Não há médicos? Libere-se a telemedicina

Consultas, exames e até cirurgias a distância aprovadas no exato momento em que o Mais Médicos está claudicante. Coincidência? Leia também: OMS absolve maconha, o bate-cabeça no governo sobre gravidez na adolescência e muito mais

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NÃO TEM MÉDICO? 

O Conselho Federal de Medicina aprovou uma resolução que permite e regulamenta consultas, diagnósticos e até cirurgias a distância, tanto no SUS como no setor privado. A regra vai ser publicada esta semana e entra em vigor dentro de três meses, justo quando áreas remotas atendidas pelo Mais Médicos ainda sofrem com a saída de cubanos.

O relator da resolução no Conselho, Aldemir Soares, afirma que a decisão não tem nada a ver com os cubanos, mas que a consulta a distância pode “se aplicar” no caso das cidades que não conseguem atrair médicos. Matéria do Estadão destaca que nas cidades esse tipo de atendimento só vai ser permitido na segunda consulta (o primeiro contato entre médico e paciente deve ser presencial), mas em comunidades “distantes” não há essa exigência. 

Enfim, a ideia é que os atendimentos virtuais não sejam tão frequentes, e a resolução determina que, no caso de tratamentos longos ou de pacientes com doenças crônicas, a cada 120 dias sejam realizadas consultas presencias. Outra imposição é que as consultas sejam gravadas e mantidas em sigilo médico – cabe ao profissional escolher a melhor forma de arquivo. Não fica claro como o médico fará para garantir o sigilo, dada a precariedade da nossa segurança digital individualmente…

Quanto ao diagnóstico, o texto permite que alguns exames, como de ouvido e garganta, possam ser feitos pela internet. A triagem para determinar qual tipo de atendimento o paciente deve receber também vai poder ser feita virtualmente. E tem as cirurgias. Soares diz que no Brasil já há 40 centros habilitados para que pacientes possam ser operados por robôs comandados por médicos a quilômetros de distância. Mas nesse caso um cirurgião da mesma especialidade deve ficar por perto.

A decisão não tem uma relação temporal só com as mudanças no Mais Médicos. Semana passada falamos sobre o anúncio do hospital Albert Einstein de que vai oferecer consultas virtuais por R$ 400 reais. O próprio CFM havia se posicionado contra, porque a prescrição de tratamentos e procedimentos sem exame é vedada pelo Código de Ética da profissão. Agora o Código parece ter deixado de importar… Mas, à Folha, Soares diz que a nova norma não contraria a posição anterior. “O código já previa que a telemedicina fosse regulamentada”.

No SUS, ao menos 10 estados já fazem atendimento a distância pelo programa Telessaúde, que começou em 2007. 

OMS ABSOLVE MACONHA

A OMS recomendou a reclassificação da cannabis e de seus principais componentes em tratados  internacionais. Num dos principais deles, de 1961, a maconha está duplamente classificada nas categorias “Schedule 1 e “Schedule 4”, sendo esta última a das substâncias particularmente nocivas e com pouco uso medicinal. É a categoria de drogas como LSD e heroína. Os especialistas pedem agora que a maconha fique no Schedule 1, onde estão substâncias menos danosas e/ou com propriedades medicinais. Preparações contendo THC ficariam no Schedule 3. Embora o documento ainda não tenha sido formalizado, já está circulando. Segundo a Forbes, o aceite dessa recomendação vai significar um reconhecimento formal de que os organismos regulatórios têm errado por décadas em relação aos efeitos da droga. 

DEM ACIMA DE TODOS

Quando o ainda recém-eleito Bolsonaro começou a indicar seus primeiros nomes para os Ministérios, muito se chamou a atenção para a presença do DEM em três importantíssimas pastas – a da Saúde com Mandetta, a da Agricultura com Tereza Cristina e a Casa Civil com Onyx Loreinzoni. Agora, o partido está no comando da Câmara e do Senado, depois de um sábado agitadíssimo nesta segunda Casa.

A SEMANA QUE NÃO COMEÇOU

Era para estar acontecendo a Semana Nacional de Prevenção da Gravidez na Adolescência, estabelecida em uma das primeiras ações de Jair Bolsonaro na presidência.  Mas não rolou, e, segundo a matéria do Uol, foi por conta de uma bateção de cabeça entre ministérios. De início, as ações deveriam ficar com o da Saúde, mas Bolsonaro achou melhor incluir o da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos. A matéria cita fontes anônimas das pastas, que relataram os problemas para as tomadas de decisão. Por exemplo, era complicado falar de prevenção à gravidez sem enfatizar camisinha e pílula e sem envolver as escolas. A demissão de 320 funcionários na “despetização” de Onyx Loreinzoni também não ajudou nem um pouco.

Uma programação deveria começar  no dia 27 de janeiro. Porém, a primeira reunião interministerial foi só no dia 24 e, obviamente, nada aconteceu. Então ficou decidido que as atividades iriam começar só no dia 1º – seriam posts em redes sociais, além de seminários e palestras –, mas até agora ainda não tem nada. 

CONTRASTE?

E deu o que falar a entrevista de Mourão ao Globo, dizendo que em sua “opinião como cidadão, não como membro do governo”, o aborto deve ser “uma decisão da pessoa”. O texto destaca que o vice-presidente não foge de assuntos polêmicos e ajuda a consolidar a imagem de sensatez que parece estar se definindo em torno do general. 

A fala pouco conservadora sobre aborto é a manchete, e na curtíssima versão aberta para não-assinantes do jornal, esse é basicamente o destaque. Mas na versão fechada há outros pontos. Como uma avaliação sobre a ministra Damares Alves (“tem me causado uma excelente impressão, porque é uma mulher de posições bem definidas, firmes, ela não se apavora com as coisas”) e uma opinião sobre a necessidade de o governo rever seu discurso favorável à flexibilização ambiental depois do que aconteceu em Brumadinho: “Eu acho que não. A questão do licenciamento ambiental de Brumadinho foi do estado de Minas Gerais (…) O presidente toca nessa questão de flexibilização muito em relação a exploração agropecuária. O nosso regramento é cumprido, é uma regramento bem mais exigente do que tem nos outros países. Agora existe muita pressão. (…) A gente tem que ver até onde existe um interesse genuíno pelo meio ambiente ou até onde existe uma pressão indireta das grandes potências”, afirmou ele, sem explicar.

BRUMADINHO

Por falar nisso: A Agência Nacional de Mineração (ANM), responsável por fiscalizar mineradoras, tem desde outubro um ex-funcionário da Vale em seu quadro diretivo. É o engenheiro sanitarista ambiental Eduardo Araújo de Souza Leão. No De Olho nos Ruralistas, um relato da sabatina de Leão no Senado, que aprovou seu nome para a direção da Agência. Ninguém perguntou nada sobre o cargo ocupado na Vale.

O rio Paraopebaestá morto. A água nas proximidades de Brumadinho está totalmente contaminada, o nível de oxigenação para peixes e outros animais é zero e há metais pesados em níveis muito acima dos recomendados.

Os moradores já começam a apresentar sinais de intoxicação. Em geral eles usam poços artesianos, mas os indígenas da aldeia Naô Xohã tinham no rio a única fonte de água para beber, tomar banho, regar plantas, pescar e festejar. O maior evento do calendário Pataxó – a Festa das Águas, em 19 de abril – foi cancelado.

Com mais de 120 mortos e 220 desaparecidos, Brumadinho tem futuro incerto. Dependia da mineração, e a Vale é a maior empregadora da cidade, com dois mil funcionários (são 40 mil habitantes). 

SALLES E O MAPA

A denúncia não é nova: o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, é acusado de adulterar um mapa ambiental para favorecer mineradoras enquanto secretário de Meio Ambiente em SP. Mas o Intercept conta a história da denúncia. A reportagem conversou com Victor Costa, que foi coordenador do setor de Geoprocessamento e Cartografia da secretaria –  responsável por elaborar mapas para qualquer tipo de empreendimento e licenciamento ambiental. Foi Victor quem recebeu a incumbência de “alterar uns mapas”, a pedido de Salles e da Fiesp.  Na época ele estranhou, pediu que a demanda fosse formalizada por e-mail e respondeu dizendo que faria as mudanças, porém questionando o processo. A equipe fez as alterações, mas explicitando-as – houve reclamações de cima. Victor sofreu pressão e ameaças. Tempos depois, pediu demissão e denunciou o que viu ao MP. Com isso, foi acusado de “eco-xiita” por Salles. 

A MORTE DE SABRINA

Sabrina Bittencourt – uma das mulheres que ajudaram a denunciar os abusos sexuais de João de Deus e Prem Baba – cometeu suicídio neste sábado. Sabrina foi abusada desde os quatro anos por integrantes da igreja frequentada pela família  e é uma das criadoras da plataforma Coame (Combate ao Abuso no Meio Espiritual), ferramenta que concentra denúncias de violações sexuais cometidas por padres, pastores e gurus diversos. Era alvo de ameaças de morte, vivia na Espanha e se mudava constantemente. As autoridades espanholas ainda não confirmaram a morte.

DESDE A INFÂNCIA

Empresas de tabaco na Índia estão Mirando crianças. Uma pesquisa monitorou 20 cidades e descobriu que há anúncios propositalmente posicionados próximos a escolas, mas não é só isso: os pesquisadores identificaram nessas regiões a venda de cigarros a preços mais baixos, e também por unidade, em vez de maço, mesmo que a legislação proíba a venda de tabaco perto de instituições de ensino. Quase todos os vendedores colocam os produtos (não só cigarros, mas outros, como chicletes de tabaco) na altura do olhar das crianças, em mais de metade não havia alerta de danos à saúde e os produtos de tabaco estavam perto de balas e brinquedos. 

PIOR EM JOVENS ADULTOS

Um recente estudo publicado no Lancet Public Health mostrou que, nos EUA, registros de cânceres ligados à obesidade crescem mais entre jovens adultos do que naqueles que têm mais de 45 anos. O pior grupo foi o de 25 a 29 anos. 

SEM CONSELHO

Pense rápido: qual a refeição mais importante do dia? Se você se lembrou de uma máxima ouvida desde sempre, deve ter pensado no café da manhã. Mas há controvérsias, e é possível até que haja o dedo empresas de cereais nessa orientação. A matéria da BBC resume várias pesquisas que apontam pra lados diferentes. E a conclusão é… Bom, não há conclusão: não há provas sobre o que devemos comer, nem quando.

FEBRE AMARELA SE EXPANDE

O vírus chegou à região Sul. No Paraná, o primeiro caso autóctone (contraído no estado) foi confirmado esta semana, e macacos foram encontrados mortos. No Rio Grande do Sul, há um caso sob investigação.

BICICLÂNCIA

Saiu um livro sobre cidades brasileiras onde se usa muito a bicicleta: O Brasil que pedala, a cultura da bicicleta nas cidades pequenas. Uma delas é Afuá, no Pará, onde veículos motorizados são proibidos. Nas ruas de palafita, cerca de um metro a cima do rio, todo mundo só anda a pé ou de bicicleta. E o atendimento médico é feito nas duas ‘biciclâncias’ disponíveis: a estrutura é uma espécie de quadriciclo com um motorista de um lado e uma maca do outro.

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