Faroeste sanitário, em breve perto de você

Lógica das emendas parlamentares deve tomar conta do país – e isso pode ser grave para a saúde. Leia também: austeridade pode levar 100 mil crianças à morte; ao contrário do resto do mundo, suicídios crescem no Brasil; e muito mais.

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FAROESTE SANITÁRIO

Em uma entrevista dada ao Buzzfeed que circulou graças às críticas ácidas feitas aos filhos de Bolsonaro, o presidente da Câmara Rodrigo Maia revela uma lógica que deve tomar conta do país com a aprovação do Orçamento Impositivo. Diz ele:

“No meu panfletinho, sabe o que faz mais sucesso? Foram minhas emendas de R$ 500 mil, R$ 1 milhão, para os hospitais. O que me deu mais voto foi isso. Era R$ 300 mil para um tomógrafo, R$ 500 mil para um aparelho, para construir novo centro cirúrgico. Isso não é velha política nem nova política, e nem toma-lá-dá-cá. Eu estou eleito para isso, o eleitor me elege para isso, para eu conseguir que tenha escola no bairro dele. Às vezes ele até erra pois ele quer coisa que não cabe ao governo federal… A política é essa. Qual a principal peça de um Parlamento? É o orçamento.”

Quem acompanha saúde sabe que, desde sempre, emenda parlamentar é direcionada para comprar ambulância e investir em coisas que possam ser inauguradas. Qual será o impacto disso para todas as ações e serviços menos vistosos, mas igualmente relevantes para a saúde da população? Como fica a vigilância em saúde, tão importante num país assolado por doenças transmitidas por mosquitos e infestação de animais peçonhentos, como escorpiões? E a formação de profissionais? É muito grave a crise de orientação das políticas públicas que se avizinha, especialmente dada a extrema fragilidade propositiva do governo federal. Tem tudo para ser um faroeste sanitário, em que cada parlamentar decide por si e tira os investimentos da cartola.

100 MIL

Pela primeira vez, uma pesquisa projetou o impacto das medidas de austeridade fiscal na cobertura da atenção primária à saúde em um país de renda média. E esse país é o Brasil. De acordo com os dados projetados, a redução da cobertura da Estratégia Saúde da Família, com a hipotética extinção do Programa Mais Médicos, pode elevar as taxas de mortalidade prematura (antes dos 70 anos) por causas sensíveis à atenção primária em 8,6% entre 2017 e 2030. Isso equivale a um aumento de mortes de quase 50 mil pessoas. Foram analisados dados de 5.507 municípios. Mas isso não é tudo.

Outro estudo dos mesmos autores, que será publicado em breve, projeta o mesmo número de óbitos em menores de cinco anos nesse cenário. No total, podem ocorrer 100 mil mortes precoces no Brasil, como noticiou a colunista Mônica Bergamo. 

“Ainda seria uma subestimação do efeito total porque o estudo não inclui os óbitos em maiores de 70 anos e para algumas causas classificadas como não sensíveis à atenção primária, mas que a Estratégia Saúde da Família poderia ter efeitos leves”, acrescenta o pesquisador Davide Rasella, da Universidade Federal da Bahia, que liderou o estudo feito em colaboração com pesquisadores da Universidade de Stanford e do Imperial College de Londres. O estudo, publicado sexta na BMC Medicine, também mostra um impacto maior nos municípios mais pobres, além de um aumento nas desigualdades ao afetar, principalmente, a população negra. 

FIQUE DE OLHO
Começam simultaneamente hoje, em Genebra, três eventos das Nações Unidas que debatem os problemas gerados por poluentes químicos e lixo. Tratam-se das COPS, sigla para conferência das partes (ou seja, os países-membros da ONU) das convenções de Estocolmo, de Roterdão e de Basel. A COP de Estocolmo, que acontece pela nona vez, discute o banimento de substâncias e acompanha o progresso das nações em implementá-la.

No Brasil, pesquisadores da Associação de Saúde Ambiental (Toxisphera) e organizações da sociedade civil enviaram ao governo uma nota técnica sobre a situação de um agrotóxico, a sulfluramida, que é um formicida indiscriminadamente utilizado na monocultura de eucalipto, apesar de classificado como de uso restrito pela Convenção (subscrita pelo governo brasileiro) por ser cancerígeno. Segundo os pesquisadores, o produto deixou de ser produzido nos EUA em 2008 e, este ano, a China irá revogar as licenças de produção, deixando o Brasil como o principal produtor e exportador de sulfluramida da América Latina. O agronegócio argumenta que não há alternativa tão eficaz para matar as formigas cortadeiras. Os pesquisadores apontam que há e, por isso, o governo deveria apoiar uma maior restrição ao produto, que será definida na Convenção.

MAIS SUICÍDIOS

Adolescentes que vivem nas seis maiores cidades brasileiras estão mais vulneráveis ao suicídio. Juntas, São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e Recife viram o número dessas mortes aumentar em 24% entre 2006 e 2015. No interior do país, houve um crescimento de 13%. Enquanto isso, as estatísticas globais melhoraram, com diminuição de 17% no período. Os dados foram levantados por pesquisa da Universidade Federal de São Paulo.

TRISTES RECORDES

O primeiro trimestre de 2019 foi o mais violento para as crianças e adolescentes nos últimos 20 anos no México. Segundo a Rede pelos Direitos da Infância daquele país, foram assassinados 285 menores de idade. É uma média de três homicídios por dia.

Por aqui, no estado do Rio, o repórter Rafael Soares, do jornal Extra, fez um levantamento com dados do Instituto de Segurança Pública e concluiu que, no primeiro trimestre de 2019, houve um péssimo recorde: o de homicídios cometidos por policiais. Desde que as estatísticas começaram a ser produzidas, 15 anos atrás, não se via pico assim. Foram 434 registros, um crescimento de 18% em relação ao ano passado. O estado é governado por alguém que durante a campanha eleitoral disse que queria que a força policial atirasse “na cabecinha” dos “bandidos”.

ACIDENTES

Ontem, foi comemorado o Dia Mundial e Nacional de Memória às Vítimas de Acidentes e Doenças de Trabalho. No Brasil, o atendimento hospitalar lidera as estatísticas de acidentes, com 378 mil ocorrências entre 2012 e 2018. No total, foram registrados 4,7 milhões de acidentes e 17,2 mil mortes, segundo o Observatório Digital de Segurança e Saúde do Trabalho.

INVESTIMENTOS

O Ministério da Saúde e a Secretaria-Geral da Presidência anunciaram que vão investir R$ 120 milhões em reformas nos seis hospitais federais do Rio de Janeiro. Serão realizadas obras em instalações elétricas e hidráulicas, em áreas de ambientação e leitos. As prioridades serão encaminhadas pelas direções dos hospitais da Lagoa, Ipanema, Bonsucesso, Servidores do Estado, Cardoso Fontes e Andaraí. De acordo com o ministro Luiz Henrique Mandetta, a situação deste último é tão precária que se estuda a construção de outra unidade hospitalar, anexa. O prédio existente seria transformado em uma unidade de cuidados paliativos.

MAIS GENTE, MENOS LEITOS

Enquanto a população brasileira aumenta, o número de leitos e hospitais diminui. Entre 2009 e 2017, o número de leitos por mil habitantes caiu 3,7%, passando de 1,87 para 1,72. E o de hospitais caiu de 6.041 para 5.819, uma redução de 8,4%. No SUS, esta queda foi de 5,5%. Esses e outros dadosforam levantados pelo Projeto de Avaliação do Desempenho do Sistema de Saúde (Proadess), desenvolvido pela Fiocruz. 

DESINDUSTRIALIZAÇÃO

A indústria farmacêutica gera 90 mil empregos diretos e 500 mil indiretos no Brasil, segundo o próprio setor. A Folhafala da repercussão dos anúncios recentes de fechamento de fábricas no país, feitos pelas empresas Eli Lilly e Roche. O encerramento deve levar de dois a cinco anos. Mas pode ser uma tendência, tanto por decisão de recolocação no mercado (as companhias querem migrar para a produção de produtos mais sofisticados) como pela perda de mais indústrias, seja por falta de investimentos em infraestrutura e formação de trabalhadores mesmo, seja por guerras fiscais com outros países. “Num cenário futuro, teremos por aqui apenas as produtoras de genéricos. As produtoras de alta complexidade tendem a se instalar em outras economias onde elas vão ter, além da ajuda do governo, mão de obra mais adequada e uma condição tributária mais favorável”, prevê Otto Nogami, economista do Insper.

SEM RECEITA OU CRITÉRIO

Segundo pesquisa Datafolha encomendada pelo Conselho Federal de Farmácia, 77% dos brasileiros se automedicam. E 57%, apesar de terem obtido receita depois de consultar um médico, não usaram o medicamento conforme a orientação desse profissional, mudando doses de acordo com a própria cabeça.

QUESTÕES IMAGINÁRIAS

Como a essa altura você já sabe, Jair Bolsonaro deu mais um passo na sua guerra cultural e defendeu o corte de recursos federais para a área de humanas, nomeadamente para cursos de filosofia e sociologia. Para ele, a função do governo é ensinar os jovens “leitura, escrita e a fazer conta”. E o MEC deve “focar em áreas que gerem retorno imediato ao contribuinte”. O exemplo dessas áreas, segundo ele, são cursos de Medicina, Veterinária e Engenharia. A Executiva Nacional de Estudantes de Veterinária repudiou a declaração, assim como a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) e muitos outros.

No Estadão, um artigo constata o óbvio: “Médicos, veterinários e engenheiros não são produzidos no vácuo, não trabalham no vazio, e não produzem para o nada. Todos esses conectores são, em grande parte, viabilizados pelas ciências humanas.” E completam: “Sob o pretexto de combater ideologia, não implementem outra, obscurantista, abandonada por qualquer círculo científico sério há muitas décadas.”

ENQUANTO ISSO, NO MUNDO REAL…

O Programa Cisternas, criado para combater a insegurança hídrica no semiárido nordestino, vem sofrendo cortes de até 95% no seu orçamento. Segundo o UOL, se em 2012 foram destinados R$ 1,38 bilhão – maior valor alcançado –, em 2017 o programa chegou ao piso, com R$ 52,5 milhões. Em 2019 e 2018, o orçamento foi o mesmo: de R$ 75 milhões, bem longe de uma recuperação. Por isso, a Articulação do Semiárido (ASA) teme que a população enfrente um “apagão” de água. E contabiliza que, em abril, 343 mil famílias não têm qualquer fonte de abastecimento ou reserva de água. Ainda segundo a ASA, seriam necessários R$ 1,25 bi para zerar a fila de espera por cisternas que armazenem água para consumo humano. Para o consumo animal, necessário para a criação de gado para subsistência, por exemplo, seriam necessários investimentos de R$ 12 bi.

Com a extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar, tudo o que diz respeito ao programa está em suspenso. “O espaço dessa interlocução [com o governo federal] era esse conselho. A definição de como seria usado recurso de cisternas sempre passou por lá, agora não sabemos mais como será”, disse Alexandre Pires, da ASA, para o site.

DESMATAMENTO AVANÇA

É um tanto deprimente, mas importante olhar para mais uma prova de que estamos indo rumo à devastação dos nossos principais biomas, como a Amazônia e o Cerrado. O projeto Mapbiomas, parceria entre ONGs, universidades e o Google, consolidou imagens captadas por satélites entre 1985 e 2017. No período, o país perdeu 11% da vegetação florestal – o equivalente a 2,6 vezes o tamanho do estado de São Paulo. E 61,5% afetou a floresta amazônica, 18% o Cerrado, 11% o Pantanal e 9,5% a Caatinga. 

PRECISAMOS FALAR SOBRE SEIOS

Talvez você tenha visto por aí uma imagem do sistema muscular feminino, em que aparecem as glândulas mamárias. Sua aparência, que lembra a das flores, deixou muita gente em dúvida se a imagem (que viralizou) não era uma criação artística. Para outros, restou a conclusão: em todos os anos de escola, a representação do tórax humano nos livros de biologia sempre foi masculina. Daí nossa profunda ignorância.

O assunto tem gerado uma controvérsia muito interessante. Segundo o site LiveScience, a imagem é de um aplicativo chamado Anatomy & Physiology. E ela mostra não as glândulas, mas os lóbulos mamários. Que, na realidade, não teriam essa disposição tão perfeitinha como uma flor. Mas, para “provar”, o site mostra um desenho. Ou seja, o mistério permanece.

Em meio à polêmica, há quem tenha dito que, como são “glândulas”, não deveriam aparecer mesmo em representações do sistema muscular nos livros, o que justificaria a invisibilização. E quem contra argumente que sim, deveriam, pois estas glândulas são recobertas por músculos, responsáveis pela expulsão do leite. No meio da controvérsia, uma médica desfez o mito de que os bebês sugam todo o leite durante a amamentação. Na verdade, eles estimulam a liberação de um hormônio, a ocitocina, que estimula justamente esses músculos a pressionar as glândulas mamárias que liberam o leite. Todas essas informações são novas para muita gente. Precisamos, definitivamente, falar mais sobre seios.

AGENDA

A palestra de Leonardo Boff, cancelada pela direção do Inca por ele ser ‘de esquerda’, foi abraçada pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. Acontece amanhã às 13h, no Clube de Engenharia, no Centro  do Rio.

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