Cigarros eletrônicos, perigo à vista?

EUA investigam 5 mortes e 450 casos doença pulmonar associados ao uso de aparelho. Um químico perigoso pode ter sido adicionado nessa linha de produtos. Leia também: estoques da vacina contra o sarampo acabando em SP

Man smoking E-Cigarette.

Por Maíra Mathias e Raquel Torres

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O MISTÉRIO DOS CIGARROS ELETRÔNICOS

Segue crescendo o número de casos de pessoas com problemas pulmonares possivelmente ligados ao uso de cigarros eletrônicos nos EUA. Já foram confirmadas cinco mortes por uma doença não-identificada que tem sintomas como vômito, náusea, falta de ar, tosse e dor no peito. Outros 450 casos estão sendo analisados – para se ter uma ideia da rapidez, na semana passada eram 215. Até que a causa seja esclarecida, o Centro de Controle de Doenças do país e algumas autoridades estaduais pedem que as pessoas suspendam o uso desses dispositivos.

No New York Times, um resumão do que se sabe até agora. Nos exames de imagem, a doença parece uma pneumonia, mas nenhuma infecção é encontrada nos testes. Ainda não se determinou se é algo causado por uma marca ou tipo específico de dispositivo – ou por um tipo específico de líquido vaporizado. Mas a FDA (agência reguladora dos EUA) afirma que um subconjunto significativo dos líquidos usados por pacientes doentes continha THC e um produto químico chamado acetato de vitamina E. Há ainda uma pergunta intrigante: se os cigarros eletrônicos existem há um tempão, por que essa doença e as mortes só apareceram agora? Uma teoria diz que o problema pode não ser de fato novo: outras pessoas podem ter adoecido antes, mas isso pode não ter sido reconhecido como relacionado à vaporização. Mas outra – mais aceita pelas autoridades – diz que algum produto químico perigoso (ou uma combinação perigosa) pode ter sido introduzida na linha de produtos recentemente. Por isso estão sendo investigadas substâncias que possam explicar o aparecimento da doença. 

OS ESTOQUES DA VACINA

“Em Araçatuba estamos há dois dias sem uma única dose de vacina contra sarampo porque a demanda da população tem sido muito alta e já usamos todas que foram enviadas”. O relato é de Carmem Silvia Guariente, diretora do Cosems-SP, conselho que reúne os secretários municipais de saúde do estado. De acordo com ela, o problema atinge outras cidades paulistas. O Ministério da Saúde informou ao Estadão que já enviou seis milhões de doses extras do imunizante para SP em 2019.

Na mesma sexta em que o desabastecimento foi noticiado, a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) anunciou que seriam entregues 18,7 milhões de vacinas, vindas do Serum Institute of India. Os imunizantes já estão no Brasil e passam por trâmites de controle de qualidade. 

No total, o Ministério pediu a compra de 47,4 milhões de doses da tríplice viral à Opas. Dez milhões de vacinas foram compradas por trâmite regular, as 18,7 milhões que chegaram por emergência, e há ainda um pedido de outras 18,7 mi em compasso de espera. Para isso, foram investidos R$ 325 milhões. 

De acordo com a FolhaOpas, OMS e Unicef devem se reunir em Washington essa semana para discutir a situação. Segundo John Fitzsimmons, responsável pelo fundo da Opas que faz a compra centralizada de insumos para os países da região, a demanda deve aumentar devido aos surtos ocorridos em outros continentes. A doença circula em 182 países, atualmente. “As necessidades do Brasil são grandes e urgentes, e os estoques estão comprometidos. Então, como reorganizamos isso para atender o Brasil em um curto prazo?”, afirmou ao jornal, defendendo um melhor planejamento e antecipação das necessidades.  

MUITO AQUÉM

Enquanto isso, novos números sobre as coberturas vacinais saíram. Em 2018, só a BCG atingiu a meta de 95% do público-alvo. A vacina é dada em recém-nascidos. Em comparação, as duas doses recomendadas de tríplice viral foram aplicadas em apenas 76,3% do público-alvo. No país inteiro, só Mato Grosso do Sul ficou dentro da meta, com 97,3% de cobertura.

TÁ RUIM, VAI PIORAR?

A coluna Esplanada, de Leandro Mazzini, deu ontem uma notinha bem plausível que a gente torce para que seja ‘barriga’, como se diz no jargão jornalístico. Segundo o colunista, que cobre os bastidores do poder em Brasília, surgiu no Palácio do Planalto a ideia de nomear Osmar Terra para o Ministério da Saúde. No lugar do titular da Cidadania, entraria a também ministra Damares Alves. Mandetta, que com todos os defeitos é um dos ministros mais razoáveis do governo Bolsonaro, seria defenestrado.

OPERADO

Jair Bolsonaro passa bem depois da cirurgia para a retirada de uma hérnia, o quarto procedimento ao qual se submete após ter recebido uma facada. Desta vez não foi no caríssimo Albert Einstein, mas no igualmente caro Hospital Vila Nova Star, da Rede D´Or, em São Paulo. Ele usou o Twitter para comemorar: “Logo estarei de volta ao campo. Irruuu!”. 

DE VOLTA À CARGA

A intenção não é nova – foi anunciada, inclusive no discurso de posse de Paulo Guedes, mas foi reafirmada pelo ministro da Economia em entrevista dada ao Valor Econômico. “Vamos desindexar, desvincular e desobrigar todas as despesas de todos os entes federativos”. Ele continua: “A classe política brasileira está condenada a mexer em 4% do orçamento porque 96% está destinado ao gasto obrigatório. Isso é a negação da política. Temos R$ 1,5 trilhão de orçamento e os parlamentares brigam por 4% desse valor, ficam atrás de uma emenda impositiva de R$ 5 milhões. São R$ 3,5 trilhões de recursos para alocar nos três níveis de governo. Esse dinheiro fica empoçado em fundos públicos, é capturado por piratas privados junto com interesses corporativos e, às vezes, burocratas corruptos. Cerca de 80% desses recursos vão para o pagamento da própria máquina, em salários e aposentadorias.”

Saúde e educação têm pisos mínimos de investimento que foram definidos depois de muita luta e, obviamente, seriam afetadas pela desvinculação. Mas Guedes está mais preocupado com a ‘liberdade’ dos agentes políticos do que com patamares básicos de qualidade nesses serviços públicos que são direitos constitucionais. “Cada prefeito e cada governador tem que ter a decisão de onde gastar mais. Um vai querer investir mais na saúde, outro mais na educação. Essa decisão não pode ser de um burocrata de Brasília ou de um político que já morreu. Somos escravos do dinheiro carimbado. Vamos descarimbar.”

TUDO COMPROMETIDO

Analisando fragmentos de córtex de pacientes que passaram por cirurgias do Hospital Universitário, cientistas da UFRJ descobriram que o vírus zika também pode infectar tecidos cerebrais de pessoas adultas – e se reproduzir neles. Até agora, essa atividade só tinha sido identificada em cérebros em desenvolvimento, como o de embriões. A maior implicação disso é que, ao contrário do que se pensava, é possível que o vírus também cause danos relevantes em adultos.

Para examinar que danos seriam esses, os pesquisadores injetaram o vírus em cérebros de camundongos e viram que, em comparação com os bichos que não tinham recebido o zika, os infectados apresentaram perda de memória e problemas motores, mesmo depois de o organismo combater a infecção. Mas houve outra grande descoberta: dois medicamentos fizeram a memória dos animais voltar. Os resultados foram publicados na Nature Communications.

É… Pena que o estudo não deve ir adiante: “Nosso grupo pretendia seguir avaliando os efeitos das arboviroses sobre o sistema nervoso de adultos, mas com o corte de bolsas dos pesquisadores e orçamento da CNPq previsto para 2020, isso será impossível. O que é uma pena, principalmente para a população que está exposta a epidemia de chikungunya atualmente – que também tem resultado em quadros neurológicos graves e dor crônica, e pode estar exposta em um futuro próximo a novos surtos de zika”, diz Cláudia Figueiredo, uma das autoras. 

Essa não é a única pesquisa afetada pelos cortes na ciência brasileira. Outro estudo promissor, também tocado pela UFRJ, pretende investigar o efeito do zika vírus na destruição das células de um câncer neurológico super letal, o glioblastoma. A segurança do tratamento em humanos seria testada agora. Mas a bolsa de Gabriella Pinheiro Alves de Freitas, que dedicaria seu doutorado a isso, foi cortada na leva das 5.613 canceladas pela Capes. Com isso, os ensaios clínicos ficaram comprometidos.  “Há mais de dez anos não tínhamos novidades no tratamento do glioblastoma”, observa Patrícia Garcez, líder do grupo de pesquisa. 

PELA PESQUISA

A Abrasco publicou nota contra o corte de 50% do orçamento da Capes – agravados pelos cortes no próprio MEC e no CNPq. “O SNPG [Sistema Nacional de Pós-Graduação] pressupõe a entrada continua de novos pesquisadores na medida em que os recém-formados saem para o mercado de trabalho. Essa rotatividade é inerente ao sistema, a renovação de bolsistas não implicando em expansão, senão em mera manutenção do sistema”, diz o texto.

MUITO VULNERÁVEIS

Em 2018, foram registrados 145 mil casos de violência de homens contra mulheres que sobreviveram – o que dá uma agressão a cada quatro minutos, em média. Desse total, 64,8 mil se enquadram como violência física; 34,4 mil são violência psicológica; 22,4 mil, sexual; e há 3.658 casos de tortura. E 70% das ocorrências aconteceu na casa das vítimas, sendo o cônjuge o agressor em 36% dos casos e o ex-companheiro em 14%. Os dados, inéditos, são do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde e foram obtidos pela Folha com base na lei de acesso à informação. 

Outro levantamento, feito pela ONG Instituto Liberta, a partir da revisão de vários estudos e dados governamentais, projeta o Brasil como o segundo país com maior número de crianças e adolescentes exploradas sexualmente, depois da Tailândia. Calcula-se que haja, anualmente, 500 mil vítimas por aqui. Dos 20 mil casos denunciados formalmente no país entre 2014 e 2019, a esmagadora maioria – 75,6% – vitima meninas. Viviana Santiago, da ONG Plan International, explica a OGlobo que não se pode caracterizar essa população como “profissionais do sexo, porque uma adolescente e uma criança não têm capacidade de tomar essa decisão”. Sendo os elos mais fracos da corrente, sofrem espancamentos, estupros, são submetidos a dívidas forçadas (o que caracteriza, inclusive, trabalho análogo ao de escravo), são iniciados no consumo de álcool e drogas e são alvo fácil para doenças, pois não conseguem negociar o uso de preservativos. 

FLORESTA ARRASADA

Já temos uma ideia do tamanho do estrago: segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o desmatamento na Amazônia aumentou 222% em agosto deste ano, em comparação com o mesmo período de 2018. No acumulado do mês, foram destruídos 1,701 km2 de floresta.

ONDE NÃO APARECE

Em entrevista à BBC, o especialista em saúde ambiental Paulo Sadiva (USP) começa falando da fuligem amazônica em São Paulo e acaba enveredando por outros problemas da poluição, que mata cinco milhões de pessoas no mundo a cada ano. Acontece que, de acordo com Sadiva, quem mais adoece não tem visibilidade e não suscita políticas públicas. Ele dá, como exemplo, um caso anterior ao do recente dia-noite na capital paulista: antigamente, o cultivo de cana de açúcar envolvia queimadas frequentes e a fumaça dessa queima também escurecia o céu de SP. Como no episódio da Amazônia, era uma fumaça causada por queima de biomassa. Como afetava um estado de grande visibilidade, isso acabou gerando pesquisas, pressões, e a indústria da cana foi obrigada a se modernizar e usar outras técnicas. Mas nem sempre é assim.

“A gente também estudou biomassa em casas que usam fogão (à lenha) para esquentar ou cozinhar. Você olha a parede e ela está preta; e quanto mais pobre, mais usa – inclusive, agora está crescendo como consequência do aumento do preço do gás, até mesmo em zonas urbanas. No mundo, são 3,5 milhões de pessoas que morrem anualmente por poluição intradomiciliar por causa disso, mas essas casas não têm voz. Já no caso da cana de açúcar no estado de São Paulo teve mais visibilidade e suscitou políticas porque caiu na primeira classe do Titanic (…). Há publicações mostrando que onde há poluição não tem artigos (científicos); e onde tem artigos, não tem poluição”, diz ele, que fala também sobre como a população mais pobre é mais afetada pela poluição atmosférica que vem do trânsito, por exemplo, e não tem meios de escapar dela.

Além das diferenças na contaminação de pessoas dentro do mesmo país, tem ainda o fluxo global da poluição: “Tem uma coisa chamada “racismo ambiental“. Certos processos mais sujos, por exemplo reciclar a bateria do seu celular, você acha que isso vai ser feito onde? Ásia e África”, explica ele. 

AOS 74

Uma indiana se tornou a mulher mais idosa a dar à luz uma criança. E na verdade foram duas crianças: na quinta-feira, Mangayamma Yaramati teve gêmeas, depois de uma inseminação artificial. Ela diz que era estigmatizada pelos vizinhos por ser uma “senhora sem filhos”. O marido, de 82 anos, teve um AVC no dia seguinte ao nascimento.

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