Contra os agrotóxicos, mas a favor de quê?

No Dia Internacional de Luta contra os venenos, reportagem aprofunda debate sobre alternativa: a agroecologia

Foto: André Antunes

03 de dezembro de 2018

TODO DIA É DIA

Hoje é Dia Internacional de Luta contra os Agrotóxicos. Na matéria da Escola Politécnica da Fiocruz, o jornalista André Antunes fala de como o sistema agroalimentar é, de cabo a rabo, produtor de doenças, além de iniquidade social e injustiça ambiental. Não são só os agrotóxicos, mas também, por exemplo, os hábitos nada saudáveis que a indústria alimentícia impulsiona. E se o argumento mais forte pra se defender o modelo atual é o da necessidade de alimentar a população inteira, a resposta é que, bem, ele não consegue fazer isso: hoje  800 milhões de pessoas passam fome no mundo e dois bilhões têm uma dieta pobre em micronutrientes. A reportagem traz entrevistas com vários agricultores que atuam em outra lógica, inclusive nas zonas urbanas. Falam da agroecologia, que é muito mais do que produzir sem veneno – ela une práticas sustentáveis a reivindicação de mudanças sociais estruturais, valorização dos pequenos produtores, preocupação com soberania alimentar…

Nem toda produção orgânica é agroecológica, e dá até pra ter monoculturas orgânicas, inclusive de produtos nocivos à saúde. A Folha entrevista alguém que se tornou referência nisso: o empresário Leontino Balbo Jr. O Grupo Balbo é o maior produtor e exportador de açúcar orgânico do mundo. E dono da Native, marca que povoa os estandes de produtos naturais de todo o país. Ele critica o PL do Veneno, em tramitação, e diz que agora é a hora de superar a tal Revolução Verde (processo que começou nos anos 1950, com uso intensivo de defensivos e adubos químicos para aumentar a produção).  Diz que os grandes produtores brasileiros não entendem isso porque o nosso agronegócio “aprende tudo na universidade”, onde as multinacionais da área química influenciam muito.

Outra perspectiva sobre o PL do Veneno está em um artigo dos procuradores do trabalho Valesca de Morais do Monte e Leomar Daroncho, no El País. Eles dizem que, além da preocupação com a saúde dos trabalhadores, consumidores e meio ambiente, há a possibilidade de uma lei dessas comprometer a posição brasileira na disputa por mercados.

LIVRO DE REGRAS

Começaram ontem em Katowice, na Polônia, as negociações anuais da ONU sobre o clima. Em 2018, a principal tarefa vai ser estabelecer o “livro de regras” do Acordo de Paris, em que 195 países se comprometeram a limitar o aquecimento da Terra a até 2ºC até o fim do século. A ideia é definir como exatamente essa meta vai ser alcançada.  No sábado, países do G20 divulgaram um comunicado dizendo que o Acordo de Paris é “irreversível”, mas o governo dos EUA continua na intenção de abandoná-lo.

O objetivo do acordo é, no mínimo, ambicioso. Os especialistas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) estimam que é necessário reduzir 40% a 70% das emissões entre 2010 e 2050 para permanecer abaixo de 2°C. E não há metas obrigatórias para cada país. Segundo a ONU, os impactos da mudança climática “nunca foram tão graves” e devem levar a comunidade internacional a “fazer muito mais”.

Depois que o Brasil desistiu de organizar a Conferência do ano que vem, a Guatemala se ofereceu.

VEM DA ONU

Relatores da ONU mandaram uma carta de 11 páginas para o governo brasileiro criticando as respostas ao desastre da Samarco em Mariana, que já completou três anos. Falam mal das autoridades e das empresas, da falta de transparência na avaliação dos danos, da limitada participação da sociedade civil nas decisões e das violações dos direitos humanos nas comunidades afetadas.

PARA ONDE VÃO

Parte dos ‘nossos’ médicos cubanos deve ir para o México, onde metade das pessoas não têm nenhum acesso à seguro social e a saúde pública está sem dinheiro. O novo presidente, López Obrador, é o primeiro identificado como de esquerda. Tem um plano de austeridade que inclui reduzir salários de servidores, inclusive médicos. É aí que devem entrar os cubanos. Segundo o Estadão, começaram ainda em setembro as negociações entre Cuba e Obrador para a criação de um tipo de Mais Médicos no país. Com a saída dos cubanos do Brasil, um acordo está prestes a ser fechado.

Em entrevista a Morris Kachani, no Estadão, Drauzio Varella fala dos rumos do programa. E diz que a formação dos brasileiros em Medicina é ruim. “É isso que eu acho engraçado, eles ficam falando da formação dos cubanos mas não falam da formação dos brasileiros. Essas faculdades estão abrindo por interesses econômicos. Você sabe que quando uma universidade oferece o curso de medicina, o valor econômico dela é aumentado em 400 milhões de reais”. Critica também a saída de Cuba, que considera uma “sacanagem”, um risco que corremos por se “ter deixado o programa na mão do governo de Cuba”. Avalia, porém, que essa foi a “solução possível” no momento da implantação do programa.

Para ele, a rápida inscrição dos brasileiros para as preencher as vagas não é sinônimo de sucesso, pelos motivos que temos relatado aqui: a taxa de evasão é grande, e há profissionais largando a Estratégia Saúde da Família visando a bolsa do Mais Médicos, mais atraente que seus salários. Como já dissemos, metade dos brasileiros desiste do Programa em até um ano e meio.

E um supervisor do Mais Médicos, o médico Rodrigo Lima, afirma que a formação específica dos cubanos em medicina da família os torna mais capacitados para a atuação em pequenas cidades do que os brasileiros recém-formados.

Agora, 151 vagas remanescentes estão na região Norte. Só no Amazonas são 112; 34 estão no Pará. E mais da metade dos cargos em aberto estão nos Distritos Sanitários Especiais Indígenas.

AS OUTRAS FRENTES

Quando foi criado, o Mais Médicos tinha outras definições além da contratação de bolsistas. A intenção era reduzir a carência permanentemente, e havia o estabelecimento de ações para a expansão das vagas de graduação em medicina e na residência em medicina da família e comunidade, e a reforma da graduação para incluir um estágio obrigatório dos estudantes na saúde pública. O G1 apurou o que já deu e o que não deu certo. Das mais de 13 mil vagas em medicina criadas, só 20% atendem aos critérios do Mais Médicos. E a maioria – 83,4% – está em universidades privadas. Já a ideia do estágio obrigatório nunca avançou, intensamente criticada pela comunidade médica.

O TAMANHO DAS BANCADAS

Os pesquisadores Suely Araújo e Silvio Cascione mapearam o tamanho real de cinco frentes parlamentares. Considerando só os signatários atuantes, a situação é a seguinte: a da agropecuária tem 118, a da educação em 40, a evangélica tem 39, a da segurança tem 36 e a da saúde tem só 28. E, segundo um dos deputados, elas servem mais para obstruir do que para construir.

GRANDES AMIGOS

Nada é inacreditável, mas a reportagem do Intercept não deixa de dar muita raiva. Em Teresina, no Piauí, várias mulheres (que não se conheciam) denunciaram o obstetra Felizardo Batista por abuso sexual. O primeiro caso reúne nove denúncias, mas foi arquivado em tempo recorde pelo promotor Francisco Rauilno Neto… que é amigo pessoal do médico. Só precisou de 24 horas para escrever seu parecer, de 37 páginas. Ainda há outro caso, com mais uma denúncia, em investigação.

ROUBOS, TIROS E AUSÊNCIAS

Uma ONG chamada Rede de Médicos pela Saúde na Venezuela tem feito semanalmente uma pesquisa sobre a situação dos maiores hospitais do país. Mostra que 45% deles sofreram roubos e furtos de equipamentos, 40% foram paco de disparos por armas de fogo, e houve agressões de pacientes a profissionais em 62% deles. Também  há falta de luz, de água e de comida para os pacientes, além de laboratórios fechados. A escassez de remédios é estimada em 80%.

CRIANÇAS DO FUTURO

A polêmica sobre as crianças geneticamente modificadas continua, como não poderia deixar de ser. “Será impossível evitar a existência de um mercado clandestino de edição genética. As pessoas vão querer uma criança perfeita e estarão dispostas a pagar muito para ter uma. Podemos estar apenas diante do começo de um mercado clandestino da perfeição”, alerta no El País o filósofo Julian Savulescu, diretor do Centro Uehiro para a Ética Prática da Universidade de Oxford, no Reino Unido.

ASSUSTADOR

Uma pesquisa feita com jovens britânicos e publicada na Archives of Suicide Research mostrou que 35% dos estudantes homossexuais já tentou suicídio – entre heteros, o percentual foi 14%. Além disso, 65% dos gays, lésbicas e bissexuais já se automutilaram, contra 41% dos heterossexuais. O grupo de entrevistados foi reativamente pequeno: foram 707 jovens com idade média de 23 anos. Destes, 119 se declararam homossexuais.

E, nos EUA, a taxa de suicídios subiu de 10,5 casos a cada 100 mil habitantes em 1999, para 14 em 2017 (no Brasil, estamos em 5,8). Mas o investimento em pesquisas sobre isso é relativamente baixo. O Instituto Nacional de Saúde do país, o maior financiador público de pesquisas biomédicas do mundo, investiu 68 milhões de dólares nisso no ano passado. Parece muito. Mas ele pagou quase cinco vezes mais em estudos do sono, e 10 vezes mais em pesquisas sobre câncer de mama, que mata menos gente.

EM ALTA…

Crises econômicas não são ruins pra todo mundo. Veja as empresas de cartões pré-pagos ou de descontos em saúde: segundo o Estadão, elas já conseguiram arrebanhar pelo menos 8 milhões de brasileiros que estão descontentes com o SUS mas não podem arcar com planos de saúde. É mais gente do que os clientes das duas maiores operadoras de planos juntas. E a maior companhia do setor – Cartão de Todos – teve o número de adesões mensais triplicado em 2018. Elas não miram só em pessoas físicas, mas também pequenas e médias empresas que não oferecem planos aos empregados. A matéria explica que são cartões com mensalidades baixas, a partir de R$ 14,99, que garantem descontos em uma rede conveniada. No caso do pré-pago, os serviços precisam ser pagos com créditos depositados no cartão. Há problemas graves: a cobertura é limitada e não há nenhum tipo de regulamentação.

PLANOS SUSPENSOS

A ANS anunciou na sexta a suspensão de 17 planos de saúde por três operadoras, por reclamações da cobertura. São da Unimed-Rio, Salutar e Ameno.

A AIDS 

Cerca de 35 milhões de pessoas já morreram por causa do HIV, e hoje 37 milhões vivem com o vírus, sendo 70% delas na África. Mais de 9 milhões não sabem que estão infectadas No sábado, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, a BBC desmentiu mitos sobre isso.

Aqui no Brasil, de 1980 até 2017 foram registrados 982.129 casos. Só no ano passado foram 42.420 novas infecções por HIV e mais de 37 mil casos novos da doença. Quem conta é Maria Amelia de Sousa Mascena Veras, da Comissão de Epidemiologia da Abrasco, nesta entrevista. Ela diz que a taxa de mortalidade diminuiu nos últimos anos, mas há muitas disparidades entre as regiões.

RECREATIVA E MEDICINAL

Ao mesmo tempo em que legalizou o uso recreativo da maconha, o Canadá começou uma campanha educativa de 83 milhões de dólares, voltada principalmente para jovens, alertando sobre os perigos dessa droga. Os riscos são maiores para quem começa a fumar mais novo, para quem consome regularmente a planta, para los que procuram variedades de alta potência, e também para quem tem histórico familiar de distúrbios como esquizofrenia e transtorno bipolar.

Por aqui, temos postado notícias que deixam claro como a cannabis medicinal pode se tornar um negócio bilionário. A reportagem da Folha fala de um novo serviço: as startups Dr. Cannabis e Indeov conectam pacientes, médicos que prescrevem os remédios e fornecedores de países como Canadá e Estados Unidos. A Dr. Cannabis faz inclusive busca ativa em redes sociais para conquistar potenciais clientes.

ESCAPOU

Essa é ainda da semana passada: O ministro do STF Alexandre de Moraes suspendeu a ação penal contra o médico Ricardo Fayad, acusado de participar da tortura de Espedito de Freitas, membro da VPR, durante a ditadura civil-militar. A denúncia é que, em uma das sessões, ele ordenou a aplicação de uma injeção para que Espedito aguentasse o prolongamento da tortura. A suspensão aconteceu por causa da Lei da Anistia.

CONTINUA GRAVE

Saiu no sábado um boletim sobre o ebola na República Democrática do Congo. São 380 casos confirmados, 48 classificados como prováveis, 248 mortes pela doença. E ainda há 66 casos em investigação.

AGENDA

Começa hoje, na Fiocruz Brasília, o Seminário Impactos sociais das políticas de austeridade. Vai até o dia 5.

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