Mandetta escancara apego ao cargo

Antes preocupado com o colapso do sistema de saúde, agora ministro também defende economia em detrimento à população. Esforça-se para despolitizar pandemia e salvar cargo. Leia também: Doria busca “capitalizar” erros do governo

Foto: Fábio Rodrigues Pozzebom / Agência Brasil

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

MAIS:
Esta é a edição do dia 26 de março da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui. Não custa nada.

DENTRO DA CURVA BOLSONARISTA

Depois do pronunciamento em que Bolsonaro orgulhosamente se desfez de todas as evidências científicas sobre a disseminação do coronavírus, pairaram no ar dúvidas sobre a possível queda do ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Em entrevista à editora do Outra Saúde, Maíra Mathias, o ex-ministro José Gomes Temporão, que elogiou a forma como a Pasta conduziu a crise no começo, disse: “Se o ministro tiver coerência, vai sustentar sua posição. Seria absolutamente inadmissível que ele dissesse ‘sim, está tudo errado e o presidente é quem tem razão’. Isso não tem sentido”.

Mas Mandetta, que já chegou a ser apontado como um ponto fora da curva bolsonarista, mostrou que está mais dentro dela do que nunca: “A saúde só pode funcionar quando gera riqueza”, cravou. “Nesse sentido eu vejo a grande colaboração da fala do presidente: chamar atenção de todos que é preciso pensar na economia”, completou, pouco antes de afirmar que não vai sair do governo. Mandetta deixou a coletiva sem responder às perguntas dos jornalistas.

Seu argumento é o de que a quarentena no Brasil está sendo precipitada: “Nós saímos praticamente do início dos números para praticamente um efeito cascata de decretação de lockdowns em todo o território nacional em paralelo, como se nós estivéssemos todos em franca epidemia”, afirmou. Distorcendo as medidas locais tomadas até agora – que abrem exceção para o funcionamento de serviços essenciais, como alimentação e saúde – ele afirmou que “quarentena sem prazo determinado para terminar vira uma parede na frente da necessidade das pessoas, que precisam comer, que precisam abastecer suas casas, que precisam ir no supermercado, que precisam ir e vir porque isso faz parte da própria sobrevivência”. Afirmou ainda que as restrições podem prejudicar o próprio enfrentamento ao coronavírus porque impediriam a produção de insumos, por exemplo.

Detalhe: além das exceções previstas nos decretos municipais e estaduais, o próprio governo federal tem estabelecido quais serviços não podem parar em âmbito nacional – o que evitaria esse tipo de problema mesmo diante das mais severas quarentenas.

O ministro até admite que um dia seja necessário fazer restrições duras, mas acha que é preciso ter “cuidado” porque a quarentena é um “remédio extremamente amargo”. Então, antes de recorrer a ela, defende medidas alternativas: primeiro “trabalhar em bairros específicos, reduzir a mobilidade em alguns aparelhos”, depois então conter cidades. Como se os casos estivessem concentrados em determinados bairros, num país que já declarou, por meio de decreto, que há transmissão comunitária em todo o território.

“Existe uma série de medidas que vai se tomando até que se tenha um patamar. Quando eu chegar neste patamar, eu passo a considerar conter um bairro, uma cidade”. E qual seria esse patamar? Quantas mortes? Algumas centenas? Não sabemos. Mas ele disse que essa definição precisa ser feita “de maneira organizada”, alinhavada pelo governo federal, “para que todos saibam: quando o número de casos chegar aqui, vamos fazer isso; quando chegar aqui, vamos fazer aquilo”.

Se poucos dias atrás o ministro parecia preocupado com o colapso do sistema de saúde em abril, ontem ele preferiu olhar para mais adiante. “Sabemos que no final essa contaminação vai chegar num ponto de equilíbrio e vai passar”, afirmou. E tirou do governo federal a culpa por qualquer má condução da pandemia. Nosso resultado, argumentou, “não será culpa de a, de b ou de c, será a nossa história”. Pois é. E continuou: “A gente vai ter que sair disso sem vencedor, sem perdedor, sem ataque, sem apontar dedo para a, b ou c. Vai ter que sair disso e, depois que sair, depois de enfrentar essa situação, aí ter um grande debate sobre como se preparar, sobre como conduzir melhor os destinos desse país”.

Enquanto o “ponto de equilíbrio” não chega, Mandetta aproveitou para contar ao público como vem se prevenindo: toma chá, não anda descalço, não bebe gelado e não pega golpe de ar. “Isso é o que a gente sabe que funciona porque é o que a gente aprendeu com os nossos pais numa época que tinha gripe e não existia remédio”. Ah, se o mundo soubesse que é tão simples… 

EM APOIO

Apesar do recuo de Mandetta, a Comissão Externa da Câmara que analisa ações preventivas durante a epidemia aprovou ontem uma moção de apoio a ele. Diz que as recomendações do Ministério da Saúde devem se aplicar a todos, inclusive ao presidente. Mas se a Paste se dobra a Bolsonaro, não faz muito sentido.

Falando nisso, o general Heleno, ministro-chefe do GSI, descumpriu as recomendações. Com teste positivo para covid-19, deveria ficar em isolamento domiciliar por 14 dias, mas saiu depois do sétimo.

UMA SAÍDA

Se o rebuliço após as falas de Bolsonaro não levaram Mandetta para fora do Ministério, ao menos um diretor da Pasta saiu. Segundo o Estadão, o médico Júlio Croda, que ocupava o cargo de diretor do Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis, vai deixar a função por conta de divergências internas. Há alguns dias, em coletiva, ele afirmou que o coronavírus está se comportado aqui de forma semelhante ao que ocorre na Itália.

OU ISTO, OU AQUILO

A polêmica sobre a necessidade ou não do isolamento no caso do Brasil nem deveria ser uma polêmica porque, entre pesquisadores, há praticamente um consenso. Inclusive entre economistas, como mostra a reportagem da Folha.

É sempre bom mirar o caso italiano. Um mês atrás havia 17 mortes e 650 infectados lá, e o governo não quis tomar medidas drásticas com medo de quebrar a economia. O primeiro-ministro Giuseppe Conte chegou a dizer que fechar escolas “contribuía para gerar o caos”. Só quando já havia 230 mortes e quase seis mil casos em todo o país, no último dia 8, foi anunciada quarentena em Bergamo e em mais 11 províncias. No dia seguinte, a medida se estendeu a todo o território italiano. Não foi rápido o suficiente. Hoje a Itália tem 7,5 mil óbitos, com uma enorme concentração em Bergamo – que já não dá conta nem mesmo de enterrar seus mortos. Só duas semanas depois os números começam a diminuir.

Então se sabe que isolar, de preferência cedo, funciona. Já o “isolamento vertical”, estratégia alternativa proposta por Bolsonaro… Esse termo nem é usado em saúde pública, como explicou o infectologista Gerson Salvador ao Outra Saúde, em entrevista a Maíra Mathias, lembrando que a estratégia já não deu certo em outros países. “Neste momento, a opinião do presidente não está consonante com o que dizem as autoridades públicas internacionais e do SUS. O presidente foi bastante irresponsável e fez um comentário que levou mais em consideração pressões dos grupos econômicos que lhe dão suporte, um setor do empresariado que é indiferente ao adoecimento da população, do que os setores que produzem ciência em saúde pública”, diz ele.

Como sabemos, o discurso está alinhado com o de Donald Trump. E este, por sua vez, se ancora na ideia de pesquisadores para quem “a cura” pode ser “pior do que a doença”. Um artigo de Thomas Friedman publicado no New York Times no domingo traz três especialistas defendendo a tese – também já comentada por nós nesta edição – de que seria melhor fazer uma quarentena geral de duas semanas e, em seguida, isolar somente idosos. Trechos do artigo de Friedman estão sendo usados textualmente por Trump para justificar sua intenção de reabrir a economia na Páscoa.

Mas em um podcast do mesmo New York Times, o jornalista Donald Mcneil explica, a partir de suas entrevistas com especialistas, por que não isso dá certo. “Como você isola apenas os idosos? (…) Como você isola os vulneráveis?”. Pessoas com diabetes, pressão alta, que usam  medicamentos imunossupressores, todos estão também no grupo de risco – e a verdade é que a lista de características que torna alguém vulnerável à doença é enorme. “Portanto, a ideia de que você pode isolar todas as pessoas mais vulneráveis ​​dos EUA é simplesmente uma ilusão”, conclui ele.

Em tempo: Segundo a matéria da BBC, no Brasil 66% dos idosos vivem com alguém que não é seu cônjuge, em geral com filhos e netos. Que, se não estiverem mantidos em isolamento também, são grande fonte de contaminação.

AS DUAS ONDAS E O TSUNAMI

Falante no início do governo Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão foi sendo empurrado mais e mais para o papel que temia, o de vice-presidente decorativo – aquele presente no palco durante os lançamentos de programas que só bate palmas. Mas, vez ou outra, ele se rebela. No caso em questão, Mourão resolveu se rebelar contra a realidade dos fatos e justificar a aposta feita por Jair Bolsonaro no incentivo à livre circulação de pessoas e vírus. “A posição do nosso governo por enquanto é uma só: isolamento e distanciamento social”, disse, em negação ainda na terça. Na mesma ocasião, ele disse que o presidente teria se expressado de uma forma que “digamos assim, não foi a melhor”. De acordo com o vice, o presidente só tentou expressar preocupação com o que Mourão chama de “duas ondas”. “Temos a primeira onda, que é a saúde, e a segunda que é a questão econômica”. E, seguindo a metáfora, se nada for feito da forma certa na saúde e na economia de modo a proteger a população e os mais vulneráveis entre nós? Teremos um tsunami. 

Ontem, Mourão passou a um novo estágio da tragicomédia brasileira. Enquanto Bolsonaro desancava João Doria na memorável videoconferência com 26 governadores, o vice-presidente fazia sinal de reprovação com a cabeça com o semblante debochado que lhe é característico. 

BOLSONARO EM SEU ELEMENTO

Algum analista político que não nos recordamos já chamou atenção para a tendência de Jair Bolsonaro criticar aquilo que ele faz e que ele é. Ontem, o presidente, que tem feito uso político da crise sanitária desde seu começo, resolveu entrar num embate televisionado com o agora adversário João Doria o acusando de tentar antecipar 2022. Como se estivesse em um daqueles debates que reúnem candidatos presidenciais aos quais não compareceu em 2018, Bolsonaro disse: “Subiu à sua cabeça a possibilidade de ser presidente do Brasil. Não tem responsabilidade. Não tem altura para criticar o governo federal”. E acrescentou: “Saia do palanque.”

Francamente, se todos estão no palanque, alguns dos slogans desta mórbida campanha são melhores do que outros. Bolsonaro escolheu o slogan da economia: “Chega de demagogia! Não há saúde na miséria!”, vocifera o presidente que comanda uma equipe econômica capaz de propor cortes nos benefícios de idosos e deficientes e nos salários de trabalhadores, como se as vidas humanas só fossem visíveis a partir de planilhas de custo. Não é à toa que esteja isolado. 

Hoje, a Folha de S. Paulo defende em editorial uma improvável ‘autoanulação’ de Bolsonaro. Parece ainda não ter entendido (por cálculo, provavelmente) que será muito mais difícil parar o presidente: “Para articular, com respeito ao conhecimento sanitário e econômico, todos esses esforços extraordinários, Bolsonaro precisa delegar poderes a uma força-tarefa que reúna as equipes técnicas da Saúde e da área econômica e dialogue com Congresso e governadores. Que se forme um núcleo de governabilidade capaz de deixar em segundo plano as sandices do presidente, e que os políticos tenham a grandeza de suspender suas vaidades e projetos eleitorais por ora. Assim deveriam transcorrer as próximas semanas, que serão decisivas para uma ponderação dos efeitos das providências já tomadas na preservação de vidas e na subsistência das famílias.”

Além desse ‘grande acordo nacional’ para impedir Bolsonaro de implodir os únicos esforços sanitários que, a essa altura, farão diferença no achatamento da curva de transmissão do SARS-Cov-2, também os procuradores querem um freio institucional para o presidente. As Câmaras de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal e a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão pediram ao procurador-geral da República, Augusto Aras, que recomende formalmente a Jair Bolsonaro que ele siga a área técnica do Ministério da Saúde e as orientações da OMS em pronunciamentos públicos sobre o coronavírus.

Mas, como lembra o colunista Bruno Boghossian, “a desordem sempre foi o campo político de Bolsonaro”. De modo que, sim, o presidente está em seu elemento. E não se importa com as consequências, só com efeitos de suas declarações. “Bolsonaro só quer deixar o medo no ar”, constata. 

AS VIDAS DISPENSÁVEIS

O governador de Nova Iorque Andrew Cuomo tem repetido que não há vidas dispensáveis nessa crise e que todos os recursos financeiros necessários para as salvar, ou pelo menos tentar, serão usados. Por aqui, nas redes sociais já circulam mensagens dirigidas a uma espécie de inconsciente coletivo do empresariado brasileiro questionando: “Quem na sua família pode morrer para a economia não parar?” Mas a verdade é que gente como Junior Durski, dono da rede de restaurantes Madero, que tem a coragem de dizer à luz do dia que “não podemos [parar] por conta de cinco ou sete mil pessoas que vão morrer”, provavelmente têm um helicóptero à disposição, um refúgio afastado da civilização, um bunker qualquer onde colocar toda a família. 

Além de não serem muito bons em matemática, já que em uma população de 210 milhões, se pessoas e vírus circularem livremente, o resultado será milhão de mortes. Sim. Vamos relembrar: o primeiro-ministro Boris Johnson voltou atrás da mesma ideia que Bolsonaro defende agora de isolar apenas os grupos de risco ao ser confrontado por uma projeção do Imperial College de Londres que dava conta de que meio milhão de pessoas morreriam no Reino Unido caso nenhuma medida de distanciamento fosse adotada. Nos EUA, que tem uma população maior do que a nossa, a cifra foi de 2,2 milhões. 

Junior Durski não está sozinho. O presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais defende o tal “isolamento vertical”. E o presidente do Banco do Brasil, um Chicago boy que atende pelo nome de Rubem Novaes, enviou uma singela mensagem por WhatsApp: “Muita bobagem é feita e dita, inclusive por economistas, por julgarem que a vida tem valor infinito. O vírus tem que ser balanceado com a atividade econômica”. A vida, para Novaes, tem valor finito – é razoável escolher adoecimento e mortes. Quem escolhe? Ele e seu grupo, é claro. Qualquer semelhança com regimes totalitários do século 20 não é mera coincidência. 

Rodrigo Maia, de sua parte, deu ontem um conselho a governadores, condizente com sua recente estratégia de ignorar a maior quantidade possível de declarações do presidente Jair Bolsonaro. Segundo ele, há “quatro ou cinco dias” começou uma pressão de “milhares de pessoas que aplicaram os seus recursos na Bolsa e acreditam no sonho da prosperidade da bolsa com 150 mil pontos”, quando hoje está com 70 mil. “A gente foi vendo parte do mercado caminhando pra isso. Eles são assim, eles vivem de estatística, mas todos nós que fazemos política vivemos das vidas. Então é isso que a gente tem que saber equilibrar, as vidas com os empregos”. Para o presidente da Câmara dos Deputados, os governadores devem sair do enfrentamento com o presidente, sair do debate de longo prazo e focar no que pode ser aprovado no curto prazo pelo Congresso Nacional.  

Já a Folha ouviu “grandes empresários” e a maioria do setor produtivo está descontente tanto com Bolsonaro, quanto com Maia. Eles querem que todos os políticos se entendam – quando nem eles se entendem, pois alguns concordam com o isolamento recomendado pela OMS e outros não. As falas são tão anódinas quanto as cartilhas de gurus de autoajuda que fazem sucesso nessas empresas.

Para a estrategista global do J.P. Morgan Asset Manegement, Gabriela Santos, o conflito político é um “ruído” com “impacto em toda a agenda e trajetória de reformas”, disse ao Valor. É muito interessante ver os jornais perguntando sobre a covid-19 para gente que claramente não tem expertise e, portanto, a menor ideia do que responder. “Para Gabriela, não dá para saber ainda se a covid-19 estará sob controle em 15 dias ou em quatro meses no Brasil”, ‘informa’ a reportagem. 

O resultado de tanto debate ‘qualificado’ é uma projeção da equipe econômica do governo Bolsonaro que quer fazer pior do que Donald Trump e retirar (não se sabe por meio de qual instrumento jurídico) qualquer quarentena a partir do dia 7 de abril, cinco dias antes da Páscoa.

CADA UM SABE ONDE O CALO APERTA

Essa data, 7 de abril, tem a ver com o período em que acaba a quarentena imposta em São Paulo. Acontece que a medida pode ser renovada de novo e de novo pelo governador João Doria. O que abre um debate interessante sobre a natureza de uma república federada como o Brasil. O que pode fazer a equipe econômica diante de prerrogativas decisórias de outros entes?  Especialistas apontam que a resposta é… nada. Além de política. O funcionamento de áreas como saúde, educação e comércio são decididas pelos prefeitos e pelos governadores. E Jair Bolsonaro pode espernear, mas não pode mandar reabrir esses estabelecimentos.   

“É importante lembrar que a competência comum do ministro da Saúde para dispor sobre a quarentena não exclui a competência dos gestores locais e, nos casos em que as medidas adotadas sejam conflitantes, deve-se preservar as medidas locais a fim de preservar o federalismo. Nesse sentido já decidiu o Supremo Tribunal Federal”, explicou o advogado Fernando Cais à Folha.

A Confederação Nacional dos Municípios já sinaliza para que prefeitos editem os decretos de calamidade pública que acharem cabíveis nas suas realidades locais. “Cada prefeito sabe o que o seu sistema de saúde é capaz de suportar. E é esse sistema de saúde que vai ter que dar conta do atendimento da população que estiver no seu municípios”, constatou a entidade em nota divulgada ontem. 

Os governadores vão pelo mesmo caminho e reiteraram ontem a intenção de manter o isolamento para combater coronavírus, de acordo com as recomendações da OMS. Na frente mais propriamente política, eles vão buscar mostrar para a população que as medidas são necessárias para preservar vidas e evitar o colapso dos sistemas de saúde e que a culpa da crise econômica não é deles. A única exceção entre os 27 gestores estaduais é Mauro Mendes (DEM), do Mato Grosso. “Eu morro de medo dos reflexos econômicos dessas restrições”, disse ele.

Mas a surpresa nesse embate entre presidente e governadores foi Ronaldo Caiado (DEM), de Goiás, que rompeu com Jair Bolsonaro após o pronunciamento em cadeia nacional. Caiado, que é médico, se revoltou: “Eu tentei por várias vezes marcar uma audiência com ele [Bolsonaro] esses dias. Liguei no dia do aniversário dele. Claro, não quis falar desse assunto no dia do aniversário. Mas todas as vezes eu me coloquei à disposição e disse ‘olha, presidente, esse assunto vai exigir de nós uma preocupação’. Mas nunca consegui marcar essa reunião. Agora, eu, na área de saúde, dos poucos governadores que apoiam  ele declaradamente, vou receber isso [o pronunciamento] na minha área, me desmoralizando e rasgando meu decreto em Goiás? Ah, ele não faz isso comigo, não. Ele ‘tá’ enganado. Ele confundiu educação com falta de coragem.” Caiado declarou ontem a vários veículos que, em Goiás, vale o decreto de quarentena e as recomendações da OMS.

O BURACO É MAIS EMBAIXO

Quem vai colher os louros da crise é João Doria? O colunista da Folha, Igor Gielow, tende a achar que sim e comenta que Bolsonaro “mordeu a isca” do governador de São Paulo que, na videoconferência, fez uma apresentação “dura, mas cordial”. O resultado todos vimos. “Como o temperamento de Bolsonaro é previsível, o presidente reagiu aos berros”, descreve o colunista, para quem Doria venceu o duelo e “viu sua ação recompensada com a debandada sequencial de aliados de Bolsonaro”, entre eles Caiado. 

Mas, apesar de tudo, são muitas variáveis em jogo, como lista Gielow: “A alienação dos estados tem esse preço político, mas Bolsonaro conta com um ativo: o Ministério da Saúde. Não há como combater a crise do coronavírus sem coordenação nacionalizada, e estados mais dependentes de repasses federais têm menos espaço de manobra do que São Paulo, por exemplo. A própria posição de Witzel, que se disse otimista após a caótica reunião da manhã, sugere isso. O Rio está quebrado, e precisa de ajuda federal para evitar uma tragédia em seu sistema de saúde. De quebra, se Bolsonaro sair melhor do embate, ele não terá se desgastado tanto quanto Doria. No limite, há o risco de ser necessário decretar intervenções estaduais num pico de crise. Se isso ocorrer em série, o próprio conceito de federação se esvai. A disputa sobre respiradores, levantada por Doria no duelo da manhã, é um exemplo inicial desse problema. Na reunião da tarde, governadores de estados mais pobres apresentaram um quadro dramático. Cheias no Tocantins, por exemplo, ameaçam desabrigar milhares de famílias, que poderão ficar ainda mais vulneráveis ao vírus. Doria, por sua vez, buscou reduzir o volume de suas críticas justamente para evitar atrair a crítica acerca de suas pretensões presidenciais. Essa é a queda de braço que está ocorrendo neste exato momento, com repercussões sérias sobre a estabilidade política do país. Virão mais anúncios de pacotes para a economia e, provavelmente, para o bem-estar da população. Mas ao emular o comportamento de seu ídolo, Donald Trump, Jair Bolsonaro esqueceu que não tem os trilhões de dólares à disposição do americano para socorros financeiros. O imbróglio político é o mais sério, e na realidade muito mais grave por envolver vida humanas, desde a crise que levou ao impeachment de Dilma Rousseff (PT) em 2016.”

NO RIO

Marcelo Crivella (Republicanos) é um bom exemplo disso. O prefeito do Rio de Janeiro tenta, há meses, se colar em Bolsonaro como tábua de salvação para a crise no SUS municipal. E, por conta disso, vai manter medidas de distanciamento social, mas se disse “inspirado pela fé” do pronunciamento, enxergando no discurso de Bolsonaro uma “luz no fim do túnel”. Resta saber se essa luz é a lanterna da locomotiva vindo na direção da população carioca.   

AINDA A CLOROQUINA

O Ministério da Saúde afirmou ontem que vai autorizar o uso do remédio em casos graves da covid-19, mesmo que não haja evidências suficientes sobre a sua eficácia. Mais de três milhões de unidades vão ser distribuídas aos estados; o protocolo é experimental e não deve ser usado em casos leves, só em hospitais, para pessoas internadas.

Ao mesmo tempo… um estudo controlado, feito por pesquisadores chineses, mostrou que o uso da hidroxicloroquina não dá resultados melhores do que o cuidado usual (repouso no leito, inalação de oxigênio e medicamentos antivirais ou antibióticos) nos casos do novo coronavírus. Ao contrário da pesquisa francesa – em que o medicamento foi usado junto com o antibiótico azitromizina –, neste caso a cloroquina foi usada isoladamente.

MAIS:
Esta é a edição do dia 26 de março da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui. Não custa nada.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: