O poder sem precedentes da Pfizer

Os executivos da Pfizer já discutem planos para o preço da vacina contra a covid-19 no pós-pandemia – muito mais altos. Durante crise, farmacêutica se vê na posição de decidir quando e quantas doses vão receber os países que já fecharam contratos

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A capa da Bloomberg Businessweek da próxima semana traz a imagem de um homem sério que olha diretamente para a câmera, preenche todo o quadro e vem ladeado por uma inscrição: “O rei da vacina”. Trata-se do CEO da Pfizer, Albert Bourla. Na ilustração que abre a longa reportagem, uma gigantesca mão segura um frasco de vacina enquanto bonecos pequenininhos se amontoam e se atiram para o alto, tentando alcançá-la. Toda essa representação gráfica e a linha editorial do veículo – uma revista sobre negócios e o mercado financeiro – podem dar à reportagem uma aura propagandística.

Mas ali há informações bem interessantes para entender o poder que grandes farmacêuticas têm em definir os rumos da pandemia. “A política governamental é importante, assim como o comportamento dos indivíduos, mas até certo ponto os fabricantes de vacinas determinam onde as infecções diminuirão e quais economias serão reabertas primeiro. Seus clientes são líderes nacionais eleitos que criaram programas intrincados de vacinação com funcionários de saúde pública, mas esses líderes estão aprendendo que estão à mercê do que fabricantes como a Pfizer oferecem”, diz o texto.

A matéria traz todo o histórico do desenvolvimento da vacina da Pfizer, desde sua recusa em receber recursos da Warp Speed Operation, pela qual o governo dos EUA injetou bilhões de dólares em laboratórios. A Pfizer negou porque tinha verba para começar a pesquisa imediatamente e queria ser a primeira a ter um imunizante. O fato de ser a primeira ofereceu a Bourla “uma oportunidade de vendas como nenhuma outra” – os acordos começaram a sair em maio, logo após o início dos testes de segurança. Agora há mais de 60 contratos mundo afora, sempre com termos comerciais sigilosos. 

Em Israel, o plano da Pfizer era ter um verdadeiro laboratório gigante para conseguir rapidamente resultados da vacina no mundo real – que já começaram a aparecer – e impulsionar ainda mais as vendas. O primeiro-ministro do país, Benjamin Netanyahu, ofereceu à farmacêutica um preço por dose 50% maior do que daquele pago pelos EUA, e ainda acesso a informações sigilosas de todos os vacinados. Para ele, o acordo foi uma tábua de salvação política, depois do fracasso anterior no controle do vírus e com eleições em março. Apesar da distribuição contínua a Israel, a Pfizer não conseguiu entregar vacinas prometidas a um monte de outros países, e literalmente teve o poder de decidir quais deles receberiam as doses, e quando. Entre os critérios de seleção está, obviamente, o lucro. 

A perspectiva é que a vacina renda à Pfizer pelo menos US$ 15 bilhões ainda este ano, tornando-se um dos produtos farmacêuticos de maior venda no mundo. Mas a empresa quer muito mais em um futuro pós-pandêmico. Hoje o preço da dose varia de um país para o outro, ficando em torno de US$ 20. Aos repórteres, o diretor financeiro Frank D’Amelio sugeriu que se pode chegar a algo entre US$ 150 e US$ 175. “Estamos em um ambiente de preços pandêmicos. Obviamente vamos conseguir mais”. 

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