A mudança de planos para a CoronaVac

Butantan adia para 23/12 a divulgação de resultados. Não se trata de simples atraso, mas tentativa de jogar mais pressão sobre Anvisa e governo federal. Entenda

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A análise interina dos testes de fase 3 da CoronaVac deveria ser divulgada hoje, mas não será mais. O que à primeira vista poderia soar como atraso é, na verdade, a tentativa de ‘cercar’ a Anvisa com dados mais robustos e aplicar ainda mais pressão sobre a agência e o governo federal. Isso porque hoje sairiam os dados preliminares da eficácia, baseados nas 70 primeiras infecções identificadas entre os voluntários. Mas, com o crescimento da disseminação do vírus, o número de contaminados cresceu rapidamente e superou os 151 casos. Este é o número que o protocolo define como marca para o encerramento da fase 3 e para a avaliação final. 

Com isso, a ideia agora é anunciar no próximo dia 23 esse resultado final, em vez do preliminar. E em seguida solicitar não apenas a aprovação emergencial, mas também o registro definitivo – no Brasil e na China ao mesmo tempo, segundo o diretor do Butantan, Dimas Covas: “Esperamos que o registro possa caminhar muito rapidamente na China e, antes do final deste ano, vamos ter o registro da vacina na China. Com a vacina sendo registrada em uma das grandes agências, como a europeia, chinesa, japonesa ou americana, a Anvisa pode autorizar o uso excepcional do produto. Foi uma estratégia que discutimos junto com a Sinovac e acho que isso vai, de fato, emitir uma agilidade maior, embora possa colocar alguma pressão em cima da Anvisa”.

É uma resposta bem direta ao contra-almirante Antônio Barra Torres, diretor da agência. Na semana passada, ele disse que a lei 13.979 (que autoriza o uso de vacinas no Brasil desde que tenham aval das agências estrangeiras mencionadas por Covas) só valia para os imunizantes que tivessem o registro oficial, e não apenas o temporário. Então, se o registro sair logo na China, o problema da CoronaVac fica resolvido. Também serve contra posicionamentos como o de ontem, quando a Anvisa divulgou que os critérios para a autorização de uso emergencial da CoronaVac na China “não são transparentes e não há informações disponíveis sobre os critérios atualmente empregados pelos órgãos chineses para essa tomada de decisão”. 

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