Bolsonaro se banqueteia com leitão no pior dia da pandemia para o país

Mortes chegam a 1.726 e ocupação de UTIs ultrapassa 80% em 19 estados, mas presidente, seu vice e seu ministro da Economia se empenham em criar realidade paralela

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E mais um dia com recorde de mortes, o Brasil teve ontem com 1.726 novos óbitos. É um número bem mais alto do que o maior registro anterior, na última quinta-feira, que foi de 1.582. A média móvel também bateu recorde, pelo quarto dia seguido, chegando a 1.254. Aliás, já são três dias seguidos com essa média acima de 1,2 mil – e 41 dias acima de mil. O Globo comparou as mortes registradas entre novembro e dezembro do ano passado com aquelas de janeiro e fevereiro: o aumento foi de 71%. A alta foi puxada fortemente pelo Amazonas, onde, com a crise do oxigênio, elas cresceram nada menos que 662%.

O caos agora é generalizado. O Observatório Covid-19 da Fiocruz publicou ontem um boletim extraordinário com uma nota técnica afirmando que, pela primeira vez, o país inteiro tem piora nos vários indicadores da covid-19: números de casos, de mortes, de incidência de SRAG (Síndrome Respiratória Aguda Grave), alta positividade nos testes, taxas de ocupação hospitalar…

Uma semana atrás, o boletim do dia 22 de fevereiro contabilizou 12 estados com mais de 80% de suas UTIs de covid-19 ocupadas. Agora, são 19. Vinte capitais têm essa taxa acima de 80%, enquanto outras cinco estão quase lá, com mais de 70%. Os pesquisadores sugerem, obviamente, que se faça a única coisa possível nesse momento: restringir a circulação de forma mais rigorosa.

Para o vice-presidente, general Hamilton Mourão, não dá para “impor algo nacional” porque o Brasil não é uma ditadura e porque a população cansou dos fechamentos. “Nosso povo não gosta de ficar trancado, gosta de estar na rua, isso é uma realidade”, comentou. Já Paulo Guedes teve a pachorra de dizer à Jovem Pan que o Brasil está na “cauda” da pandemia, e que se (se…!) vier a segunda onda, o país vacinará em massa sua população.

E Jair Bolsonaro? Convidou o deputado Fábio Ramalho (MDB-MG) para ir ao Palácio do Planalto ontem preparar um banquete com leitão, linguiça, feijão tropeiro e carne moída com quiabo. “Estava alegre, bem descontraído”, descreveu Ramalho à Folha.

O presidente chegou a chamar um pronunciamento em cadeia nacional de rádio e TV, que aconteceria ontem à noite, sem tema divulgado. Mas, minutos depois, decidiu cancelá-lo.

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