O “libera geral” dos agrotóxicos se intensifica

Sem aumentar capacidade de análise, Ministério da Agricultura determina liberação automática de venenos caso avaliação tarde até 60 dias. Leia também: Coreia do Sul ampliará quarentena do coronavírus com prisão e multa para infratores

Por Raquel Torres

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LIBERA GERAL

Se já estamos assustados com o ritmo alucinante da liberação de novos agrotóxicos durante o governo Bolsonaro, parece que podemos esperar mais: uma portaria publicada ontem pelo Ministério da Agricultura determinou a “aprovação tácita” ṕela Secretaria de Defesa Agropecuária se a avaliação dos agrotóxicos não for feita em um prazo de 60 dias.

“Está dentro desse padrão em que há uma clara sinalização da ascendência do Ministério da Agricultura sobre a Saúde e o Meio Ambiente. São vários movimentos para acelerar essa liberação”, disse à Reuters engenheiro agrônomo Leonardo Melgarejo, integrante da Associação Brasileira de Agroecologia para a Região Sul, prosseguindo: “Um ministério que não ampliou sua capacidade de análise, o número de analistas, os laboratórios, como poderia reduzir o prazo das análises? Que análises seriam essas que podem admitir dispensa?”.

A portaria, porém, se refere apenas aos atos de responsabilidade da Secretaria de Defesa Agropecuária, e agrotóxicos precisam ser analisados ainda pela Anvisa e pelo Ibama. Em nota à Reuters, o Ministério do Meio Ambiente disse que “não há risco de nenhum produto ser registrado sem a análise técnica dos três órgãos”. Então tá.

Em tempo: nos EUA, chegou a 48,6 mil o número de ações judiciais contra a Monsanto pelo uso do herbicida glifosato. Até o momento, a Bayer (que comprou a Monsanto) foi condenada em três processos na Califórnia.

CORONAVÍRUS NO BRASIL

O número de casos suspeitos de coronavírus no Brasil, que se mantinha muito baixo, subiu de repente para 132 em 15 estados e no Distrito Federal. Segundo o Ministério da Saúde, o número deve continuar crescendo e a estimativa é que já estejamos perto dos 300, pois há mais 213 notificações em análise. É que, como explicamos ontem, os critérios para a definição de casos suspeitos se alargaram, com a inclusão de mais países na lista de alerta. Até o dia 21, só a China estava na relação; depois foram acrescentados sete países e, nesta segunda-feira, mais oito. Já são 15 no total, e toda pessoa com febre e mais um sintoma gripal que tenha viajado para qualquer um deles entra na conta. Além disso, a confirmação do primeiro caso pode ter impulsionado a busca pelos serviços de saúde, conforme a Pasta.

Um homem com suspeita de ter coronavírus deixou o Hospital São Paulo (ligado à Unifesp) antes de ter passado por todos os exames — um primeiro teste havia sido feito, com resultado negativo, mas faltavam outros. Não está claro o que aconteceu, já que quando uma pessoa sai à revelia da equipe é preciso assinar um termo de responsabilidade, e ele não o fez. A Secretaria Estadual de Saúde diz que está analisando o caso e ainda não tem resposta sobre o que será feito.

O Ministério da Saúde está preocupado com o fornecimento de equipamentos de proteção, como máscaras e aventais, para profissionais da rede pública de saúde. Segundo o secretário-executivo João Gabbardo dos Reis, o problema é que algumas empresas estão “desinteressadas” em vender para o governo brasileiro: “O que a gente sabe é que os produtores de máscaras, que é o item que mais nos preocupa, venderam — e exportaram — os produtos que eles tinham para outros países, provavelmente a China, e muitos deles venderam não só os produtos mas venderam a sua produção, ou seja, aquilo que eles podem produzir nos próximos 30 ou 60 dias”. Para garantir a compra, a Pasta estuda até mesmo entrar na Justiça para apreender os produtos nas fábricas, impedindo a exportação.

À Folha, o ministro Luiz Henrique Mandetta disse que acontecer no Brasil um surto da mesma proporção que na China, será “perfeitamente administrável“. “Agora, como o inimigo é novo, se tem surto, uma espiral epidêmica, e tem 100 mil, 200 mil, 500 mil casos, 1 milhão, aí você tem uma epidemia franca. No nosso país, meu maior receio é o Rio Grande do Sul, porque quando teve o H1N1 foi o lugar com maior número de casos e mortes. Mas será que esse coronavírus vai repetir a performance do H1N1 no Brasil? Ou será que ele gosta mais de aglomeração? Se gostar mais de aglomeração do que de frio, o Rio de Janeiro passa a ser a minha maior preocupação, porque é uma cidade muito adensada”.

E, por conta do coronavírus, a campanha de vacinação contra a gripe vai ser adiantada: prevista para começara em meados de abril, vai ter início já em 23 de março. Não que a vacina proteja contra o CoV-2, mas a antecipação busca evitar a sobrecarga do sistema de saúde por outras doenças respiratórias.

O QUE FAZER?

Pelo segundo dia seguido, o número de casos registrados fora da China superou o desse país. Até o fechamento desta news, havia no total 4.053 casos e 54 mortes em outros países e regiões. O pior é a Coreia do Sul, com 1,7 mil. “Minha mensagem para cada um desses países é: esta é sua janela de oportunidade. Se vocês agirem de forma agressiva agora, poderão conter esse vírus. Vocês podem impedir que as pessoas fiquem doentes. Vocês podem salvar vidas. Portanto, meu conselho nesses países é avançar rapidamente”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, em coletiva de imprensa.

E Jeremy Farrar, o diretor do Wellcome Trust (um dos maiores financiadores de pesquisa em saúde pública do mundo), pediu ao Banco Mundial que abrisse US$ 10 bilhões em fundos para investimento em diagnóstico e tratamentos a países de baixa renda. Ele também pediu ao FMI e aos bancos de desenvolvimento regionais que acelerem processos de financiamento, afirmando que o problema não é só de saúde, mas também econômico, com potencial para se igualar à crise financeira global de 2008. Aliás, o mercado de ações está vivendo sua pior semana desde 2008.

Bom, ainda não se sabe o cenário que o Brasil vai enfrentar: se teremos casos pontuais, como em quase todos os países onde o coronavírus foi detectado, ou se ele vai se disseminar rapidamente em uma área mais ampliada, como aconteceu na China, na Coreia do Sul, no Irã e na Itália. A BBC explica as diferenças de atuação frente a essas duas possibilidades. Na primeira, o importante é identificar quem está doente e garantir o isolamento. O passo seguinte é identificar e monitorar quem teve contato com o paciente. Já no segundo cenário, passam a ser mais adequadas medidas como o cancelamento de aulas, de eventos com aglomerações e a adoção de quarentenas. “No fim, a nossa principal preocupação nesse tipo de surto é sobre o impacto em sistemas de saúde como o do Brasil, que já precisam lidar com epidemias e endemias, como a dengue e o sarampo. Essa é mais uma doença que chega”, explica Fernando Spilki, da Sociedade Brasileira de Virologia.

ONDE ISOLAR

O isolamento domiciliar do homem que teve seu caso confirmado gerou críticas ao Ministério da Saúde. Mas, ontem, o ministro Mandetta afirmou que não requerem cuidado hospitalar não devem ser internadas. De acordo com ele, as medidas tomadas pela China no início do surto (chegaram a ser construídos dois novos hospitais) foram equivocadas. “Aquilo foi demonstração de uma medida equivocada que levou a um colapso do sistema hospitalar, porque você não coloca pessoa com síndromes respiratórias leves dentro de hospital. Fico imaginando as outras pessoas com as outras doenças que necessitam do leito hospitalar”.

Lembramos que, no início do surto em Wuhan, a maior parte dos contágios se deu dentro do ambiente hospitalar, e também que milhares de profissionais de saúde foram infectados. Além disso, dias depois da construção relâmpago das novas unidades hospitalares na cidade, elas estão de pé, mas sem muitos pacientes.

MAIS UM PROBLEMA

Uma pessoa foi infectada pela segunda vez pelo CoV-2. No Japão, uma mulher que havia sido liberada do hospital após ser tratada com sucesso (e testada no dia 6 de fevereiro, com resultado negativo) voltou a ser diagnosticada. É o primeiro caso conhecido de reincidência.

NOVO CENTRO

A região da Lombardia, na Itália, se tornou o novo foco das preocupações em relação ao coronavírus, e a BBC tenta explicar como isso aconteceu tão de repente. A verdade é que ainda não se sabe bem, e nem mesmo é possível afirmar até agora se a explosão teve início com alguém que veio da China ou de outro país. O governo abriu uma investigação em torno disso e o primeiro-ministro italiano, Giuseppe Conte, acusa um hospital de falhas de procedimento para diagnosticar e isolar um paciente que foi internado em estado grave —  que pode ter dado início ao surto por lá. Como não havia ligações claras entre ele e a China, levou três dias até que ele fosse isolado.

Ainda no fim de semana foram anunciadas “medidas extraordinárias”: nas regiões da Lombardia e Veneto, 11 pequenas cidades estão isoladas sob um plano de quarentena e 50 mil residentes não poderão sair das cidades sem uma permissão especial. Além disso, escolas, universidades e cinemas foram fechados, e eventos públicos foram cancelados. “Há muitos policiais na rua. Se você sair, eles mandam você voltar. Só deixam você seguir se for ao mercado porque a comida acabou em casa ou à farmácia se estiver doente”, conta à BBC a brasileira Rosemere Filliponi, moradora da cidade de Stradella, ao lado da área mais atingida. Ela e a filha só tem comida para mais duas semanas.

Também longe daqui, a Coreia do Sul decidiu dar uma punição extrema para pacientes infectados que quebrem a quarentena: simplesmente um ano de prisão ou uma multa de US$ 8,2 mil. As autoridades de saúde pedem que os indivíduos que chegaram a dois metros de distância de um paciente sintomático fiquem em casa por duas semanas, recebendo ajuda financeira do governo. O país já tem 1.261 casos confirmados e 12 mortes. A Arábia Saudita suspendeu a entrada no país de peregrinos estrangeiros para Meca e interrompeu a emissão de vistos de turismo para países onde há infecções. E o Irã, que já tem mais de 200 casos e 26 mortes, proibiu a entrada de chineses no país.

CASOS OCULTOS

Um estudo coordenado pela epidemiologista Sangeeta Bhatia, da equipe de combate à epidemia no Reino Unido, afirma que até dois terços dos casos de infecção pelo SARS-Cov-2 fora da China ainda não foram detectados. A pesquisa usou dados do tráfego de pessoas entre Wuhan e os principais destinos internacionais e métodos estatísticos para calcular a probabilidade de transmissão da doença. A prioridade agora é mapear a transmissão por pacientes assintomáticos.

YARAVÍRUS

Na piauí, conhecemos a história por tŕas da descoberta do yaravírus na Lagoa da Pampulha, em Belo Horizonte, por pesquisadores da UFMG. O vírus, cujos genes são quase todos inéditos para a ciência e compostos de sequências nunca antes descritas, infecta apenas amebas e não é perigoso para seres humanos. Para o professor de virologia da USP Eurico de Arruda Neto, a descoberta “mostra o tamanho da nossa ignorância sobre a magnífica biosfera que estamos rapidamente tratando de destruir”: “O yaravírus nos deixa perplexos pela vastidão do que ainda desconhecemos sobre a biodiversidade (…) A riqueza de mecanismos e processos biológicos escondida nesse misterioso genoma, que não sabemos ainda decifrar por falta de elementos de comparação, é um grande estímulo científico para mergulharmos na vastidão do passado evolutivo para tentar mapeá-lo”, diz, na reportagem.

Mas parece que a equipe que fez a descoberta não vai poder dar os próximos passos: falta dinheiro. Já faltava, desde o início. Quem fez a coleta, o processamento das amostras e o isolamento do vírus, por exemplo, foi a aluna de graduação Talita Machado, que nem bolsa tinha. Com a redução praticamente pela metade do orçamento do Ministério da Ciência, as perspectivas são as mais desanimadoras.

MAU MODELO

A reforma trabalhista brasileira foi francamente inspirada pelo atual modelo britânico. Que, à primeira vista, não parece estar mal: os dados oficiais mostram que, por lá, no último trimestre de 2019 o emprego havia aumentado 1%, o desemprego havia 5,4% em relação ao mesmo período de 2018 e os ganhos semanais médios execiam os picos anteriores à crise de 2008.

Porém… no site The Conversation, Brian Finlay, da Universidade de Strathclyde, explica que os trabalhadores estão enfrentando níveis recorde de insegurança no trabalho, e a estimativa é de que até o fim deste ano cerca de um milhão de pessoas trabalhem no esquema “zero-hour contract”. Nessa modalidade, o empregador não precisa oferecer horários fixos ao empregado e o trabalho pode ser cortado a qualquer momento, levando à insegurança financeira. É quando o trabalhador precisa ficar disponível o tempo inteiro, mas nem sempre terá trabalho.  Em relação aos salários, os dados mostram que o ganho médio de fato está maior do que antes da crise… Apenas uma libra maior, 12 anos depois. Mas, usando outras metodologias para corrigir a inflação, chega-se até mesmo a variações negativas nos salários. Os dados sobre a diminuição do desemprego também não são necessariamente bons, porque, no Reino Unido, a pessoa só precisa trabalhar uma hora por semana para ser considerada empregada.

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