Mais médicos: 200 já desistiram antes de começar

Principal motivo alegado é a incompatibilidade de horário com outras atividades — o programa Mais Médicos exige 40 horas semanais. O resumo dessa e de outras notícias aqui, em 11 minutos

05 de dezembro de 2018

200 JÁ DESISTIRAM

O prazo para apresentação nos municípios ainda não acabou e as inscrições também não se encerraram, mas 200 profissionais brasileiros inscritos e selecionados para o Mais Médicos já comunicaram desistência. Essas vagas vão ficar abertas de novo, exclusivamente para quem possui registro no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, o principal motivo alegado é a incompatibilidade de horário com outras atividades – o programa exige dedicação de 40 horas semanais. Até agora, 30% dos inscritos se apresentaram nos municípios. Os demais têm até o dia 14.

Alguém vazou no whatsapp um áudio de uma funcionária do Conasems (o Conselho que representa os secretários municipais de saúde), ele se espalhou em grupos de médicos e está dando muito o que falar. Porque ela diz assim: “Nós vamos ter que encontrar uma saída, porque não é possível que seja feito dessa maneira, que sobre para nós aceitarmos qualquer lixo que venha desse Brasil afora para fazer de conta que vai trabalhar no nosso município e só vai dar dor de cabeça”. O assunto eram os inscritos no Mais Médicos. Ela argumentava que havia muitos médicos com problemas legais, gestantes e profissionais idosos se apresentando, e que era preciso dar um jeito de não validar esses casos “duvidosos”. Cita até Mauro Junqueira, presidente do Conselho.

O Conasems reconheceu a veracidade do áudio mas não revelou o nome da funcionária. Disse que ela foi repreendida. “Em razão da complexidade do processo e do elevado stress e cansaço a que todos nós estamos submetidos, a funcionária acabou proferindo essa declaração infeliz, pela qual já foi devidamente advertida, sendo submetida às medidas disciplinares cabíveis”

Bom, já falamos aqui de um problema em relação aos objetivos do Mais Médicos: o da formação, que é um dos braços do programa. Deveriam ser criadas 11,4 mil vagas de graduação em Medicina até 2017 para aos poucos ter mais médicos brasileiros com foco na Saúde da Família em áreas carentes mas, embora o número tenha sido até ultrapassado, só 20% das novas vagas obedeciam aos critérios do programa.

Pois agora o Estadão esmiuçou o perfil dessas vagas: só 30% delas ficam nos municípios prioritários (que não tinham escolas de Medicina antes); 56% estão nas regiões Sul e Sudeste e a maioria esmagadora está em São Paulo, seguindo a tendência de concentração nas áreas mais ricas do país; 83% estão em universidades privadas e custam no mínimo R$ 6 mil mensais, o que não facilita o ingresso de estudantes mais pobres. Mas a reportagem conversou com uma estudante de um dos novos cursos, em faculdade particular, que ao menos disse que o foco das aulas é o SUS.

PENSE EM MIM

O pedido veio de Henrique Prata, presidente do Hospital do Amor (antigo Hospital do Câncer de Barretos) e cotado para assumir o Ministério da Saúde num primeiro momento. Em carta a Bolsonaro, ele pede o fim da isenção fiscal para hospitais de excelência como o Sírio Libanês e o Albert Einstein. Mas ele não tem nada contra as isenções, só quer que haja uma diferenciação entre instituições que só visam incentivos tributários e aquelas que de fato são filantrópicas… como a sua. “Apesar do alto desempenho, temos de concorrer com as instituições para outros projetos de leis e incentivos. A diferença é que nós integramos um grupo de hospitais que apresentam alto porcentual de atendimento de pacientes do SUS e, por isso, já convivem com grandes dificuldades de custeio”, diz.

OS SEGREDOS DA ANVISA

O pessoal do site O Joio e o Trigo precisou recorrer à  Controladoria Geral da União para descobrir os compromissos ocultos na agenda do diretor-presidente da Anvisa, William Dib. Foi dureza: durante dois meses, a agência insistiu em dizer aos jornalistas que todos os compromissos oficiais estavam na agenda pública, que fica à disposição de todos no site. Não era verdade. E os compromissos não divulgados incluíam encontros com representantes da Coca-Cola, da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia), da Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não Alcoólicas (Abir) e da Mars (uma das maiores corporações alimentares do mundo).

Quem acompanha as discussões sobre o direito à alimentação de qualidade (o Joio cobre isso de perto) o sabe que há um debate/embate fortíssimo sobre a rotulagem frontal de alimentos industrializados. De um lado, consumidores querem rótulos mais informativos, com alertas para quantidades excessivas de gorduras, açúcar, sal. É um sistema que dá comprovadamente ótimos resultados na saúde da população. De outro, tem a indústria alimentícia dando o contra. Em maio, ainda com o diretor antigo no comando, a Anvisa se declarou a favor da rotulagem com alertas. Porém, tão logo assumiu o cargo, Dib se declarou contrário.

UMA TUCANA NO MINISTÉRIO DA SAÚDE

A pediatra Mayra Pinheiro, que concorreu ao Senado pelo PSDB do Ceará e perdeu, foi convidada por Mandetta para assumir a SGTES (Secretaria da Gestão do Trabalho e da Educação da Saúde), que trata da formação de trabalhadores e da regulação profissional na saúde. Este ano ela participou de protestos contra o Mais Médicos.

NOVAS REGRAS PARA PLANOS EMPRESARIAIS

A ANS decidiu que, a partir de junho, vai ter portabilidadesem carência: clientes vão poder trocar de convênio sem cumprir os prazos previstos pela operadora. A regulamentação acaba com a necessidade de compatibilidade entre a cobertura assistencial do plano de origem e do de destino, ou seja, as pessoas vão poder migrar de um plano ambulatorial para um hospitalar, por exemplo. Também vai ter esse tipo de portabilidade para funcionários demitidos e aposentados, que vão ter 60 dias para escolher outro plano sem carência extra. A Abramge e a FenaSaúde, que representam essas empresas, ainda não emitiram posições. Já o Idec, de defesa do consumidor, gostou. Em parte: é que o Instituto havia feito essa recomendação à ANS há sete anos.

SEM CAMPEÕES

Falamos ontem sobre o ‘efeito Trump’ no meio ambiente, já que ele quer distância do Acordo de Paris e está, digamos, inspirando outros presidentes. Em seu encontro na Argentina, os países do G20 juram que o acordo vai ser mantido. Mas o economista Maxime Combes aponta que todos eles, e não só os EUA, estão caminhando contra os objetivos que eles mesmos fixaram. Incluindo o Canadá e a União Europeia, que se apresentam como “Campeões do Clima”. Os combustíveis fósseis ainda representam 82% da a matriz energética dos países do grupo (são amplamente subsidiados) e as emissões de gases do efeito estufa estão aumentando em 15 deles:

“Realocar os circuitos de produção e consumo, reduzir o transporte internacional de mercadorias, tributar o querosene e o óleo pesado usados para impulsionar essa globalização do comércio, remover as regras da OMC que hoje limitam as políticas de transição energética adaptadas a territórios, defender uma agricultura camponesa e orgânica em vez das políticas de agro-exportação…são algumas das medidas indispensáveis do ponto de vista da urgência climática. Infelizmente, não tiveram lugar no comunicado final do G20. Infelizmente, raros são os analistas que põem em evidência essa contradição, como se pudéssemos resolver a crise climática ao mesmo tempo em que se aprofunda a globalização neoliberal”, escreve Combes.

MAIS DE DUAS ALEMANHAS

Essa é a extensão da Floresta Amazônica que o Brasil já desmatou. São 783 mil quilômetros quadrados. A partir de 2004, quando entrou em vigor o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, as taxas começaram a cair, e o desmatamento foi reduzido em 72%. Mas nos últimos quatro anos os números voltaram a crescer. Este ano foi o pior da década, com 7,8 mil, sendo 95% deles desmatados ilegalmente.

Por falar em Amazônia: quando Bolsonaro defendeu a saída do Brasil do Acordo de Paris, alegou que estava em jogo o “Triplo A“, um corredor ecológico internacional na Amazônia. Mas não tem nada a ver.  A única citação da Amazônia no acordo é o compromisso de zerar o desmatamento ilegal no bioma até o ano de 2030, conforme a checagem da Lupa.

ÓTIMO PASSO

Uma comissão especial da Câmara finalmente aprovou, mesmo com muitas tentativas de obstrução, o texto da Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA). Ela foi proposta a partir do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos (Pronara), que devia ser um instrumento de incentivo à agroecologia, mas foi barrado pela então ministra da  Agricultura Kátia Abreu no governo Dilma. O caminho para a aprovação da Política ainda é longo: agora vai para o plenário da Câmara.

E OS ÍNDIOS?

O governo Bolsonaro ainda não sabe onde vai botar a Funai, mas os funcionários querem que a autarquia continue vinculada ao Ministério da Justiça. Mandaram uma carta para Moro falando do esvaziamento da Funai ao longo dos anos (foram só três concursos para contratação de servidores desde 1988, e o orçamento caiu quase R$ 80 milhões nos últimos quatro anos).

AJUDA DA ONU

A ONU incluiu a Venezuela em seu plano humanitário, e anunciou que vai arrecadar US$ 738 milhões para países vizinhos que recebam venezuelanos – segundo a organização, mais de três milhões deixaram o país desde 2015. Disse ainda que vai reforçar a ajuda nas áreas de saúde e nutrição.

ATIRAR PRIMEIRO

Polêmica na Argentina: com uma resolução da ministra da segurança Patricia Bullrica, agora as forças policiais federais vão poder usar armas de forma mais “flexível”. Podem atirar sem dar antes a chamada “voz de alto” (que obriga quem a recebe a parar e atender à polícia) e sem necessariamente responder a uma agressão armada. Vão poder abrir fogo contra quem considerem suspeito em situações diversas, se considerarem que há perigo iminente: em legítima defesa, para impedir um delito, antes da detenção, para evitar uma fuga.

PRIMEIRA VEZ

Em um procedimento inédito, nasceu em São Paulo um bebê gerado em um útero transplantado de uma doadora morta. Foi no Hospital das Clínicas.

EM 10 MINUTOS

Pesquisadores da Universidade de Queensland, na Austrália, inventaram um teste, ainda experimental, que pode vir a detectar de forma muito rápida qualquer tipo de câncer, se continuar bem-sucedido em estudos futuros. O diagnóstico poderia ser apenas com um exame de sangue. Eles usaram amostras de células de 200 pacientes com diversos tipos de tumor e viram que  certas expressões do DNA são diferentes entre células cancerígenas e células saudáveis. Então, descobriram testes em que as células de todos os tipos de câncer se comportavam da mesma forma. O resultado foi preciso em 89% dos casos. O estudo foi publicado ontem na Nature Communications.

NOTÍCIAS DO RIO

Lembra a “reestruturação” que a prefeitura carioca está fazendo e que deve demitir ao todo mais de 1,4 mil trabalhadores da Saúde da Família? No último dia 23 o juiz Marcello Alvarenga Leite havia concedido uma liminar  que impedia as demissões. Pois voltou atrás e a revogou ontem.

E agora que o governador do estado, Pezão, foi preso, a Assembleia Legislativa do Rio decidiu dar andamento ao pedido de seu impeachment, que havia sido pedido pelo PSOL em fevereiro do ano passado. O pedido na época foi arquivado pelo presidente afastado da Casa, Jorge Picciani (MDB), que por sinal está em prisão domiciliar. Deve ser arquivado de novo porque já está no fim do ano – e do mandato.

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