Pela primeira vez, poluição do ar é registrada como causa de morte

Menina de nove anos morreu no Reino Unido após dar entrada em hospitais 27 vezes, sempre com problemas respiratórios. Decisão judicial histórica foi fruto de longa luta da família – e pode gerar políticas mais duras

Foto: Arquivo pessoal / Rosamund Kissi-Debrah

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Um caso no Reino Unido pode abrir as portas para políticas mais duras em relação à poluição do ar em todo o mundo. Depois de uma batalha judicial, ontem uma corte londrina confirmou o diagnóstico de que a morte de uma criança teve como causa a excessiva exposição ao ar poluído. Ella Kissi-Debrah tinha apenas nove anos quando morreu. De 2010 a 2013, ano do óbito, ela deu entrada em hospitais 27 vezes, sempre com problemas respiratórios. A menina vivia no sudeste de Londres – e testes feitos nas redondezas do seu domicílio provaram que os níveis de dióxido de nitrogênio e material particulado estavam bem acima das diretrizes da Organização Mundial de Saúde. 

Isso não aconteceu por acaso, mas depois de pressão. Quando Ella morreu, sua família criou uma fundação em seu nome para angariar fundos para crianças que sofrem de asma. A partir desse trabalho, Rosamund Kissi-Debrah – mãe da menina – começou a se aprofundar e entender que a poluição poderia ter agravado os problemas respiratórios de Ella e disparado suas crises. A pedido da família, a advogada Jocelyn Cockburn se uniu a um médico especialista, Stephan Holgate, para investigar o caso. Seguiu-se um processo que chegou a ouvir até o atual prefeito de Londres, Sadiq Khan – na época da morte de Ella, era Boris Johnson quem estava no comando da capital britânica. Na corte, foram apresentadas várias provas, enfim aceitas ontem.

Segundo especialistas ouvidos pelo site Health Policy Watch, essa é provavelmente a primeira vez que um documento vincula a poluição a uma morte concreta no mundo. No Guardian, Sandra Laville, repórter especializada em meio ambiente, destaca a diferença: “Até agora, as estatísticas das mortes por poluição do ar foram apresentadas em preto e branco – números em uma página que estimam entre 28 mil e 36 mil óbitos como resultado dos poluentes, todos os anos, no Reino Unido. Mas a vida e a morte de Ella Kissi-Debrah são coloridas: desde as fotos dela usando seu collant de ginástica, até a imagem de sua mãe e irmãos segurando sua fotografia, enquanto lutavam pela verdade. Como disse o professor Stephen Holgate ao legista, por trás das estatísticas frequentemente citadas estão indivíduos cujas vidas foram interrompidas. ‘Cada número que entra nesses estudos é uma única pessoa morrendo’, disse ele”. No mundo, se estima que sete milhões morram todos os anos por conta da poluição atmosférica. A decisão foi comemorada pela diretora de meio ambiente da OMS, Maria Neira.

Por aqui, 16 entidades médicas lançaram na última terça-feira um manifesto pedindo pela manutenção do cronograma do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores. Elas denunciam que a Associação Nacional dos Fabricantes (Anfavea) tem feito lobby para adiar os prazos, usando como justificativa… a pandemia.

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