A rede de mentiras e abusos dos antiaborto

Em todo o mundo, grupos financiam centros de “aconselhamento” e treinam organizações para espalhar informações falsas a gestantes vulneráveis. Leia também: governo quer readmitir 1,8 mil médicos cubanos do Mais Médicos

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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ASSIM CAMINHA A REDE PRÓ-VIDA

Aborto causa câncer. É preciso consentimento do parceiro para abortar. Hospitais não tratam complicações médicas decorrentes de aborto. Mulheres que passam pelo procedimento sofrem de “síndrome pós-aborto”. Poderiam ser fake news disseminadas no WhatsApp, mas o caso é pior que isso: essas informações enganosas são passadas a mulheres grávidas que buscam atendimento em centros de aconselhamento no mundo todo.

Um mapeamento divulgado pela openDemocracy mostra a relação desses locais com dois influentes grupos anti-aborto baseados nos Estados Unidos: Heartbeat International e Human Life International. Juntos, eles gastaram US$ 13 milhões em todo o mundo desde 2007 e financiaram e treinaram centenas de organizações.

A OpenDemocracy enviou repórteres disfarçadas a centros afiliados à Heartbeat em 18 países da Europa, África e América Latina, onde elas ouviram as mentiras descritas ali em cima. Além disso, outra jornalista foi enviada para receber o treinamento Heartbeat. “Na Espanha, nossa repórter recebeu livros e artigos alegando que o aborto causa problemas de saúde mental, esterilidade e ataques cardíacos. Ela também foi avisada de que as mulheres que fazem um aborto têm ‘99% mais chances’ de abusar de outras crianças que têm, e que fazer vários abortos aumenta esse risco em 189%”, descreve Mary Fitzgerald, da organização.

XI JÁ SABIA

Veículos de comunicação oficiais chineses divulgaram esse fim de semana a cópia de um discurso assinado pelo presidente Xi Jinping. O documento, datado de 4 de fevereiro, dá conta de que muito antes, em 7 de janeiro, o mandatário já sabia da existência do problema e havia dado ordens em de uma reunião do Politburo, o mais alto órgão do Partido Comunista, para que “impedir e controlar o novo surto de coronavírus”. Ao que tudo indica, as autoridades de Wuhan demoraram para reagir. Inclusive, empurraram a poeira para debaixo do tapete ao manterem a organização, no dia 18 de janeiro, de um banquete para 40 mil famílias na tentativa de bater um recorde mundial. Enquanto isso acontecia, o novo coronavírus já havia viajado para Tailândia e Japão… O documento foi liberado num contexto de cortes de cabeça em Hubei, com a demissão de vários oficiais. Mas tem um toque ambíguo, na medida em que atesta que Xi sabia do problema, mas escolheu reconhecê-lo publicamente só duas semanas depois, em 20 de janeiro.

Após três dias consecutivos de declínio no número de casos do novo coronavírus, as autoridades chinesas anunciaram hoje um aumento. Foram contabilizadas 2.048 novas infecções, sendo que 1.933 na província de Hubei, onde ocorreram mais cem mortes. No total, a China já contabiliza 70.548 pessoas infectadas e 1.770 mortos. Mais de 1,7 mil profissionais de saúde foram infectados, sendo 87% deles na província de Hubei. Entre eles, seis morreram.

Ao longo do fim de semana, Taiwan e França confirmaram mortes pelo novo coronavírus em seus territórios, elevando o número de mortes fora da China para cinco. Óbitos já haviam sido registrados em Hong Kong, Japão e Filipinas. A vítima em Taiwan era homem, tinha 61 anos, e as autoridades divulgaram que tinha diabetes e hepatite B. Já na França, onde aconteceu a primeira morte pelo vírus fora da Ásia, a vítima foi um homem de 80 anos da província de Hubei, que foi hospitalizado desde que chegou ao país, em 25 de janeiro. 

E uma reportagem no Valor fala sobre as fragilidades dos sistemas de saúde asiáticos. Analistas questionam sua capacidade de vigilância e temem que o número de casos possa ser muito maior. É o caso das Filipinas de Rodrigo Duterte, país em que o orçamento da saúde diminuiu nos últimos três anos em favor da repressiva política de segurança pública do governo. Ou da Indonésia, onde não há casos confirmados oficialmente, mas onde se sofre com falta de técnicos de vigilância, epidemiologistas e sanitaristas para monitorar adequadamente o problema. Apesar de haver grandes diferenças entre os sistemas de cada país da região, a maioria não investe o suficiente em saúde. “É um grande teste para as instituições e principais agentes políticos na região”, disse Richard Coker, professor emérito de saúde pública na London School of Hygiene and Tropical Medicine ao Valor. “Caso se dissemine na região de forma parecida a como está se disseminando na China, então acho que o Sudeste Asiático vai ter dificuldades.”

Por aqui, para nosso alívio, os números de casos suspeitos continuam caindo: agora são apenas três, de acordo com o boletim do Ministério da Saúde divulgado ontem. Dois estão em São Paulo e um no Rio Grande do Sul. Com isso, os casos descartados passaram a 45. E os 58 brasileiros que estão em quarentena na base militar de Anápolis também não apresentaram, por enquanto, sintomas do novo coronavírus. Eles devem ser liberados na semana que vem. 

E a Anvisa descartou a contaminação pelo vírus do navio Kota Pemimpin, que chega hoje ao Porto de Santos e esteve, antes, na China. A agência encaminhou nota à imprensa ontem informando que não há nenhum motivo para preocupação e que todos os tripulantes passarão por avaliação clínica. Chegaram a circular notícias de que dois integrantes da tripulação teriam sintomas. 

Falando em navegação, todos os segmentos, desde petroleiros até navios de contêineres, vêm sendo afetados pelo impacto econômico da suspensão de atividade em fábricas e das restrições a viagens que a China colocou em vigor para controlar a disseminação do vírus. Corretores de navios e analistas ouvidos pelo Valor dizem que a queda na demanda para transportar bens para dentro ou fora da China – maior consumidor mundial de muitas commodities – vai deixar marcas no comércio por vários meses. O novo coronavírus, é, aliás, o principal item na agenda macroeconômica internacional da reunião do G20 que acontece no próximo fim de semana em Riad, na Arábia Saudita. Em comunicado antecipado, ministros de finanças e presidentes de bancos centrais preveem um “crescimento modesto” para 2020 e 2021.  

CUBANOS, EM BREVE

De acordo com o El País, o governo prepara uma chamada pública de readmissão de 1,8 mil médicos cubanos que atuaram no Mais Médicos e deve ser divulgado ainda em fevereiro. De acordo com os termos aprovados no Médicos Pelo Brasil, eles poderão atuar sem o Revalida por dois anos e receberão bolsa no valor de R$ 12 mil. Segundo dados do Ministério da Saúde, atualmente existem 757 vagas ociosas país afora, principalmente nos municípios mais vulneráveis. O plano do governo é enviar os cubanos exatamente para os lugares mais difíceis, onde há dificuldades históricas de fixar médicos brasileiros. 

MEDICINA AFETADA

A Folha obteve, via Lei de Acesso à Informação, um mapa detalhado da redução que ocorreu em 2019 nas bolsas financiadas pela Capes, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, ligada ao MEC. E descobriu que a região mais prejudicada com os cortes foi o Nordeste, com perda de 12% das bolsas vigentes. Para se ter uma ideia, a média nacional ficou em 8%. E entre os três cursos mais atingidos, está Medicina, com 232 bolsas canceladas, atrás de Educação (241) e Engenharias (959).

Em tempo: o ministro da Educação, Abraham Weintraub, tem a pior avaliação popular entre treze ministros, de acordo com levantamento feito pela consultoria Atlas Político de 12 a 14 de fevereiro. Há 51% de rejeição a sua imagem e apenas 22% de aprovação. A pesquisa foi feita com duas mil respostas a uma consulta eletrônica. Em segundo lugar, está Damares Alves. A titular do Ministério da Família, Mulher e Direitos Humanos tem 50% de rejeição – mas 33% de aprovação. Paulo Guedes ficou com 47% de rejeição e 39% de aprovação.

O LOBBY E AS ABELHAS

O declínio em populações de abelhas pelo mundo tem gerado terror pelo que isso representa, e a relação entre a mortandade e o uso de agrotóxicos tem sido apontada há um tempo. Entre eles, os neonicotinoides, ou neônicos. O repórter Lee Fang, do Intercept, conseguiu e-mails e documentos de lobby que escancaram a estratégia da indústria de agrotóxicos para influenciar cientistas, apicultores e órgãos reguladores em relação aos danos causados por seus produtos – e assim impedir qualquer tentativa de restrição.

Um dos pesquisadores que passaram a ter laços estreitos com as empresas foi Dennis vanEngelsdorp, justo um dos primeiros a apontar a relação entre os neônicos e a morte das abelhas. Ele mudou de repente sua posição, passando a minimizar essa relação em diversas reportagens. Coincidentemente, ingressou no Conselho Consultivo de Abelhas da Monsanto e uma fundação financiada pela Bayer deu dinheiro para a sua ONG.

A Bayer ainda financiou uma série de anúncios online descrevendo como teóricos da conspiração as pessoas que ligavam o “mistério” aos inseticidas. Teve até um trabalho complexo de mudar a forma como os venenos  apareciam nos mecanismos de busca na internet fazendo com que os resultados para o declínio de abelhas aparecessem separados do uso de neônicos.

EXEMPLO BRASILEIRO

O Guia Alimentar para a População Brasileira e o trabalho do professor Carlos Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da USP, foram destaque numa longuíssima reportagem do Guardiansobre o consumo de ultraprocessados. Já falamos bastante disso por aqui: ultraprocessados são aqueles produtos alimentícios feitos a partir de ingredientes já bastante refinados (como açúcar e farinha branca), muitas vezes sintéticos e com adição de substâncias como corantes, aromatizantes, emulsificantes e edulcorantes. No ano passado, pela primeira vez um experimento mostrou uma relação de causa e efeito entre seu consumo e a obesidade.

O Guia brasileiro de 2014 já recomendava explicitamente evitar ultraprocessados. Mas o britânico ainda aponta algum desses produtos (como margarinas e cereais matinais) como opções saudáveis. Segundo a jornalista Bee Wilson, ultraprocessados já representam hoje mais da metade de todas as calorias ingeridas no Reino unido e nos Estados Unidos.

O Brasil tem outras vantagens em relação a esses países. A primeira é que, por aqui, cozinhar ainda tende a ser mais barato do que comprar esses produtos. A segunda é que ainda sabemos o que é comida de verdade: rico ou pobre, todo mundo comeu arroz com feijão na infância. “Na Grã-Bretanha e nos EUA, nosso relacionamento com alimentos ultraprocessados ​​é tão extenso e remonta a tantas décadas que esses produtos se tornaram nosso alimento da alma, um amado repertório de pratos. É o que nossas mães nos alimentaram”, escreve Wilson. Segundo ela, em países como Austrália, Canadá ou Reino Unido, ser instruído a evitar alimentos ultraprocessados significaria rejeitar metade ou mais do que está à venda como alimento, incluindo muitos itens básicos dos quais as pessoas dependem, como o pão que compram no supermercado.

INSUSTENTÁVEL

O Departamento Penitenciário divulgou na sexta-feira os números da população prisional no Brasil. E o limite de vagas disponíveis está extrapolado em 312 mil pessoas. Os dados são de julho do ano passado, quando havia 758,7 mil pessoas presas no país. Seguimos sendo a terceira nação com mais gente encarcerada, atrás de EUA e Rússia. “A situação é de tamanho absurdo que acabamos fazendo um debate que talvez fosse compatível com período medieval”, compara Gabriel Sampaio, coordenador do programa de enfrentamento à violência institucional da Conectas, na Ponte. Ele menciona a falta de condições básicas de saúde, a superlotação e a falta de capacidade do sistema em reinserir as pessoas na sociedade, função “constitucional dada para a prisão”.

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