O paradoxo vacinal brasileiro – e como enfrentá-lo

Por que o Brasil, que está vencendo a covid graças às vacinas, recuou tanto na imunização das crianças? A hipótese do sanitarista Claudio Maierovich, ex-diretor da Anvisa, aponta para “a ausência absoluta de coordenação federal”

Tem razão Marcelo Gomes, coordenador do InfoGripe/Fiocruz, ao considerar “impressionante” o surto de infecções em crianças por vírus comuns. “Nos últimos dois meses”, explicou ele na sexta-feira (5/11), “começamos a observar vírus que não tinham dado as caras desde 2020”. A lista é composta pelo bocavírus, os patógenos das parainfluenza 3 e 4, o vírus sincicial respiratório (VSR, que infecta os pulmões e vias respiratórias de recém nascidos) e o rinovírus, causador de problemas respiratórios em crianças de 0 a 9 anos.

Paralelamente há uma queda significativa, de 20%, na vacinação de doenças infantis, como meningite, hepatite B e paralisia infantil. E a imprensa registra certa confusão no PNI – Programa Nacional de Imunizações, do ministério da Saúde – desde a saída de Francieli Fantinato da sua direção, em julho passado. Esses fatos lamentáveis, no entanto, contrastam com diversas novidades muito animadoras.

Como a recente desenvoltura do SUS, Sistema Único de Saúde, no combate à covid. O gráfico abaixo escancara: o recuo da doença coincide com o impressionante salto das vacinações no Brasil, a partir de julho.

O país começou a vacinar atrasado, devido à persistente sabotagem do governo Bolsonaro. A primeira vacina brasileira foi aplicada, em 17/1, na enfermeira Mônica Calazans, do hospital Emílio Ribas, em São Paulo. Mas a estrutura capilarizada do PNI permitiu recuperar rapidamente o terreno perdido. Em 30 de julho, já havia 48,4% de vacinados – ainda abaixo de Inglaterra (68,6%), Alemanha (61%) e EUA (57%). Mas os últimos dados do Our World in Data, relativos a 5/11, mostram uma virada. Com 76% da população protegida, o Brasil passou à frente da Inglaterra (74%), da Alemanha (69%) e dos EUA (66%). A evidência da imunização bem-sucedida, aliás, fez murchar o negacionismo. Segundo dados da Morning Consult, divulgados este mês, apenas 7% dos brasileiros continuam em dúvidas sobre se vacinar – contra 13% no Reino Unido, 17% na Alemanha e 27% nos Estados Unidos.

Por que um país tão bem sucedido na imunização contra a covid regride, diante de doenças contra as quais a população tradicionalmente vacina suas crianças? O médico sanitarista e ex-diretor da Anvisa Claudio Maierovich desenvolve uma linha de raciocínio clara para explicar o paradoxo.

“O SUS, entre muitos direitos e garantias que oferece aos cidadãos, é a grande rede de proteção em situações de epidemia e crise sanitária”, destacou ele a Outra Saúde. Porém, ressalvou Cláudio, repetindo a análise crítica que apresentou ao senadores, na CPI da covid, em junho: “as falhas foram colossais, com destaque para a ausência absoluta de coordenação federal”. Só após mais de um ano de piora, os números negativos começaram a cair.

O ex-diretor da Anvisa prossegue: “A vacinação, iniciada em ritmo lento por falta de vacinas, ganhou velocidade conforme chegaram quantidades maiores. O PNI, mesmo desguarnecido de sua direção, uma vez abastecido com imunizantes, tem feito chegar de maneira ágil e capilarizada, a vacinação à população brasileira”. E arremata: “Estivesse em sua plena forma, o SUS poderia ter evitado muitas mortes e muito sofrimento”.

Nessa reviravolta reconfortante, a cereja do bolo são as vacinas nacionais e sua evolução. No final de setembro a Fiocruz concluiu com sucesso os testes do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) nacional da vacina Covid-19. O Instituto Butantan, por sua vez, comemorou as avaliações da Butanvac, verificando que produzia alta resposta imune, duas vezes mais forte do que a de outras vacinas similares.

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