O fantasma que atormenta Damares

No mês da mulher, ministra promove seminário para enfrentar… o feminismo! Leia também: Moro enrola-se nos cigarros; Saúde da Família “reorganizado”?; Defensoria da União pede volta do Misoprostol (Cytotec); e muito mais

AS ARMADILHAS DE DAMARES

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Damares Alves está comemorando o mês da mulher em grande estilo. Ontem, o ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos promoveu em Brasília o evento “O protagonismo da mulher jovem no Brasil’, com um painel sobre ‘“As armadilhas do feminismo”. Para palestrar, Ana Caroline Campagnolo: aquela jovem professora e agora deputada do PSL que se criou em cima de polêmicas do tipo viralizar em foto com cara fofa e arma na mão, fazer projeto de lei prevendo que alunos gravassem professores etc. Seguidora de Olavo de Carvalho, a deputada tem um livro (sim) chamado “Feminismo: perversão e subversão”, em que “revê a trajetória do feminismo, confrontando as alegadas motivações e supostas conquistas do movimento com suas reais consequências na história cultural do Ocidente e, em especial, do Brasil”.

A jornalista Anna Virginia Balloussier, da Folha, esteve lá e conta como foi. Haja ânimo. Ana Carolina defendeu aquela coisa de rosa versus azul, porque afinal “meninas têm certas preferências e tendências”; disse que algumas gritas feministas, como no combate à violência, são exageradas, porque “a maior parte das mulheres não sofrerá estupro ou agressão física” ao longo da vida; e que “o privilégio de ser mulher” não é uma invenção cultural. Sobre a filósofa Judith Butler, referência nos estudos de gênero, a crítica da  palestrante se voltou à sua aparência. Afinal, de cabelos curtos, “ela perdeu nela mesmo todas as feições femininas”. A painelista disse ainda que o livro mais famoso de Beauvoir acerta numa coisa: mulheres são o segundo sexo, porque a Bíblia mesmo explica que primeiro Deus criou o homem. Ah, ela também falou sobre o que considera uma injustiça para com os homens: há muitos livros dedicados ao prazer sexual feminino e, para o masculino, pouquíssimos. Antes de começar o evento, Balloussier perguntou a Damares sobre 1964: se achava que tinha havido golpe ou revolução. A ministra não respondeu, mas lhe entregou uma flor. 

AINDA MORO & OS CIGARROS

O GT criado por Moro para estudar a redução de impostos sobre cigarros foi, obviamente, muito criticada. E o ministro também. Ontem, ele se explicou. Mais ou menos. Assegurou que sua intenção foi motivada por uma preocupação com… saúde pública. Disse que, se o GT concluir que a medida vai aumentar o consumo, será descartada. Mas continuou afirmando que seria “preferível” ter o mercado ilegal “preenchido pelo cigarro brasileiro submetido a maiores controles”, dada a baixa “qualidade” do cigarro paraguaio.

A matéria do Estadão detalha, a partir da explicação de integrantes da Receita Federal, por que a ideia não faz muito sentido do ponto de vista de evitar o contrabando: o cigarro paraguaio custa menos de R$ 1 o maço. Se cair muito a tributação, o maço aqui sai de R$ 5,5 para R$ 3. Não dá pra chegar perto. As fontes ouvidas lembram ainda que o mercado legal por aqui está em expansão, e isso justo porque, desde 2016, o aumento dos impostos sobre cigarros está congelado. As pessoas se acostumaram com o preço. Outro problema é que esse tipo de mudança só poderia ser discutido pelo ministério da Economia, o único que tem competência para fazer alterações do gênero. 

MANDETTA EM SABATINA

O ministro foi ontem à Comissão de Assuntos Sociais do Senado. Foi recebido por um grupo de dez índios, liderados por Sônia Guajajara (candidata a vice no ano passado, com Boulos) que protestaram contra a municipalização dos serviços e a possível extinção da Sesai. Aliás, tem havido protestos de milhares de indígenas em todas as regiões.

Mandetta disse que pretende legalizar a situação dos médicos cubanos que ficaram no país (divulgamos outro dia uma matéria da BBC que falava dos problemas pelos quais eles têm passado, sem emprego, sem reconhecimento, sem poderem voltar para Cuba e ainda sem documentos, ou seja, sem possibilidade de fazerem o Revalida). De acordo com Mandetta, no mês que vem sai a tão falada proposta de “revitalizar” e “reformular” o Mais Médicos. 

Segundo o Estadão, o clima foi mais pesado com Ricardo Vélez, Paulo Guedes (que faltou à Câmara na véspera) e com o chanceler Ernesto Araújo. 

NOVO MODELO

E hoje o Ministério deve apresentar, em reunião com secretários de saúde, uma proposta de reorganização da Estratégia Saúde da Família. Como já anunciado por Mandetta, deve haver a possibilidade de um terceiro turno de atendimentos até as 22h. O ministro também quer aumentar o número máximo de equipes por unidade (de três para seis) e colocar 20h semanais como  carga horária mínima dos médicos. 

TUDO PARADO

O Ministério da Economia propôs na semana passada fazer um contingenciamento de R$ 30 bilhões no Orçamento, o que vai deixar a máquina pública praticamente paralisada. E os ministérios da Saúde e da Educação serão os únicos poupados – mas só ficarão livres do bloqueio os porcentuais obrigatórios determinados pela Constituição, informa a Folha (e que, lembramos nós, só são garantidos porque não ainda não vivemos no mundo ideal de Guedes, que quer a desvinculação). O Ministério quer também um corte, proporcional ao do Orçamento, nas emendas parlamentares. De execução obrigatória, elas são uma forma de os parlamentares influenciarem diretamente no orçamento, e metade delas deve se destinar à saúde.

Enquanto isso, segue tramitando a PEC que limita o poder do governo sobre o Orçamento e claramente vai contra a proposta de desvinculação. Paulo Guedes disse que foi uma “demonstração de poder“.

A MAIOR OFENSIVA

Esta semana Donald Trump deu sua maior facada no Affordable Care Act, conhecido como Obamacare: o Departamento de Justiça do governo afirmou que a Lei de Acesso à Saúde –  que institui o sistema de planos criado pelo ex-presidente – é inconstitucional e deve ser integralmente anulada. Já havíamos comentado, ano passado, que a argumentação foi usada contra trechos da lei, mas agora é ela inteira. Isso um ano antes das eleições, e num momento em que cresce o clamor por saúde universal entre norte-americanos. Trump dizque o Obamacare é um desastre, muito caro, e que seu partido vai propor algo muito melhor. “Será um dia lembrado como o partido da saúde”, garantiu. 

PARA VOLTAR

A Defensoria Pública da União pediu que o misoprostol – medicamento considerado o mais seguro para o aborto – volte a ser vendido em farmácias. O argumento é que não há justificativa legal para a proibição, e ela viola o acesso de mulheres que têm o direito ao aborto legal.  Hoje, em São Paulo, vai haver uma audiência pública para discutir o tema e propor novas resoluções à Anvisa. 

E O CÓLERA CHEGOU

O que já era esperado aconteceu: Moçambique tem casos de cólera, e um provável surto. A doença pode matar em horas se não houver tratamento, e se propaga pela contaminação de água, ou da comida, por fezes. Quando os sistemas de saneamento entram em colapso, se espalha rápido.  

Não é só lá. Dois anos depois do maior surto mundial de cólera e diarreia, número de casos e mortes volta a subir no Iêmen. Só este ano, já foram quase 200 mortes. 

SEGUNDA MORTE?

Há 11 anos, Andreu Luiz Carvalho foi morto após uma sessão de uma hora de tortura  no Degase — um órgão da Justiça do RJ — onde cumpria medidas socioeducativas. O processo judicial sobre o caso se arrasta até hoje. A jornalista Luiza Sansão narra a longa saga da mãe do rapaz. Por conta da conjuntura política atual, ela tem um motivo a mais para se preocupar: “Depois que o ex-policial militar Elias Gonçalves da Costa, acusado de matar o menino João Roberto Amorim Soares, de 3 anos, em 2008, foi absolvido pelo Tribunal do Júri em 14 de fevereiro último, Deize ficou especialmente receosa em relação à possibilidade de um Júri absolver também os agentes acusados de torturarem Andreu até a morte”, escreve Luiza. 

ÁGUA DE BEBER

Um estudo feito por pesquisadores da Unicamp ao longo de 10 anos identificou substâncias perigosas em rios, esgotos e na água potável que chega às casas em Campinas.  Tem desde hormônios e inseticidas até cocaína. 

LADO B

O efeito placebo é bem conhecido. Mas você já ouviu falar do efeito nocebo? É tipo o irmão gêmeo malvado do primeiro, quando uma pessoa tem sintomas ruins depois de um remédio ou tratamento que na verdade é inerte. A longa e gostosa reportagem da Tonic explica.

MAIS UM PROBLEMA

Ar poluído pode causar ou agravar um monte de doenças, já sabíamos. Agora, um estudo que avaliou mais de dois mil jovens na Inglaterra e no País de Gales viu que, entre aqueles vivendo em locais com altos níveis de óxidos de nitrogênio, havia 70% mais chance de ter experiências psicóticas, como paranoias ou alucinações sonoras.  

TRABALHO QUE ADOECE E MATA

BBC entrevistou Jeffrey Pfeffer, professor da Escola de Pós-Graduação em Negócios da Universidade de Stanford, que lançou o livro “Morrendo por um salário”. Ele estima que o estresse esteja relacionado à morte de 120 mil trabalhadores norte-americanos, e defende que haja regulação. Mas joga parte do problema nas costas dos empregados: “Os trabalhadores precisam assumir a responsabilidade de cuidar de sua própria saúde. Se você não consegue equilibrar seu trabalho e sua vida pessoal, é melhor sair e procurar outro emprego”. 

PREOCUPANTE

Lembram do transatlântico em que houve um surto de sarampo, depois parou em Santos (SP) para uma vacinação em massa…? Uma menina de 4 anos foi diagnosticada com sarampo na cidade, apesar de ter sido vacinada. Como ela não teve contato direto com ninguém que estava no navio, o caso indica que, provavelmente, o vírus está circulando em Santos. Há outros casos suspeitos. 

DESDOBRAMENTO

Depois de determinar que o Roundup causou câncer em Edwin Hardeman, a Justiça determinou a penalidade: a Bayer (que comprou a Monsanto, que produzia o agrotóxico) vai ter que lhe pagar US$ 80 milhões

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