O araponga na Saúde

Agente da Abin comanda área responsável por comprar vacinas no Ministério desde agosto. Depois que fato veio à tona, surge suspeita de que quadros da agência estejam atuando pelo desmonte de políticas do SUS

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A notícia de que o general Eduardo Pazuello nomeou um quadro da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) para comandar a área responsável pelo complexo industrial da saúde, responsável por negociar a compra de vacinas, assusta, mas não surpreende. Os militares parecem não sentir nenhum constrangimento em avançar sobre tarefas que requerem conhecimentos técnicos robustos – e nisso não estão distantes dos políticos do centrão, mesmo que sua motivação seja não apenas a busca do DAS, mas a desconfiança em relação aos civis.

Myron Moraes Pires foi alçado a essa coordenação no dia 10 de agosto – e a “nomeação do agente da Abin, sem a devida formação técnica para um cargo estratégico do ministério, gerou um ‘clima de terror’ entre os funcionários da pasta”, segundo apurou o UOL.

Acontece que embaixo deste achado do site existe um iceberg. E, esse sim, não só dá muito medo como causa alguma surpresa. Haveriam outros quadros da agência na pasta, dedicados a arapongagem (previsível), mas também metidos no desmonte de políticas públicas. “Os agentes da Abin atuam no ministério [da Saúde] em assuntos de interesse direto do presidente Jair Bolsonaro, a exemplo da vacina contra covid-19, projetos de privatização de unidades de atenção básica e de saúde mental, além do monitoramento de entidades da sociedade civil que integram o Conselho Nacional de Saúde, informa uma dessas fontes com acesso direto a diversos servidores da pasta”, conta o repórter Igor Mello, que também ouviu interlocutores de pessoas próximas ao gabinete de Pazuello. A Secretaria de Comunicação da Presidência nega que existam outros agentes da Abin no ministério e afirma que Myron Moraes Pires não lida com a compra de vacinas. Faz o que, então?

Na semana passada, a Agência Pública descobriu que quadros da Abin estão espalhados por outros órgãos: Secretaria de Governo, Casa Civil, Controladoria Geral da União, Economia, Infraestrutura e Cidadania. O repórter Vasconcelo Quadros batizou a manobra de “revoada de arapongas”: “Fontes ouvidas pela Pública estimaram que há mais de uma centena de agentes espalhados em diversos ministérios, boa parte remanescentes de governos anteriores. Uma autoridade que participou da reunião, ouvida por Pública com o compromisso de não ter o nome citado, contou que há cerca de um mês, em visita ao Conselho Superior do Ministério Público Federal, o diretor da Abin, Alexandre Ramagem, afirmou a interlocutores, que esse número deve aumentar: ele teria dito que a intenção seria reforçar a estrutura de inteligência em todos os órgãos, criando nos ministérios e empresas e autarquias estatais relevantes, assessorias semelhantes ao que foi a Comissão Geral de Investigação (CGI), uma megaestrutura de inteligência que alimentavam o extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), usada para espionar adversários do regime militar. Procurado por telefone, Ramagem não retornou a ligação”.

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