No roteiro da CPI, Pazuello depõe já na semana que vem

Mandetta, Teich e Queiroga também estão escalados pelo G7, o grupo que tem maioria na comissão

Esta nota faz parte da nossa newsletter do dia 29 de abril. Leia a edição inteira. Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

Ontem à noite, o G7 montou o roteiro inicial de depoimentos da CPI da Pandemia. E já na semana que vem a comissão deve ouvir o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello. O grupo, composto por sete senadores da oposição ao governo ou “independentes”, reservou um dia inteiro para inquirir o general da ativa. Formalmente, a definição sobre quem será ouvido e quando aconteceria na reunião do colegiado marcada para hoje, às 9h. Mas por ser maioria, o G7 não terá problemas em ditar os rumos e o ritmo da comissão.   

O script acertado é o seguinte: na próxima terça-feira, a CPI deve ouvir os ex-ministros Luiz Henrique Mandetta, pela manhã, e Nelson Teich no período da tarde. Pazuello fala na quarta-feira. No dia seguinte, será a vez do atual ministro Marcelo Queiroga e do diretor-geral da Anvisa, Antonio Barra Torres. Na outra semana, está prevista a oitiva do ex-secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, e de representantes da Pfizer.

Na reunião de ontem, o G7 desistiu da ideia de criar subrelatorias na CPI. Avaliaram que múltiplos focos poderiam se tornar uma vantagem para os senadores governistas, que tentam desviar a atenção das falhas do Executivo federal. De acordo com Míriam Leitão, um “pacto de fogo” foi firmado no grupo para colocar os holofotes sobre as ações e omissões da gestão Jair Bolsonaro. Para isso, o G7 “vai trabalhar para a produção de provas, usando os depoimentos, mas principalmente a busca de documentos”, informa a colunista.

A estratégia da base aliada parece ser a contrária: os governistas querem convocar vários governadores, em especial adversários do governo federal, para colocar sobre eles a culpa pela má-gestão da crise sanitária. O vice-líder do governo no Congresso, senador Marcos Rogério (DEM-RO), preparou solicitações para convocar os governadores de São Paulo, João Doria (PSDB); da Bahia, Rui Costa (PT); do Amazonas, Wilson Lima (PSC); e do Pará, Hélder Barbalho (MDB) – e é bom lembrar que Jader Barbalho é suplente na CPI. 

No total, já havia 260 requerimentos de informação, documentos e pedidos de depoimentos apresentados até ontem. E vejam só: alguns deles foram redigidos pelo próprio governo federal. 

Reportagem do Estadão mostra que nos arquivos digitais dos requerimentos apresentados pelos senadores governistas Ciro Nogueira (Progressistas-PI) e Jorginho Mello (PL-SC) é possível encontrar o nome da assessora da Secretaria de Assuntos Parlamentares da Presidência da República, Thaís Amaral Moura. 

Entre os requerimentos de Ciro com origem no Palácio do Planalto estão a convocação da médica “cloroquiner” Nise Yamaguchi, e do prefeito de Chapecó (SC), João Rodrigues (PSD) – alinhado a Bolsonaro. As digitais da assessora também estão no pedido de Jorginho Mello para convocar Gilberto Valente Martins, procurador-geral de Justiça no Pará, a falar sobre as suspeitas de desvios de recursos federais repassados ao estado para o combate ao coronavírus. 

Outra investida contra Renan

E os senadores alinhados com Bolsonaro resolveram acionar o Supremo para tentar impedir que Renan Calheiros (MDB-AL) siga na relatoria da CPI. Jorginho Mello (PL-SC), Marcos Rogério (DEM-RO) e Eduardo Girão (Podemos-CE) entraram com um mandado de segurança ontem. A relatoria do pedido caiu no colo do ministro Ricardo Lewandowski.

A peça vai na mesma linha da ação de Carla Zambelli (PSL-SP): Renan estaria impedido de exercer a função por ser pai do governador de Alagoas, Renan Filho (MDB), que eventualmente pode ser um dos investigados pela CPI. Mas, ao contrário da deputada bolsonarista, os senadores usam o regimento do Senado, encontrando trechos que se referem a outras situações para extrapolar a interpretação para o caso do emedebista.

Jorginho Mello foi às redes sociais e classificou a indicação de Renan como um “deboche”. “Não vamos admitir relatório pronto e tendencioso com único objetivo de atingir o governo Bolsonaro”. Já Renan teria dito a aliados que não se preocupa com o pedido feito ao STF.

Alguns desses aliados querem que o emedebista se comporte de maneira mais moderada na CPI. “Além de provocar reação do Planalto e haver risco de tirar credibilidade da comissão, aliados do senador também consideram que falas mais fortes e contra diversos adversários podem resultar no rompimento de uma aliança que contribuiu para tirar do governo o comando e a relatoria da CPI”, diz a Folha. Segundo o jornal, o relator da comissão afirmou que irá calibrar as falas. “Apesar disso, alguns aliados dizem acreditar que Renan seguirá na toada ácida”.

E a despeito da ação movida pelos senadores governistas, o Planalto estaria tentando “arrefecer os ânimos de Renan”, a partir da mediação do senador Ciro Nogueira

“Carnaval”

O senador Otto Alencar (PSD-BA), que faz parte do G7, deve usar o episódio da confissão de Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil) sobre tomar vacina escondido e tentar convencer o presidente a se imunizar para fazer um “apelo” a Bolsonaro. Na CPI, pedirá que o chefe do Executivo tome a vacina como forma de “dar o exemplo”.

Mas exemplo, para Jair Bolsonaro, é um conceito que está de cabeça para baixo: “Sou chefe de Estado, tenho que dar o exemplo, meu exemplo é esse, deixar, já que não tem para todo mundo, o mundo todo não tem vacina ainda, que tome na minha frente”, disse em conversa com apoiadores ontem, ocasião em que aproveitou para comparar a CPI a um “Carnaval fora de época”. 

Em tempo: Segundo o Valor, Bolsonaro pediu ontem a Ramos e a outros auxiliares que parem de tentar convencê-lo a se vacinar.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: