Os casos de coronavírus estarão diminuindo?

Critérios de definição da doença mudam mais uma vez; especialistas consideram a situação “confusa”. Leia também: inteligência artificial permite descoberta de antibiótico inesperado contra superbactérias

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Por Raquel Torres

Vamos parar durante o feriado do Carnaval. Voltamos no dia 27/02

É OU NÃO É?

O governo chinês anunciou ontem uma boa queda no número de novos casos de Covid-19. No fim da manhã, os dados oficiais apontavam para apenas 404 novos registros nas 24 horas anteriores — muito menos do que o aumento diário de dois a três mil casos.

Só que, exatamente como aconteceu quando se anunciou um crescimento fora da curva há pouco mais de uma semana, agora também houve uma mudança no critério de diagnóstico. No dia 12 de fevereiro as autoridades haviam anunciado a adoção do diagnóstico clínico, e não mais apenas o laboratorial (daí os números subiram). Agora, voltaram considerar apenas o exame de sangue para a detecção, o que empurrou os casos para baixo de novo. Até ontem à noite o balanço estava em 75.465 casos confirmados na China continental. Já o número de mortes cresceu em 118 entre quarta e quinta, chegando a 2.236.

Especialistas ouvidos pelo Stat consideram que a situação está “confusa”. Não que mudanças na definição dos casos sejam incomuns durante surtos causados por novos vírus. Na medida em que novos fatos vão surgindo, essas redefinições acontecem. Mas as rápidas reviravoltas, com impactos bem grandes nos números, geram incertezas: agora, não dá pra saber se a diminuição nos registros significa que as medidas de controle da disseminação realmente estão funcionando, ou se deve ser atribuída à mudança nos critérios.

Os pesquisadores também dizem que, para ter uma dimensão real da taxa real de mortalidade da doença — e do perigo que o coronavírus representa — , seria importante fazer uma pesquisa sorológica, coletando sangue de uma amostra representativa de pessoas, e não apenas as que têm sintomas. Malik Peiris, virologista da Universidade de Hong Kong e um dos líderes na resposta ao surto de SARS em 2003, afirma que isso preencheria uma “lacuna crítica de informações”.

A OMS segue em estado de alerta. “O número de casos no resto do mundo é muito pequeno se comparado ao que temos na China, mas isso pode não permanecer assim por muito tempo“, disse ontem, em entrevista coletiva, o diretor-geral da entidade Tedros Ghebreyesus.

No Brasil, há agora só um caso suspeito: uma criança de dois anos que esteve na China, mas não em Wuhan,

DE BANDEJA

O governo Trump anunciou que pretende dar mais “controle” às pessoas sobre seus próprios registros médicos. A ideia é que elas possam fazer o download dos seus prontuários no celular e direcioná-los para qualquer aplicativo de sua escolha. Mas tem um detalhe nada desprezível: a partir do momento em que os dados saem do sistema do hospital ou do médico, deixam de ser protegidos pelo Health Insurance Portability and Accountability Act, a legislação que rege a privacidade médica. “[A medida] pode permitir que pacientes compartilhem dados com mais facilidade para obterem uma segunda opinião, ou permitir que pesquisadores encontrem participantes para um ensaio clínico. Mas também abre um faroeste de compartilhamento dos detalhes mais íntimos de assistência médica para milhões de americanos”, explica a matéria do Politico.

Empresas como Google e Facebook se reuniram várias vezes com representantes do governo para discutir o assunto nos últimos anos. Don Rucker, diretor do Escritório responsável por supervisionar a tecnologia em saúde no Departamento de Saúde e Serviços Humanos do país, rejeita as preocupações com o que considera “riscos realisticamente pequenos”. De acordo com ele, as empresas de tecnologia estão atentas às suas marcas e reputações e não vão descuidar da privacidade…

MAIS PERTO DA EUTANÁSIA

Após uma sessão marcada por manifestações de centenas de pessoas contra a eutanásia do lado de fora da Assembleia, o parlamento português votou ontem cinco projetos de lei sobre a legalização — e aprovou todos eles. Pelo texto consolidado, ficam descriminalizados a eutanásia e o suicídio assistido para portugueses e estrangeiros que vivam no país, desde que maiores de 18 anos, conscientes e lúcidos. Os casos podem envolver lesões e doenças incuráveis que causem sofrimento duradouro e insuportável, mas doenças mentais não estão incluídas. E é preciso avaliação de dois médicos pelo menos, além do parecer de uma comissão de verificação e bioética. Agora, os parlamentares ainda precisam consolidar o que foi aprovado, deliberar e fazer outra votação para estabelecer a lei definitiva.

O que vai acontecer em seguida ainda é uma incógnita. Evidentemente o texto precisa ir sanção presidencial, e o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, publicamente defensor de medidas “pró-vida”. pode vetá-lo.  Depois os deputados podem tentar reverter o veto, mas ainda seria possível recorrer no Tribunal Constitucional contra a lei… As últimas semanas têm sido de discussões intensas no país. Embora boa parte da população se mostre favorável à eutanásia, várias entidades se declararam contra, incluindo a Ordem dos Médicos e o Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida.

NOVAS BUSCAS

Pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts usaram inteligência artificial para identificar uma molécula que parece capaz de combater algumas das mais resistentes superbactérias. Duas delas foram tratadas com eficácia nos testes com ratos. A novidade não é só essa, mas também o fato de que a molécula é estruturalmente distinta de todos os outros antibióticos existentes, e teria poucas chances de ser descoberta sem a inteligência artificial. Foi encontrada num lugar onde cientistas dificilmente procurariam: um banco de dados de reaproveitamento de medicamentos, onde foi inicialmente identificada como possível tratamento para diabetes. “Agora estamos descobrindo pistas entre estruturas químicas que, no passado, nem sequer imaginaríamos que poderiam ser antibióticos”, disse ao Stat o professor de biomédica Nigam Shah, que não participou do estudo.

MAMÃE EU QUERO

O leite materno é impossível de copiar, mas as fórmulas infantis devem chegar o mais perto possível, com a mesma facilidade de digestão e mesma composição nutricional. Mas uma pesquisa que analisou 212 produtos voltados para crianças menores de três anos em 11 países diferentes chegou a uma conclusão bem assustadora: alguns deles chegam a ter o dobro de açúcar por porção do que um copo de refrigerante. O leite materno tem açúcar, mas da própria lactose, e sua composição é específica para cada fase de crescimento. Já no leite artificial, estamos falando de açúcares adicionados, como xarope de milho.

“Mas talvez o mais chocante seja o fato de existirem tão poucas regulamentações para controlar o teor de açúcar e para garantir que os consumidores estejam bem informados”, escreve uma das autoras, Gemma Bridge, no site The Conversation. Os pesquisadores pedem que as autoridades dos países regulem “com urgência” a quantidade e o tipo de açúcar nas fórmulas infantis e que a divulgação sobre a adição de açúcar pelo fabricante se torne obrigatória.

QUEM VAI GANHAR?

A partir de dados da Funai e da Agência Nacional de Mineração, a Agência Pública fez um levantamento das pessoas com mais pedidos minerários em terras indígenas. No site, estão listados — com comentários —  os maiores beneficiários da abertura proposta pelo governo federal. Entre eles, políticos do Amazonas e cooperativas de garimpo envolvidas em crimes ambientais. O levantamento mostra ainda que o número desses pedidos vinha numa tendência de queda desde 2013, mas “subitamente” voltou a crescer no ano passado: nada menos que 91% desde o início do governo Bolsonaro.

RETOMADA ARGENTINA

O governo argentino relançou ontem o programa Remediar, para distribuir gratuitamente medicamentos essenciais em todos os Centros de Atenção Primária do país — ao todo, são cerca de oito mil. A medida deve beneficiar 16 milhões de pessoas. O programa havia sido criado inicialmente em 2002, mas havia sido descontinuado pelo governo Macri.

APÓS A CONTAMINAÇÃO

O Tribunal de Justiça de Minas Gerais ordenou que a Backer pague as despesas médicas de pessoas com suspeita de intoxicação, mais os custos de deslocamento, estadia e alimentação. A empresa também vai precisar pagar pelo tratamento psicológico dos afetados e dos seus familiares diretos. Os bens e valores depositados em sua conta bancária até o valor de R$ 100 milhões vão ser bloqueados para o caso de haver indenizações a pagar no fim do processo.

SEM NOÇÃO

Uma mulher foi programa Cidade Alerta, da Record, para falar sobre a filha que estava desaparecida havia quase dez dias. Disse aos espectadores que ainda tinha esperanças de encontrá-la. Minutos depois, o apresentador Luiz Bacci deu a ela, diante das câmeras, a notícia de que a moça tinha sido assinada pelo ex-namorado. A mulher desmaiou no ar, para delírio dos organizadores. É um absurdo sem tamanho. O coletivo de comunicação Intervozes entrou com uma representação no Ministério Público Federal acusando a emissora de violar direitos humanos e as normas da radiodifusão vigentes no Brasil. 

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