Mandetta ataca hospitais públicos

Ministro quer privilegiar os “filantrópicos” — que financiaram sua carreira e atendem a elite. Leia também: as doenças silenciadas; Damares e a Bíblia; as manifesestações contra a Vale

Presidente do Conselho Nacional de Saúde, Fernando Pigatto, entrega documento ‘Em defesa do SUS’ para o ministro

MANDETTA  INCLINADO PARA FILANTRÓPICOS

Mandetta afinal foi mesmo à primeira reunião do Conselho Nacional de Saúde deste ano, ontem. O site do Ministério da Saúde noticiou o encontro com ênfase na promessa dele de fazer uma gestão democrática. “Aquilo que for para ser alterado vai ser proposto na mesa do espaço público, em debate conjunto”, disse. No SUSConecta, foco na garantia de que haverá a 16ª Conferência Nacional de Saúde em agosto. “É o início de um diálogo produtivo e de uma caminhada de luta junto à nova composição do CNS”, disse o atual presidente do Conselho, Fernando Pigatto.

Coube à jornalista Natália Cancian, na Folha, apontar declarações importantes e mais polêmicas. Mandetta afirmou que o governo vai rever os modelos de contratos para repasse de recursos a hospitais públicos. Hoje, parte deles recebe valores fixos para custeio de serviços de média complexidade, mas o ministro acredita que isso os leva a fazerem menos do que o esperado. Ela conta que alguém perguntou se isso significaria ter o modelo de pagamento por serviços – criticado por muitas vezes gerar procedimentos desnecessários –, mas ele não respondeu.

E o ministro ainda sinalizou que vai rever a distribuição de recursos entre hospitais públicos e filantrópicos, com clara inclinação para privilegiar estes últimos: “Os hospitais públicos estão tendo gasto muito maior que os filantrópicos, e estão entregando muito menos. Nosso critério sempre foi primeiro o público, depois filantrópico e por último o privado. Mas quanto tempo vamos pagar a falta de eficiência do hospital público?”

Vale lembrar: os filantrópicos ajudaram a colocar Mandetta no Ministério. Em novembro, Bolsonaro disse que acolheu a indicação “da bancada da saúde da Câmara, das Santas Casas do Brasil, das mais variadas entidades médicas de todo o Brasil”.

De filantrópicos, eles não têm muita coisa, como lembrou a sanitarista Ligia Bahia em sua última coluna no Globo: “O SUS precário contrasta com poucos hospitais filantrópico-privados, cujos preços são muito superiores aos privados, direcionados quase que exclusivamente aos ricos, funcionários qualificados do Legislativo e Judiciário, famosos e até alguns mal afamados. São estabelecimentos movidos por renúncia fiscal e acelerada incorporação tecnológica que jogam as despesas assistenciais para cima. Esse excêntrico arranjo filantrópico superavitário recebe relativamente poucas doações, mas faz caridade com dinheiro público: ensina gestão para o SUS dos pobres”.

PÓS-CIRÚRGICO

Bolsonaro está “ansioso e vibrante para voltar ao combate“, segundo seu porta-voz.

E Mourão, que em um mês já assumiu a presidência duas vezes, deu uma longa entrevista ao El País. Disse que a ditadura de 64-85 não foi ditadura, pois mudava o presidente. Foi um “período autoritário” que “teve seus erros, como tudo na vida” e que “a história, no futuro, vai estudar de uma maneira melhor”. Falou ainda sobre políticas para as chamadas minorias. Quer dizer, falou sobre a não-necessidade delas. De acordo com ele, é preciso ter políticas específicas para tirar as pessoas da pobreza e lhes dar saúde, educação etc, independentemente das outras características.

DAMARES, DE NOVO

A polêmica ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos voltou ao centro das atenções esta semana. Segundo a revista Época, indígenas da aldeia Kamayurá, no Xingu, a acusaram de 14 anos atrás ter levador Kajutiti Lulu Kamayurá, então com seis anos, irregularmente da tribo. Lulu é apresentada como filha adotiva da ministra, mas nunca houve adoção formalizada de fato. Damares diz que Lulu sempre visitou os parentes, mas os índios dizem que a primeira visita foi só há dois anos.

E ontem a Folha trouxe mais uma. É que Damares já disse em um inflamado discurso que não é apenas uma pastora, mas “uma advogada”, “mestre em educação” e “em direito constitucional e da família”. O jornal passou três semanas questionando a ministra sobre os títulos até que… Bom, a assessoria respondeu que ela de fato não os tem. Mas ela ‘explicou’: seu diploma é bíblico. “Nas igrejas cristãs é chamado mestre todo aquele que é dedicado ao ensino bíblico’, disse.

DEPOIS DA LAMA

A Vale começou o cadastro para fazer a doação de 100 mil reais às famílias de cada vítima. Houve cerca de 40 cadastros no primeiro dia, mas a maior parte das pessoas vai ao QG da Vale em busca de informações – sem sucesso. Há voluntários prestando apoio psicológico e social. A Vale anunciou a ida de uma equipe de psicologia do hospital Albert Einstein, mas ela ainda não chegou. E, segundo o El País, não há nem previsão de quando chega.

Mandetta afirmou, em entrevista ao Estadão, que as pessoas que tiveram contato com a lama em Brumadinho vão fazer exames periodicamente (“não sabemos se por um ano ou mais”) para ver se foram contaminadas por metais pesados. Estão no grupo os bombeiros e voluntários.

E tem havido manifestações, como mostra o Brasil de Fato. Moradores de Barra Longa (MG) afetados pela rompimento da barragem de Fundão, em 2015, fecharam um escritório da fundação Renova em protesto –  eles seguem sem reassentamento e renda, e com acesso à saúde prejudicado. A sede da Vale em Governador Valadares foi ocupada. A estrada de escoamento da mineradora Ferrous, em Serra Azul (MG), a 3 km de Brumadinho, foi bloqueada, e manifestantes paralisaram os trens e caminhões da mineradora. Em BH, houve um ato em frente ao Memorial da Vale. A Companhia Siderúrgica Nacional informou que vai desativar a barragem que assusta moradores de Congonhas (falamos disso ontem) e a Justiça paralisou as atividades da Mineradora Ibirité, em Brumadinho

SILENCIADAS

BBC traz uma matéria sobre as chamadas doenças negligenciadas: aquelas que afetam um bilhão de pessoas ao redor do mundo, mas a indústria farmacêutica não tem interesse em pesquisar, pois não dão retorno lucrativo. Em comum, o fato de que atingem quase sempre pessoas de baixa renda ou miseráveis, em lugares pobres. E o Brasil puxa os números para cima: em 2017, foi responsável por 70% das mortes no mundo por doença de Chagas, por 93% dos novos casos de hanseníase e 96% dos casos de leishmaniose visceral no continente.

O investimento do poder público na pesquisa dessas doenças é essencial, já que a indústria não se importa. Mas segundo um relatório recente da G-Finder (projeto organizado pelo centro de estudos Policy Cures Research e patrocinado pela fundação Bill & Melinda Gates), o governo brasileiro o governo fez um corte de 42% em verbas para esse tipo de pesquisa entre 2016 e 2017.  No resto do mundo, esse investimento cresceu. A matéria diz que mesmo com pesquisa ainda é difícil projetar um cenário satisfatório de produção de novos medicamentos, porque há poucas instituições públicas voltadas para a fabricação.

NOVA AMEAÇA

Morrer de difteria parece algo distante para a realidade dos brasileiros, mas pode voltar a acontecer. Uma das razões é a queda da cobertura vacinal. Outra é a existência de surtos em países próximos, como Venezuela, Haiti e Colômbia. E outra é que há pouca disponibilidade do soro no país. A reportagem de Lígia Formenti, no Estadão, conta que hoje só há 12 tratamentos  nos estoques do Ministério da Saúde. Se o número de casos continuar como tem estado (em 2015 foram 16; em 2016, foram 4 e, em 2017, apenas 5), dá tranquilo. O problema é essa conjunção de fatores que aumentam o risco. O Ministério pediu à Opas mais 200 tratamentos.

Evidentemente, o melhor é reforçar a prevenção. O pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz, Cláudio Maierovitch, comenta que os estados da região Norte têm passado por redução na assistência, pelas mudanças no Mais Médicos. “O tratamento da difteria dá trabalho, a vigilância, o bloqueio. As áreas onde há falta de profissionais são mais vulneráveis, mas, pelo fato de estarem mais distantes, podem estar menos expostas à bactéria. Mas se der azar de chegar justamente por esses pontos, aí teremos um problemão”, pontuou.

REVOLTA DO MOSQUITO

Em Guarapes, interior de SP, quem impede a entrada de agentes de combate ao mosquito da dengue estão sendo denunciados à Polícia Civil pelo crime de contribuir com a propagação de doença contagiosa. Além de multa, pode ter pena de até um ano de detenção. Por lá o número de recursas tem sido alto, e a cidade é uma das 19 onde está circulando o sorotipo 2 do vírus, responsável pela forma mais grave da doença. Mas muitos moradores argumentam que têm crianças e idosos em casa, e a nebulização feita pelos agentes pode ser prejudicial para plantas e animais. O pior é que dependendo da aplicação pode mesmo, já que é um veneno. Como já dissemos outras vezes, o uso de venenos tem ação temporária e pontual, e não é o melhor método para controlar o mosquito quando pensamos em políticas públicas.

TORTILLA EM CRISE, E SAÚDE TAMBÉM

As tortillerias mexicanas estão em crise – nos últimos 35 anos, o consumo caiu 45%. O motivo? As pessoas estão comendo mais pão e fast food. E no mesmo período algo subiu muito:  a taxa de obesidade, que foi de 7% em 1980 para 20,3%, em 2016.

Mesmo as tortillas não são as mesmas, porque cerca de metade delas é feita com fubá industrializado e num processo totalmente distante do tradicional. Neste último o milho passa pela nixtamalização, quando é posto de molho durante horas em uma solução alcalina, o que torna a tortilha uma ótima fonte de vitaminas, minerais e proteínas. O fubá industrializado também pode ser nixtamalizado, mas o processamento do grão destrói boa parte dos nutrientes.

Só que o processo tradicional é mais lento, artesanal, e… mais caro também. O custo para os consumidores é cinco vezes maior do que o das ‘falsas tortillas’. Essa comida essencial na cultura mexicana se tornou um artigo de luxo. A matéria do New York Times republicada pelo Estadão conta que, em maio,  mais de 75 organizações e empresas decidiram criar a Alianza por Nuestra Tortilla, a fim de promover o produto genuíno. Ainda há no México cerca de 40 mil tortillerías que nixtamalizam o seu milho, e milhões de pessoas que fazem as tortillas tradicionais em casa.

VIRAR VENEZUELA

A ameaça de que o país iria se tornar “uma Venezuela” esteve muito na moda no Brasil, mas aparentemente é um chavão repetido pela direita em outros lugares. Esta semana o ex-prefeito de Nova Iorque Michael Bloomberg foi perguntado sobre uma proposta da senadora Elizabeth Warren para um imposto sobre a riqueza. Respondeu justo com essa ‘argumentação’. Em coluna do New York Times repostada ontem na Folha, o nobel de Economia Paul Krugman critica. “Observe o conteúdo real da proposta de Warren e você verá Teddy Roosevelt, não Hugo Chávez. O apelo de Harris por um sistema universal de saúde bancado pelo governo nos colocaria na mesma categoria de infernos socialistas como… o Canadá. Ocasio-Cortez sugeriu alíquotas para os impostos de renda dos muito ricos que ninguém defende –exceto especialistas em finanças públicas premiados com o Nobel –, e que jamais foram aplicadas em qualquer país – exceto os Estados Unidos, durante todo o seu grande boom do pós-guerra”, ironizou.

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