Um presidente apequenado a animador de torcida

Pronunciamento pavoroso foi planejado para voltar a mobilizar eleitorado nas redes sociais, dizem assessores. Leia também: o documento sigiloso da Abin que prevê milhares de mortes nos próximos dias

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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UMA ABERRAÇÃO

Dizer que Jair Bolsonaro passou dos limites virou lugar comum, mas faltam adjetivos para qualificar o pronunciamento de ontem à noite. A verdade é que não há limite possível para o delírio do presidente que conseguiu, em cinco minutos, usar três vezes a palavra “histeria”, mentir sobre a covid-19, contrariar especialistas do mundo todo, fazer pouco caso dos idosos e doentes crônicos que morrerão e ainda fazer suas típicas provocações infantis a quem o contraria.

O medo das pessoas, para ele, se deve à cobertura midiática que espalhou “a sensação de pavor” – e não ao fato de que já há quase 400 mil casos no mundo com mais de 16 mil mortes, e de que tudo isso cresça exponencialmente.

Num ataque direto aos governadores – com quem parecia ter dado uma trégua ao fazer videoconferência com adversários e anunciar ajuda financeira – disse que “algumas poucas autoridades estaduais e municipais devem abandonar o conceito de terra arrasada, a proibição de transportes, o fechamento de comércio e o confinamento em massa”.

“Devemos, sim, voltar à normalidade”, completou ele, no momento em que os casos no Brasil ainda estão começando a crescer e quando o próprio ministro da Saúde prevê o colapso do SUS em breve. “Por que fechar escolas?”, perguntou, na contramão de mais de 150 países que já fecharam todos os seus estabelecimentos de ensino. “O grupo de risco é o das pessoas acima de 60 anos”, justificou, insensível, antes de se gabar do seu “histórico de atleta”. “No meu caso particular (…) nada sentiria, ou sentiria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho”. O que é mentira – que o digam os atletas que já relataram seus maus bocados com a covid-19.

Para completar, numa rara menção à ciência, ainda colocou “Deus” como encarregado por capacitar pesquisadores no Brasil – que têm mostrado, o tempo todo, a gravidade da situação. Subfinanciados, por sinal. Em O Globo, o infectologista da UFRJ Edimilson Migowski comentou: “A covid-19 é uma doença contagiosa e toda a população está vulnerável, já que não existe uma vacina ou um antiviral licenciado para este fim. Por isso há um grande potencial de que muitas pessoas adoeçam ao mesmo tempo. Imagine, por exemplo, que 100 mil pessoas adoeçam na Rocinha. Sabemos que 20% delas terão uma doença moderada e 5%, grave. Isso significa que 5 mil pessoas precisarão de suporte de terapia intensiva. Isso tudo considerando apenas um bairro do Rio”.

Falando em ciência… Entidades que reúnem pesquisadores de saúde coletiva e bioética, como a Abrasco, assinaram juntas uma nota em que classificam como criminoso o “discurso de morte” do presidente: ele “nega o conjunto de evidências científicas que vem pautando o combate à pandemia em todo o mundo”, dizem.

As panelas soaram pela oitava noite seguida. E está sendo preparado o “maior panelaço da quarentena” no próximo dia 31, em “defesa do SUS e da democracia”.

NOS BASTIDORES

O discurso pareceria uma alucinação absoluta se não estivesse óbvio o fato de que foi preparado de antemão. Segundo o Estadão, a fala foi escrita “no gabinete do presidente com a participação de poucas pessoas e em segredo”. Teve, como era de se esperar, o dedo de Carlos Bolsonaro e de integrantes do “gabinete do ódio”, onde atuam os assessores responsáveis pelas redes sociais do presidente. A matéria diz que até o fim da tarde poucos assessores sabiam que Bolsonaro preparava uma declaração.

Os ministros Luiz Eduardo Ramos, Onyx Lorenzoni, Ricardo Salles e Walter Braga Netto participaram; Flavio Bolsonaro e o ex-jogador de futebol Paulo César Tinga também. “A estratégia, segundo assessores presidenciais, é a de tentar polarizar o debate no esforço de municiar o eleitorado bolsonarista a voltar a sair em defesa do governo“, completa a reportagem da Folha. Isso porque o núcleo digital da Presidência constatou uma “desmobilização” de perfis de direita nas redes sociais.

A aposta, alta, não foi consensual dentro do governo. O núcleo militar foi contra, com o medo (nem um pouco infundado) de que o efeito seja o oposto. A ala vem se dedicando, segundo O Globo, a “tentar aplicar um freio de arrumação na gestão da crise do coronavírus”. Meia hora antes do pronunciamento, o general Edson Leal Pujol publicou um vídeo no Twitter do Exército pedindo seriedade.

AQUELA DÚVIDA

Tudo isso vem junto com uma dúvida cruel: estaria o presidente infectado? Depois de uma determinação da Justiça, o Hospital das Forças Armadas, onde ele fez o teste para o coronavírus, apresentou uma lista de 17 pessoas que receberam resultado positivo. Mas… omitiu o nome de duas. E a lista com os 15 identificados não vai ser publicada. O governo do Distrito Federal diz, porém, que há “alguns” integrantes do governo entre os 15.

Segundo o jornalista Vicente Nunes, do Correio Brazilliense, servidores do Planalto admitem que os nomes ocultos podem ser os do presidente e da primeira-dama. “Esses servidores dizem que a lista do HFA virou tabu dentro do Planalto”, escreve ele. E lembra que, logo neste momento, o governo restringiu o acesso a dados públicos por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI).

O CIRCO PEGA FOGO

Se a estratégia do pronunciamento aberrante funcionou para movimentar apoiadores nas redes sociais ainda não sabemos. Mas no Congresso a resposta veio rápido. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, lançou logo uma nota afirmando que o Brasil precisa de uma “liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”. Diz ainda que a “nação espera do líder do Executivo mais do que nunca, transparência, seriedade e responsabilidade”. Rodrigo Maia, da Câmara, bem mais sutil, tuitou que o discurso foi “equivocado” e pediu “paz”.

Entre os demais parlamentares, as críticas vieram obviamente da oposição e de ex-apoiadores como Joice Hasselmann. Mas também de aliados: Três congressistas relataram anonimamente à colunista Bela Megale, do Globo, que a fala foi “um banho de água fria” e “fora do tom”. Segundo a Folha, líderes do centrão “questionam a capacidade do presidente de continuar governando“. Mas dizem que não é a hora de levantar a bandeira do impeachment…

Enquanto isso, alguns governadores falam, sim, em impeachment – e até em demissão do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cuja posição estaria deslegitimada depois de o presidente ir contra as recomendações da Pasta. “Confesso que depois da iniciativa do presidente, de ter atendido os governadores, achei que fosse mudar. E aí hoje ele vem com essa postura e com esse conteúdo, totalmente na contramão de todas as medidas que, com tanto esforço e responsabilidade, os governadores e prefeitos vêm enfrentando a pandemia?”, disse a petista Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte.

Segundo o Globo, governadores de todo o país imediatamente começaram a trocar mensagens de WhatsApp e a preparar uma reação ao presidente – e vão manter as restrições impostas até agora. Ex-aliados e agora rivais, Wilson Witzel (Rio) e João Doria (SP) ganham palco. 

Aliás, a crise do coronavírus fez com que o governador de São Paulo antecipasse em dois anos a sua estratégia de se apresentar abertamente como “o anti-Bolsonaro”, diz a Folha.Henrique Meirelles, hoje à frente da Secretaria da Fazenda do estado, já se opôs a Paulo Guedes: “Primeiro tem que preservar a vida, depois a economia”, disse ao Valor. Mas sem exageros: ele segue na defesa da austeridade fiscal e do teto de gastos (do qual foi grande articulador em 2016), e nega que a tese do Estado mínimo tenha caído por terra.

E os secretários estaduais de saúde divulgaram uma carta em que se dizem “estarrecidos” com o pronunciamento. “Ao invés de desfazer todo o esforço e sacrifício que temos feito junto com o povo brasileiro, negando todas as recomendações tecnicamente embasadas e defendidas, inclusive, pelo seu Ministério da Saúde, deveríamos ver o Presidente da República liderando a luta, contribuindo para este esforço e conduzindo a nação para onde se espera de seu principal governante: um lugar seguro para se viver, com saúde e bem estar”. escreveram. 

NOVO EPICENTRO

Uma das poucas vozes no mundo alinhadas com a do presidente brasileiro é a de Donald Trump. Ontem, ele disse que “é absolutamente possível voltar ao normal até a Páscoa” – daqui a menos de um mês. Durante um (curto, é verdade) período, ele deu a impressão de estar mais ou menos entrando nos eixos, mostrando-se preocupado com a pandemia. Mas já na segunda-feira começou a afirmar que era desejável afrouxar o isolamento aplicado em vários estados.

Enquanto isso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que os EUA podem se tornar o novo epicentro da pandemia. O país está com mais de 40 mil casos confirmados e cerca de 600 mortes e, nas últimas 24 horas, 40% dos novos casos no mundo foram registrados lá.

Parece que falta no Brasil um equivalente a Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA, que acompanha Trump em pronunciamentos. Ele tem cada vez mais corrigido o presidente. Em público. Numa entrevista à Science, já chegou a dizer: “Não posso pular na frente do microfone e empurrá-lo para baixo”, referindo-se às afirmações falsas que o presidente faz nos briefings. Segundo uma reportagem do New York Times, ele provavelmente só não caiu ainda porque é assessor de todos os presidentes desde Ronald Reagan. Tem, portanto, credibilidade junto a grande parte do público.

Para constar: a resposta dos governos ao vírus parece não ter tanto a ver com a orientação política, ao contrário do que os casos do Brasil e dos EUA sugerem. O colunista Guga Chacra lembra, no Globo, que um dos ídolos de Bolsonaro, Benjamin Netanyahu, de Israel, tem uma das políticas mais duras de contenção (e que chega à beira de um indefensável golpe, como vimos por aqui). No México, o presidente de esquerda López-Obrador já segue a linha da despreocupação e defende beijos e abraços, apesar de já haver transmissão comunitária no país.

AS PROJEÇÕES DA ABIN

E o Intercept Brasil teve acesso a um documento sigiloso assinado no domingo (22) pela Abin, a Agência Brasileira de Inteligência. Nele, o órgão projeta que, até o dia 5 de abril, o número de mortes por covid-19 no país terá chegado a 8.621. E o de casos a 215.536. Sim. A curva foi projetada de acordo com a evolução da epidemia em três países: Irã, Itália e China.

A Abin também projetou, a partir desses mesmos países, a demanda por leitos de UTI em duas semanas. E concluiu que serão necessários 7.593 leitos, o equivalente a 17,16% da capacidade total do país. Olhando para alguns estados, a Agência projeta cenários ainda mais preocupantes. No Ceará, os doentes precisariam de 46,3% dos leitos de UTI até o dia 5 de abril. No Distrito Federal, 44,5%. Em Santa Catarina, 30,6%. E no Acre, 30,4%. São Paulo, estado com maior número de casos e óbitos confirmados – e também com a melhor rede hospitalar do país – precisaria de 25% do seu total de vagas.  O problema, como sabemos, é que esses leitos não estão vazios, mas ocupados por outros doentes com outros problemas numa taxa que, segundo o Ministério da Saúde informou à Abin, oscila entre 80% e 90%. A conta não fecha.

Existe um cenário menos ruim, calculado a partir dos dados da França e da Alemanha. Se a epidemia brasileira evoluir como a desses países, teemos 70.572 casos e 2.823 mortes até o dia 5 de abril. E um cenário bom, em que a comparação é feita com Japão e Austrália (que, aliás, é um país que começou a degringolar como falamos ontem). Nesse, seriam 7.917 casos e 154 mortes. 

E claro: documentos como esse são enviados ao presidente Jair Bolsonaro. A Abin responde ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, comandado pelo general Augusto Heleno. 

TRAVADO

Antes do pronunciamento – mas, quem sabe, já a par de seu teor – Mandetta deu declarações à imprensa problematizando os lockdowns adotados por estados como Rio e São Paulo. Detalhe: as críticas aconteceram logo depois de uma videoconferência com os chefes dos executivos estaduais das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste, da qual participou ao lado de Bolsonaro.

De acordo com o ministro, o “travamento do país atrapalha a saúde” e a quarentena total é complexa – “Não é uma coisa assim ‘parou’ – e deveria ser articulada. Mas a questão é: quem deveria articular? O Ministério da Saúde, por óbvio. O mesmo que dá sinais trocados quando anuncia no dia 13 a determinação de fim dos cruzeiros e 24 horas depois volta atrás por pressão do restante do governo federal… Mandetta, como temos observado, é um político que parece estar disposta a modular seu discurso de acordo com o vento que sopra do Planalto. Depois de ser escanteado do gabinete de crise que trata do coronavírus criado por Bolsonaro e ter sido colocado em compasso de fritura pelo presidente, passou a adotar um tom muito mais tranquilizador e ameno, para não lembrar da sua defesa do adiamento das eleições para que o pleito não seja “político”. 

Agora, depois da mais irresponsável fala de Bolsonaro desde o início da crise sanitária, Mandetta pediu que assessores enviassem nota ao Jornal Nacional informando que não comentaria o pronunciamento do presidente.

E o ministro já se isola do próprio partido, o Democratas. A cúpula do DEM procurou Mandetta depois do fatídico pronunciamento, mas não conseguiu contato. Com isso, a legenda decidiu que se o ministro colar seu discurso ao de Bolsonaro ficará sem o seu apoio, revelou o Estadão

A GUERRA DOS NÚMEROS

Enquanto isso, o secretário-executivo do Ministério da Saúde João Gabbardo Reis garante que a quantidade de leitos de UTI existentes no Brasil “é adequado às demandas até o presente momento”. Sim, e no momento seguinte? – que é o que todos querem saber. E nas próximas semanas? Gabbardo comparou a média nacional de leito por habitantes (2,6 leitos para cada 10 mil) com a de países como França (1,05) , Itália (1) e Reino Unido (0,6). A questão é que esses leitos não são distribuídos igualmente em todas as regiões brasileiras. E nem os indicadores de saúde brasileiros são comparáveis aos desses países. Ele prometeu ampliação, mas não deu detalhes – “O Ministério da Saúde e o governo estão se preparando” – e colou a cada vez mais visível falta de urgência da Pasta a uma suposta desmoralização do SUS: “não vamos desmoralizar o nosso sistema de saúde”.  

Profissionais de saúde estão lançando hoje uma campanha para chamar atenção para o problema. ‘Leitos para Todos!’ quer pressionar o governo brasileiro a seguir o exemplo da Espanha e Portugal e adotar uma medida perfeitamente razoável num momento de epidemia: determinar a regulação única de leitos. Como já explicamos por aqui, isso quer dizer que a partir de um dado momento (de preferência já), o governo federal ou os gestores estaduais e municipais passam a regular também os leitos privados. Assim, não se corre o risco de um doente morrer por falta de leito no SUS quando há leitos sobrando na mesma cidade na rede privada.  

“Defendemos que haja acesso universal e igualitário para o tratamento de casos graves da doença em uma fila única, independente da capacidade de pagamento; que o poder público gerencie toda a capacidade hospitalar pública e privada; e que a oferta de leitos seja expandida através do SUS”, diz o texto de divulgação da campanha, que será lançada hoje às 11h pelas redes sociais. 

Em tempo: Mais um estado decidiu transformar em hospital estrutura anteriormente voltada para eventos. O governo de Minas vai adaptar um centro de convenções para receber 800 leitos.

FALTA AÇÃO INCISIVA

O preço do respirador pulmonar, equipamento essencial para tratar os casos graves de covid-19, disparou, chegando a R$ 140 mil. O problema gerou um bate-boca no grupo de WhatsApp criado com secretários de saúde e membros do Ministério. Segundo a colunista Mônica Bergamo, o secretário estadual da Bahia, Fábio Vilas-Boas, afirmou que abriria queixa policial diante da afirmativa do ministro Mandetta de que havia enviado respiradores ao estado. “Não chegaram até minhas mãos”, rebateu. Diante disso, o secretário de Vigilância do Ministério da Saúde, Wanderson de Oliveira, saiu do grupo. E outras coisas estão em falta, como máscaras, óculos de proteção, aventais e até álcool em gel. Os estados têm dinheiro, mas não encontram o que comprar. 

Ao mesmo tempo, o Ministério da Saúde abriu uma exceção à proibição das exportações, autorizando o cumprimento de um contrato de compra do governo italiano de dois milhões de máscaras e 50 ventiladores pulmonares. “Consultei o governo, o presidente Bolsonaro. Antes de mais nada, somos cristãos, nós não dormiríamos com a consciência no lugar. Já tinham comprado, tinham pago, contavam com ela, é o suficiente para abastecê-los por um dia. Por mais que seja duro, nós autorizamos, porque é o que nós temos que fazer, foi assim que nós fomos ensinados, fomos educados, fomos criados, então é assim que nós vamos proceder também nesse quesito”, justificou Mandetta, misturando religião com administração pública bem no tom do governo. Coube a Gabbardo uma explicação mais racional, mas ainda sim complicada: o secretário-executivo espera que quando o caos estiver instalado por aqui, a Itália haja com reciprocidade. 

Se uma ação mais incisiva fosse tomada, talvez essa notícia não chamasse tanta atenção. Sabemos que o governo proibiu a exportação de ventilador e outros equipamentos. Sabemos que a Anvisa flexibilizou as regras para sua importação. E ainda que o governo se comprometeu a comprar toda a produção nacional de máscaras e ventiladores nos próximos 180 dias. Mas falta tudo. Semana passada, Mandetta anunciou que Bolsonaro se reuniria com empresários para “pedir” que acelerassem a produção de produtos necessários ao enfrentamento da epidemia. E ontem, o Ministério da Saúde publicou um pedido de doação de bens, serviços ou direitos para combater a covid-19.

Mas fica a dúvida: por que o governo federal não proíbe o aumento abusivo do preço dos equipamentos? E, novamente, já que não custa repetir: por que não segue o exemplo dos EUA e de Portugal e baixa um decreto que obrigue o setor industrial como um todo, não apenas as empresas especializadas, a produzir seja lá o que for necessário para que não se percam vidas por falta de equipamentos e insumos? No fundo, a explicação para tamanha timidez é uma só: o governo federal, em menor ou maior grau, está contaminado pela ideia de que a mais disruptiva crise sanitária em décadas – caracterizada por algumas autoridades internacionais como “guerra” – não passe de uma “gripezinha”. 

DIANTE DA ESCASSEZ

João Gabbardo dos Reis pediu que a população brasileira faça suas próprias máscaras com tecido e elástico. “A máscara, para a população, para as pessoas que querem, porque estão sintomáticas, impedir contaminar outras pessoas, é uma barreira física. Faz com pano. Quem não tem outra alternativa, faz com pano. Pega um tecido, coloca um elástico. É uma barreira física para que não haja, ao falar, ao tossir, ao espirrar, a disseminação de gotículas que possam contaminar outras pessoas. Vamos deixar as máscaras que têm registro, que são aprovadas pela Anvisa para serem utilizadas pelos hospitais, pelos profissionais da área da saúde.”

NÚMERO DE CASOS

Oficialmente, o Brasil tem 2.201 casos confirmados e 46 mortes. Mas, de acordo com o balanço do G1 feito junto a secretarias estaduais de saúde, o número é de 2.271 infectados e 47 óbitos. Ontem, Manaus registrou a primeira morte por covid-19 fora do Sudeste. A vítima era um homem de 49 anos, portador de hipertensão. 

A doença já foi confirmada em 172 municípios, sendo a região Sul a mais afetada até agora, com 63 registros. À medida que a covid-19 chega mais perto das pequenas cidades do interior, um clima de pavor vai se instalando. Vários municípios têm buscado o isolamento quase completo, na tentativa de frear a multiplicação de casos. As prefeituras têm bloqueado vias de acesso às cidades, fechado praias, proibido a chegada de ônibus e decretaram moratória nos hotéis. Os gestores temem não conseguir atender a população, já que muitas cidades não têm hospitais. É o caso de Rifaina (SP), que só conta com atenção básica e precisa encaminhar pacientes que demandas de cuidados hospitalares intensivos para Franca, a 70 quilômetros de distância.   

O sistema prisional teve seu primeiro caso de coronavírus confirmado ontem. O doente é um funcionário do setor administrativo do centro de detenção de Praia Grande (SP).

OLÍMPIADAS ADIADAS

Os Jogos Olímpicos de Tóquio foram adiados por causa do novo coronavírus. A notícia foi dada ontem pelo primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, e confirmada pelo Comitê Olímpico Internacional, que adiou o evento para 2021, em data ainda a ser confirmada. 

NO MUNDO

O isolamento para deter o novo coronavírus já afeta um terço da população mundial. A cifra subiu consideravelmente depois que a Índia anunciou seu lockdown, acrescentando 1,3 bilhão de habitantes ao número de pessoas em isolamento total. Segundo a contagem oficial da OMS, o número de casos está em 372.757, com 16.231 mortes. A AFP Itália fez um balanço alternativo, com informações dos vários países, que dá conta que o número de casos já tenha chegado a 405 mil e o de óbitos a 18,2 mil. 

E um estudo da Universidade de Oxford conclui que metade da população do Reino Unido pode já ter sido contaminada pelo novo coronavírus. De acordo com o modelo, a cada mil pacientes infectados, apenas um ficaria doente o suficiente para procurar ajuda médica. Daí a subnotificação. A pesquisa vai ao encontro de outras, como a publicada semana passada na Science que, baseando-se em dados de Wuhan, afirma que 86% das pessoas eram assintomáticas ou desenvolveram sintomas muito leves. 

A situação piorou no Irã, que registrou ontem seu recorde de casos: 1.762 doentes em apenas 24 horas. Com isso, o número total subiu para 24.811. No entanto, o presidente Hassan Rouhani afirmou que o número de hospitalizações e mortes está diminuindo – sem dar dados que confirmassem a declaração

A coisa também não está boa na França. Ontem, o país anunciou que ocorreram 240 mortes em apenas 24 horas. Agora, o número de óbitos chegou a 1,1 mil. É o quinto lugar que ultrapassa a barreira das mil mortes por covid-19.

Já em Hubei, província chinesa onde surgiu o novo coronavírus, as coisas estão voltando ao normal. A partir de hoje, os moradores da região poderão circular normalmente. Continuam confinados os habitantes de Wuhan, a cidade que registrou os primeiros casos de covid-19. Para eles, o sinal verde foi marcado para 8 de abril. Literalmente: para sair nas ruas, os habitantes devem portar um QR code verde nos celulares para provarem que não são portadoras do SARS-Cov-2. 

O DEBATE SOBRE RECURSOS

Ontem, o Senado dos Estados Unidos aprovou um pacote de ajuda à população e às empresas no valor de US$ 2 trilhões

Por aqui, Rodrigo Maia afirmou que o gasto para enfrentar a crise deverá ficar entre R$ 300 bi e R$ 400 bilhões. Mas o presidente da Câmara dos Deputados, liberal que é, defende redução de salário de servidores em 20%.

Já outro liberal – cada vez mais liberado de dogmas, contudo – defendeu que a dívida pública seja usada como instrumento para aprovar um pacote de renda mínima que beneficie 100 milhões de brasileiros. A proposta é de Arminio Fraga, que tem sido figurinha fácil por aqui depois de criar um instituto dedicado a influenciar os debates sobre o SUS. Disse o ex-presidente do Banco Central que uma crise como a que estamos vivendo “só acontece uma vez a cada cem anos”. E, portanto, “as pessoas precisam saber que, durante esta crise, terão dinheiro para comprar comida”. Para ele, a emissão de títulos públicos pode arrecadar R$ 300 bilhões, de modo que comprometa 4% do PIB brasileiro. É ocasião pedagógica para muita gente aprender que as contas de um Estado nacional não podem ser comparadas com às contas domésticas, como a mídia brasileira gosta de fazer o tempo todo…

E entidades que se reúnem no movimento da Reforma Tributária Solidária defendem a taxação dos mais ricos. Segundo os cálculos divulgados ontem, 14 propostas nesse sentido podem arrecadar R$ 272 bilhões para serem usados na crise.

PRA NO FUTURO MUDAR O DISCURSO

Quem defende o SUS está esperançoso pelo fato de a pauta do sistema público e universal de saúde ter ganhado apoio popular no Brasil e no restante do mundo, mesmo que isso tenha acontecido diante de circunstâncias tão trágicas. É um bom momento para reconhecer que saúde é um setor muito complexo e que não há saídas milagrosas do setor privado para nenhum problema, por exemplo. Gestão pública e privada, unidades de um e de outro são passíveis de erros, acertos e melhoras. E precisam de financiamento adequado. Em São Paulo, como destaca o Valor, das 40 mortes confirmadas, 37 ocorreram na rede privada. Pois é.

MAIS:
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