Dados do IBGE mostram piora em quase tudo

Aumentaram a pobreza, o desemprego o trabalho informal, a desigualdade… Essa e outras notícias aqui, em 11 minutos

06 de dezembro de 2018

MAIS POBRES

Ontem o IBGE divulgou uma série de dados sobre pobreza que confirmam o que muitos de nós já estamos vendo ou sentindo: quase todos os indicadores pioraram. Quase dois milhões de pessoas atingiram a pobreza extrema – agora, são 15,2 milhões vivendo com menos de R$ 140 por mês. Já o número de pobres (que vivem com menos de R$ 406 por mês) aumentou de 52,8 milhões em 2016 para 54,8 milhões no ano passado. Mulheres pretas ou pardas sem cônjuge e com filhos de até 14 anos são as mais vulneráveis – 64,4% delas vivem nessa situação. Cerca de 27 milhões de pessoas não têm moradia adequada, e 5,4 milhões não têm nem banheiro dentro de casa.

No trabalho, a taxa de desocupação foi subindo continuamente de 6,9% em 2014 até atingir 12,5% em 2017 – houve corte de vagas, redução das jornadas, aumento da informalidade e aumento da desigualdade de renda. Dois em cada cinco trabalhadores não tinham carteira assinada em 2017, um aumento de 1,2 milhão de informais desde 2014.

O que melhorou? O acesso domiciliar à internet. O acesso à educação também vem melhorando, mas não o suficiente. As crianças em creches passaram de 90,2% para 91,7%, mas isso ainda está longe da universalização, apesar de que frequentar a escola é obrigatório a partir dos 4 anos. E nas zonas rurais e entre pretos e pardos, o acesso é menor. A desigualdade no ensino superior continua gritante:  35,9% das pessoas que concluíram o ensino médio na rede pública ingressaram na faculdade, contra  79,2% vindos de escolas privadas.

E, seguindo uma tendência histórica, pretos e pardos dificuldade para encontrar empregos, vagas em creches e moradias em condições adequadas. A diferença de rendimento médio eles e os trabalhadores brancos é de cerca de R$ 1 mil (entre homens e mulheres, ela é de R$ 518). No saneamento básico, 43,4% das pessoas pretas ou pardas não têm esgoto sanitário ou rede coletora ou pluvial, e número cai para 26,6% entre pessoas brancas. Um em cada dois negros está no mercado informal.

CÂNCER NO TRABALHO

O Ministério da Saúde lançou o Atlas do Câncer Relacionado ao Trabalho, que fala do que poderia ser prevenido se os fatores de risco fossem eliminados. Foram identificados os 900 agentes com alto potencial cancerígeno que estão mais presentes nos ambientes de trabalho e que podem ser evitados com medidas preventivas, como o uso de materiais e equipamentos. O Atlas elenca 18 tipos de cânceres efetivamente ligados à atividade diária dos trabalhadores e mostra que a não exposição aos agentes reduziria até 37% das mortes por leucemias; até 15% das relacionadas a câncer de tireoide, até 15,6 das causadas por câncer de pulmão, brônquios e traqueia e até 14,25% dos óbitos por linfomas não-Hodgkin.

Há muitos fatores de risco nos trabalhos mais variados. No campo, o principal é o uso de agrotóxicos. Nas indústrias têxtil, de couro, de madeira e a de carvão vegetal os trabalhadores inalam poeiras e produtos químicos nocivos; químicos industriais também são perigosos em indústrias de papel e celulose, de plásticos, tintas, laboratórios; a exposição a compostos metálicos prejudiciais está em usinas termelétricas, indústria de eletrônicos e de vidros, fundições; no trabalho ao ar livre tem a radiação solar… Mesmo o amianto, substância proibida há anos, ainda é uma preocupação.

QUER CHOCOLATE?

Ok, mas tem trabalho infantil. Uma pesquisa com os principais produtores brasileiros mostra que pelo menos 8 mil crianças e adolescentes brasileiros trabalham nessa cadeia produtiva. “As crianças maiores e os adolescentes também cortam – com a ajuda de um facão adaptado, com o cabo mais longo – o cacau dos galhos do cacaueiro, colhem o fruto do chão e o jogam em um cesto de palha que carregam nas costas. O balaio cheio dos frutos pode pesar até 20 kg”, diz o relatório.

A situação do chocolate produzido lá fora já era conhecida: há milhares de crianças na África Ocidental trabalhando nisso. E o estudo conta que, nos anos 1980, o valor pago aos agricultores representava até 16% do preço de uma barra de chocolate no varejo mas, em 2014, o percentual caiu para 6%. Os países que mais produzem cacau, todos africanos, estão entre os piores IDH do mundo. Por aqui, as fazendas de cacau faturaram R$ 1,2 bilhão no último ano, enquanto muitos trabalhadores vem em condições degradantes. “Todo chocolate à venda hoje no Brasil está contaminado pelo trabalho infantil” disse ao Brasil de Fato Marques Casara, um dos pesquisadores. Há raríssimas exceções, algumas marcas cujos compradores monitoram o processo.

SOLUÇÃO, SÓ QUE NÃO

Sabemos que o sedentarismo não é bom para a saúde, mas quem trabalha em escritório fica sentado o dia inteiro. Já que conceder aos empregados mais tempo livre ou ao menos breves pausas é tão inadmissível, inventaram essa ‘maravilhosa’ solução que é a mesa para trabalhar em pé. Parece que está virando moda. Mas uma matéria do New York Times republicada no Estadão explica que… ficar em pé não é fazer exercício. E que não há ainda nenhuma evidência científica de que trabalhar em pé melhore a saúde cardiovascular.

RAPIDINHAS SOBRE O MAIS MÉDICOS

Voluntários: enquanto a população continua desassistida, cerca de 200 médicos se voluntariaram pra prestar atendimentos no Ceará, que perdeu mais de 400 cubanos.

O que faltou: o El País entrevistou o pesquisador Mateus Falcão, que integrou o corpo técnico do Ministério da Saúde nos primeiros três anos do Mais Médicos. De acordo com ele, o programa cumpriu seu papel de garantir o acesso da população a esses profissionais, mas não conseguiu resolver dois grandes problemas: fixar os médicos e garantir a infraestrutura adequada nas UBS. Ele não está muito otimista em relação ao novo edital. “Temos quase quatro vezes o número de inscritos para o número de vagas, mas pela nossa experiência, os médicos costumam se apresentar logo nos primeiros dias. Não dá pra prever se agora vai haver uma mudança nisso”.

Desmentido: o Estadão publicou, a gente divulgou e agora o governo mexicano desmentiu. O presidente López Obrador afirmou, em coletiva de imprensa, que é falsa a informação de que ele estaria negociando com Cuba a vinda de três mil dos médicos que estão saindo daqui.

Adeus: mais quatro mil cubanos já foram embora.

SEM DINHEIRO

Quando se precisa de um transplante pra sobreviver, deve ser terrível esperar na fila. Mas imagine ainda por cima ter que arrumar de repente dezenas de milhares de dólares, não só pra pagar a cirurgia, mas mesmo para ser considerado apto a receber o novo órgão? “Isso acontece todos os dias. É o que eu chamo de ‘biópsia de carteira'”, diz Arthur Caplan, bioeticista do Centro Médico Langone da Universidade de Nova York, na matéria da Kaiser Health News. A reportagem fala do sistema de transplantes dos EUA, que liga o acesso ao tratamento às finanças de quem precisa dele. Quase todos os mais de 250 centros de transplante do país exigem que os pacientes demonstrem como cobrirão US$ 400 mil para um transplante de rim, ou US$ 1,3 milhão para um de coração, além dos custos dos remédios anti-rejeição – que custam em média US$ 2.500, pra vida toda.

E um pequeno estudo com 200 pessoas diabéticas nos EUA mostrou que um quarto delas deixou de usar insulina por causa do preço. E não foram só as pessoas mais pobres. O custo médio triplicou entre 2010 e 2017. “Quando um projeto de lei inesperado chega à sua caixa de correio, é uma crise, e ouvimos muito sobre as contas de US$ 200.000”, disse à CBS Elisabeth Rosenthal, editora do JAMA Internal Medicine, referindo-se a valores que que os americanos volta e meia precisam pagar por procedimentos não incluídos em seus planos. “Mas os custos da insulina, da bomba de insulina e das tiras de teste de açúcar no sangue, esses custos são persistentes e duradouros. Imagine se seu aluguel subisse US$ 600 por mês. É realmente injusto”.

UM MILHÃO POR ANO

Esse é o número de vidas que podem ser salvas até 2050 se o Acordo de Paris for cumprido, segundo um relatório da OMS. No geral, a poluição do ar causa 7 milhões de mortes por ano e custa cerca de US$ 5,11 trilhões em gastos com bem-estar globalmente. Atingir as metas seria mais barato.

NO SETOR PRIVADO

Com patrocínio da Qualicorp e da Unimed, e com apoio da FenaSaúde (Federação Nacional de Saúde Suplementar) e da Anab (Associação Nacional das Administradoras de Benefícios), a Folha promoveu ontem o seu 2º Fórum de Saúde Suplementar.  Teve representantes da Qualicorp e da Unimed, mas também da FenaSaúde e da Amil. Esses convidados comentaram como algo que tem aparecido em algumas matérias nos últimos tempos: que planos de saúde têm traçado estratégias para focar na atenção primária, para cortar custos e desperdícios.

Outro ‘modelo de negócios’, o das assinaturas, foi discutido também. Estava lá um representante da Amparo Saúde, que tem uma assinatura a partir de R$ 49 para consultas, com exames cobrados à parte.

A mesa que debateu a coparticipação e o ressarcimento ao SUS teve uma pesquisadora do Idec, Ana Navarrete, que bateu de frente com Felipe Rossi, diretor da Abramge (Associação Brasileira de Planos de Saúde). Ela criticou o modelo de coparticipação, que faz beneficiários pagarem a mais quando usam determinados serviços, ele disse que é bom para as pessoas terem “consciência” dos custos dos planos. Ele também falou, é claro, que o ressarcimento ao SUS é ruim, e que o Estado deveria interferir menos na saúde privada.

Uma mesa sobre a segurança dos dados dos pacientes discutiu a recém-aprovada Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, que entra em vigor em 2020. E Antonio Carlos Endrigo, diretor de tecnologia da Associação Paulista de Medicina, defendeu que o Brasil permita teleconsultas.

SUS SOB NOVA DIREÇÃO

A edição de dezembro da Radis traz na matéria de capa análises e previsões sobre a saúde, ciência e tecnologia no governo Bolsonaro. Especialistas voltam ao seu plano de governo e falam dos efeitos mais imediatos (como o rebuliço no Mais Médicos, antes mesmo da posse). Os desafios são imensos. Desde o orçamento congelado (com o qual o presidente eleito concorda) até a coação da resistência, já que Bolsonaro promete botar “um ponto final em todos os ativismos”. Ah, um comentário: o site da Radis mudou, está mais gostoso de ler. Vale a visita.

AGENDA

Hoje é a posse da nova diretoria da Associação Brasileira de Economia da Saúde. Vai ser no Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

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