Doria pressiona por CoronaVac, governo federal acena com Pfizer

Estados e municípios preveem comprar doses por conta própria, com planos e cronogramas diferentes – efeitos podem ser catastróficos. Governo federal se move, tardia e lentamente

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Ontem foi um dia movimentado no tabuleiro das vacinas no Brasil. Ainda cedo, João Doria (PSDB) anunciou que a imunização de profissionais de saúde, idosos, indígenas e quilombolas com a CoronaVac vai começar no dia 25 de janeiro. Não é preciso ter excelente memória para lembrar que o governador de São Paulo já havia prometido outra data anteriormente. Em setembro, ele disse que as primeiras doses seriam distribuídas na segunda quinzena de dezembro.

Muitas águas correram de lá para cá, mas o que faltava para validar seus planos naquela época é o que continua faltando agora: a aprovação ou registro na Anvisa, que por sua vez depende dos resultados de eficácia da vacina, ainda desconhecidos. É bom ressaltar que nenhuma candidata até o momento teve seus dados completos publicados em revista científica. A Pfizer e a Moderna divulgaram seus resultados de fase 3 apenas via comunicados à imprensa. A CoronaVac, nem isso – e o contra-almirante Antônio Barra Torres, diretor da Anvisa e aliado de Jair Bolsonaro, fez questão de ressaltar esse ponto de um modo nada elegante: “Antes de verificarmos estes protocolos de registro, precisamos acessar os documentos dos estudos clínicos referentes à fase 3 dos testes (…). Os que se interessarem podem solicitar o uso emergencial a qualquer momento. A partir de então, buscaremos fazer uma análise bem feita e no menor tempo possível. No entanto, não fixamos um mês ou dia de aprovação. Para as autoridades que assim fazem, desejo boa sorte“, disse à rádio Jovem Pan.  A expectativa do Instituto Butantan é entregar esses dados até o próximo dia 15, para em seguida entrar com o pedido na Anvisa.

Além de ter esse material em mãos, a agência precisa acabar ainda o processo de certificação da fábrica da Sinovac. Na sexta-feira, a equipe técnica enviada à China para fazer a inspeção presencial terminou o trabalho, mas, segundo o cronograma da Anvisa, o relatório só fica pronto entre os dias 30 de dezembro e 11 de janeiro. E, depois de passar pela agência, a vacina precisa ter seu preço definido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), como lembra o Estadão. Essa análise leva até 90 dias normalmente, mas o prazo deve ser encurtado para as vacinas contra a covid-19. 

Os grupos prioritários definidos pela equipe de Doria são semelhantes àqueles do plano preliminar do governo federal; não há, porém, nenhuma menção à inclusão de pessoas com comorbidades. Segundo o governo de São Paulo, o cronograma de vacinação desses grupos terminaria em março – mês em que o Ministério da Saúde quer começar o seu. A coletiva de imprensa em que as informações foram divulgadas teve outras pitadas de provocação. “São Paulo é do Brasil. Somos parte do país. Não vamos segregar pessoas. Se precisar, compraremos mais doses. O que desejamos é que o plano de vacinação seja antecipado e que inclua todas as vacinas e não a vacina de preferência do presidente da República ou do Palácio do Planalto”, disse o governador, ao explicar que não será necessário comprovar residência em SP para tomar o imunizante. A previsão é que, a partir de 2022, o processo de transferência de tecnologia para o Butantan esteja finalizado e o instituto passe a produzir integralmente a vacina. 

Para os estados

Qualquer aval da Anvisa (seja no período correto ou por ação judicial, caso haja demora) obviamente vale para o Brasil inteiro, não apenas para São Paulo. Segundo Doria, serão disponibilizadas quatro milhões de doses da CoronaVac para profissionais de saúde de outros estados (isso daria para vacinar dois milhões de brasileiros), e oito unidades da federação já teriam manifestado interesse em recebê-las. Porém, o Conass e o Conasems (conselhos que reúnem secretários estaduais e municipais de saúde) consideram “preocupante” a falta de coordenação nacional, com estados caminhando para adotar diferentes cronogramas e definições de grupos prioritários. Além de negociações com São Paulo, governadores também procuram a Pfizer. Como bem disse o epidemiologista Paulo Lotufo, “falaram em nova revolta (contra) da vacina. No entanto, os novos prefeitos sabem que está em curso é a revolta pela vacina“. Hoje Eduardo Pazuello vai se reunir com governadores, que devem cobrar do ministério a incorporação do maior número de vacinas possível ao SUS. A ver.

Conversas com a Pfizer

Com a piora da pandemia no Brasil, o início da vacinação em outros países, os resultados incertos de Oxford/AstraZeneca e, para completar, a pressão de seu potencial adversário nas eleições de 2022, Jair Bolsonaro se viu obrigado a admitir que todas as vacinas aprovadas pela Anvisa serão incluídas no plano nacional. Ontem, poucas horas após o anúncio de Doria, ele foi ao Twitter: “o governo brasileiro ofertará a vacina a todos, de forma gratuita e não obrigatória. Segundo o Ministério da Economia não faltarão recursos para que todos sejam atendidos”. Difícil é fazer cumprir o tuíte. Como se sabe, o plano preliminar do Ministério da Saúde prevê a vacinação de 109,5 milhões de pessoas no ano que vem.

No que pode ter sido mais uma tentativa de responder às críticas, à noite a pasta informou que sua negociação com a Pfizer avançou, e que está na mesa a possível compra de 70 milhões de doses para 2021. Daria para vacinar 35 milhões de pessoas. Foi um movimento algo surpreendente, pois apenas uma semana atrás o secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Arnaldo Medeiros, disse que a vacina teria que ser “fundamentalmente” termoestável por longos períodos em temperaturas de 2°C a 8°C. 

A aposta em mais um imunizante (este, com resultados de fase 3 já divulgados) é sempre bem-vinda, mas as condições para o seu armazenamento e transporte seguem preocupando. A ideia parece ser a de contar com a logística proposta pela Pfizer, com suas embalagens de gelo seco que conseguiriam manter a vacina por até 15 dias na baixíssima temperatura requerida. Mas, embora  seja inegável a expertise do SUS em distribuir vacinas, nunca se deve menosprezar a capacidade do atual governo de desperdiçar itens importantes – vide os milhões de valiosos testes PCR encalhados, prestes a perder a validade.

Ainda assim, a conta para vacinar “todos” ainda não fecha. Juntando a previsão do plano federal, as 46 milhões de doses da CoronaVac  adquiridas por SP e as 70 milhões (ainda incertas) da Pfizer, serão ao todo 167,5 milhões de pessoas vacinadas. Se tudo der certo.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), dedicou uma parte do dia de ontem a criticar o governo federal e a Anvisa. “O governo precisa criar um plano de vacinação, com calendário e prioridades, para não deixar isso a cargo do Judiciário“, tuitou. Da parte do Legislativo, disse que pretende votar até quinta-feira uma medida provisória pela qual a Casa poderá participar da definição da estratégia de vacinação. Ele não disse qual é essa MP, mas a imprensa ventila que deve ser a 1.003 – a que autorizou o governo federal a aderir à Covax Facility. De acordo com Maia, essa votação poderia definir um cronograma.

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