O futuro da covid, num mundo desigual

Ao abrir o Congresso Brasileiro de Epidemiologia, Mariângela Simão, da OMS, advertiu: não há fim da pandemia à vista; além de enfrentar o apartheid vacinal, é preciso fortalecer sistemas de saúde pública, reforçar testagens e medidas protetivas

Não era simples o que a diretora-geral assistente da Organização Mundial da Saúde (OMS), a pesquisadora Marisângela Simão, tinha a dizer em sua palestra para o 11º Congresso Brasileiro de Epidemiologia (EPI) da Abrasco. Na última segunda-feira, 22/11, ela trouxe a visão geral da OMS sobre os próximos desafios da pandemia de covid-19 – com ênfase nas desigualdades de assistência médica e nas conjecturas da Organização para os próximos tempos. “O mundo, na verdade, está entrando em uma quarta onda, mas as regiões tiveram comportamento diferente em relação à pandemia”, alertou. Prevê-se que, a curto prazo, onde houver relaxamento de medidas sociais e de saúde pública, haverá aumento de casos de covid. Sua fala está resumida numa apresentação disponibilizada pela Abrasco e pode ser assistida, em vídeo, no site da entidade. O que se segue são breves apontamentos.

Se é verdade que o Brasil e a América Latina como um todo veem sua taxa de vacinação aumentar e os casos e mortes diminuírem, lembrou Mariângela, nos Estados Unidos ainda morrem cerca de 1.300 pessoas por dia da doença – taxa que está estável pelo menos desde o começo de novembro. A Europa assiste a um novo descontrole, principalmente em países com imunização menos generalizada.

Sobre a transmissão da covid e as vacinas, a pesquisadora traz avisos importantes: 1. O vírus continua evoluindo em novas variantes. 2. Não há “imunidade de rebanho” contra sua alta transmissibilidade. 3. A vacinação parece proteger contra sintomas graves, hospitalizações e mortes, mas já perde eficácia contra infecções – por isso, provavelmente, será preciso adotar seguidas doses de reforço. 4. Entre os grandes riscos, continuam figurando a desinformação e as mensagens contraditórias – que também podem matar. “A OMS acredita na probabilidade da transmissão continuada desse vírus, por causa das variantes”, afirma.

O que é possível fazer, então? Marisângela avisa: não pode haver trégua. E há medidas a médio prazo, mas elas exigem mudanças drásticas do que tem sido feito hoje. Acabar com o apartheid vacinal, aumentando a capacidade de produção de vacinas, é uma estratégia muito importante. Mas não podemos abandonar ações como a testagem em massa, a distribuição de medicamentos e o fortalecimento de sistemas de saúde pública em todo o mundo. Ela relembra o chocante dado de que menos de 5% de pessoas em países de baixa renda receberam ao menos uma dose de vacina contra a covid. Mas também adverte que mesmo onde a vacinação é alta, há um risco crescente: a média do distanciamento físico cai bruscamente, permitindo novas contaminações – afinal, mesmo a imunização completa não encerra o contágio.

A OMS, segundo a pesquisadora, prevê algumas tendências futuras globais. Relembra, sempre, que apesar de não podermos contar exclusivamente com a vacinação, ela é muito eficaz em reduzir casos graves e mortes de covid. Mas a frequência e magnitude das próximas “ondas” da pandemia dependem de muitos fatores. A saber: o nível de imunidade das populações, seja oriunda da vacinação ou da infecção natural (que, é bom lembrar, é menos duradoura e eficaz); a severidade da doença e o acesso precoce a cuidados e medicamentos; as novas variantes que poderão surgir e sua gravidade e transmissibilidade; o uso de medidas sociais e de saúde pública – inclusive sua implementação em tempo adequado e a adesão da população a elas.

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