Muito além do R

Como explicar que lugares com mesmo governo, densidade e idade da população semelhantes sofram desproporcionalmente com a covid-19? Abordagem focada na superdispersão pode evitar desastres

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Uma longa e interessante matéria no site The Atlantic tenta explicar por que alguns lugares sofrem muito mais com a pandemia do que outros. Tudo bem, sabemos que há diferenças óbvias, como densidade populacional, idade da população e, claro, o compromisso dos governos. Mas dentro de um mesmo país, há regiões com as mesmíssimas características que não são afetadas da mesma maneira. O texto de Zeynep Tüfekçi desloca nossa atenção do R (a já conhecida taxa de contágio) para o K, que mede a dispersão do vírus

É que a covid-19 não se transmite como a gripe, de forma previsível. Estudos múltiplos têm sugerido que apenas 10 a 20% dos infectados são responsávies por 80 a 90% da transmissão, enquanto a maior parte das pessoas simplesmente não passa o vírus adiante. A existência dos superespalhadores e da superdispersão leva à conclusão de que um fator difícil de aceitar – o azar – pode ser a única explicação possível para o começo de grandes surtos. A forma como as autoridades conduzem o controle desses surtos, porém, faz diferença ao impedir (ou não) que eles se espalhem de forma generalizada. O argumento de Tüfekçi  é uma condução exemplar não precisa ser, necessariamente, a que identifica cada caso. 

O texto fala muito do Japão, que se concentrou no impacto da superdispersão desde o início, seguindo um modelo de combate que, em princípio, só rendeu críticas. Um dos pontos-chave, por lá, parece ter sido o rastreamento de contatos retroativo, do qual já falamos aqui. O foco não é descobrir com quem um infectado teve contato depois de estar doente, mas sim em identificar quem transmitiu o vírus para aquela pessoa. Assim, é possível chegar a superespalhadores, desenvendar qual foi o evento do superespalhamento e, aí sim, contactar todas as pessoas que estiveram ali também. “Por causa da superdispersão, a maioria das pessoas terá sido infectada por alguém que também infectou outras pessoas, porque apenas uma pequena porcentagem das pessoas infecta muitos de uma vez, enquanto a maioria infecta zero ou talvez uma pessoa”, sublinha o texto.

As pesquisas indicam que as características comuns a esses eventos são: pouca ventilação, muita gente reunida (frequentemente, falando alto ou cantando), ausência de máscaras e uma pessoa altamente infecciosa: “O fundamental nem sempre são as restrições, mas se elas visam os perigos certos. Como disse Morris [Dylan Morris, pesquisador da Universidade de Princeton], o compromisso do Japão com a eliminação de aglomerados permitiu-lhe alcançar uma mitigação impressionante com restrições escolhidas criteriosamente. Os países que ignoraram a superpropagação correram o risco de obter o pior dos dois mundos: restrições pesadas que não conseguem alcançar uma mitigação substancial. A recente decisão do Reino Unido de limitar as reuniões ao ar livre a seis pessoas, permitindo que os pubs e bares permaneçam abertos, é apenas um de muitos exemplos”, escreve Tüfekçi.

A questão é que, depois que a transmissão desanda, há tantos infectados que as chances de haver um superespalhador em cada canto são muito grandes. A covid-19 começa então a entrar em “modo gripe”, e aí não tem muito o que fazer a não ser aumentar as restrições e reduzir os casos. Para os locais que já conseguiram diminuí-los, porém, pensar em novas abordagens após as reaberturas parece muito importante. 

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