Embora mais de 40 mil pessoas tenham recebido a vacina, há dificuldades para identificar o público-alvo (pessoas que tenham tido contato com os doentes) e as doses são limitadas.  O maior risco, segundo as autoridades, é que a doença se espalhe para outros quatro países. Isso exigiria uma fragmentação dos esforços internacionais na região, com times separados respondendo a autoridades sanitárias diferentes. E como já falamos aqui, o local onde acontece o surto está conflagrado. Nos Estados Unidos, há pressão para que profissionais enviados ao Congo retornem. Segundo a Science Mag, tudo isso faz crescer a força daqueles que argumentam que a OMS deveria decretar a situação como emergência internacional de saúde pública, pois isso atrairia mais apoio de mais países.

PACTO DE MIGRAÇÃO

O futuro ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo disse ontem por meio de suas redes sociais que o país vai deixar o Pacto Global para Migração, que estava sendo lançado naquele exato momento no Marrocos. Aprovado por mais de 160 países, é o primeiro documento a definir diretrizes para uma política migratória internacional. Levou um ano e meio para ser negociado. Mas adivinha quem não está no Pacto também? Se você pensou Estados Unidos acertou.

DE CARA NOVA

Quem entrar no Outras Palavras ou no Outra Saúde mais tarde vai perceber que estaremos de cara nova. Por volta das 10h, estreia nosso novo site. A partir de hoje, funcionamos integrados num único espaço.

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