Indústria farmacêutica, impune outra vez?

Filipinas processam pesquisadora envolvida na liberação de “vacina” que matou dezenas — mas poupam a Sanofi, que a produziu. Leia também: a Pfizer quer ganhar ainda mais; muito dinheiro público para “comunidades terapêuticas”

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DO FIASCO À PRISÃO

Dois anos atrás, uma vacina contra dengue foi banida das Filipinas porque havia graves problemas de segurança: a fabricante, Sanofi, reconheceu que seu produto na realidade poderia piorar os casos de dengue em crianças que nunca haviam tido a doença.  Era tarde demais. Em 2018, 130 crianças vacinadas morreram, e 19 delas tiveram dengue, indicando que a vacina pode ter tido um papel nesses casos.

Agora, uma pesquisadora foi indiciada pelo fracasso da Dengvaxia. Rose Capeding, de 63 anos, ex-chefe do Instituto de Pesquisa de Medicina Tropical, pode ser condenada a até 48 anos de prisão.  A acusação, que se estende a mais 19 pessoas, é de “imprudência resultando em homicídio”, porque o grupo “facilitou, com pressa indevida” a aprovação da Dengvaxia e sua distribuição entre as crianças no país. A liberação da vacina nas Filipinas foi baseada em pesquisas bancadas pela Sanofi, em que Capeding foi uma das principais autoras. Ela assinou, por exemplo, um estudo que detalhava a eficácia e a segurança da vacina em 10 mil crianças, em cinco países asiáticos. Em 2016, um comitê da OMS também concluiu pela segurança da Dengvaxia para maiores de nove anos. 

Vários cientistas saíram em defesa da pesquisadora: “Dizer que quem conduz um teste clinico é responsável por qualquer coisa ruim que aconteça depois que o produto é aprovado é loucura”, diz uma. O questionamento faz sentido, inclusive porque, segundo a matéria no site da Science, os testes não foram desenhados por Capeding, mas por comitês da Sanofi e da OMS. O texto não diz se há processos criminais envolvendo representantes de quem, afinal, pagou pelos testes e lucraria mais com a vacina: a Sanofi. 

POR DENTRO

Hoje se reúne o conselho de diretores da farmacêutica Pfizer. Têm muito o que comemorar: segundo um artigo publicado no Stat, em 2018 a empresa faturou US$ 53 bilhões e teve US$ 11 bi de lucro, além dos US$ 11 bi que conseguiu com cortes de Trump nos impostos. É, em suma, uma das empresas mais rentáveis do mundo. Ainda assim, subiu em janeiro o preço de 41 de seus medicamentos, inclusive contra câncer.

O texto critica o “mito central” usado usado para justificar os altos preços dos produtos, ou seja, o argumento de que é preciso cobrir os custos da pesquisa: em 2017, quando aumentou os preços, a Prizer subiu também o salário do então CEO, que bateu os US$ 27 milhões anuais. No mesmo ano, a empresa gastou mais para pagar acionistas do que em pesquisa e desenvolvimento. Além disso, ela  gerou a maior parte da sua receita comprando outras empresas que já tinham drogas no mercado – desde 2001, só quatro remédios desenvolvidos internamente geraram receitas significativas. 

ENORME FALTA

Em todo o mundo, 21,1 milhões de crianças deixam de ser vacinadas contra sarampo a cada ano, segundo relatório do Unicef. É um problema de múltiplos fatores: falta de acesso à vacina, sistemas de saúde precários, medo ou ceticismo em relação à imunização. 

Entre os países de alta renda, os EUA encabeçam a lista de crianças não-vacinadas, com mais de 2,5 milhões (e estão com o segundo maior número de casos notificados desde que o sarampo tinha sido erradicado, no ano 2000). Depois vêm a França (608 mil) e o Reino Unido (527 mil). Mas nos países mais pobres o problema é muito mais grave. Em 2017, a Nigéria teve quase 4 milhões de crianças sem vacina. Na Índia, 2,9 milhões. Na África subsaariana, nada menos que 20 países não chegaram a introduzir a segunda dose da vacina (essencial) como necessária no calendário nacional. 

NEM LIGAM

No Mato Grosso, os últimos 160 tapayunas do país dependem do rio Arinos para sua sobrevivência. Mas uma hidrelétrica proposta pelo governo federal, a usina Castanheira, deve bloquear um dos principais pontos de pesca e reprodução de peixes no rio e inundar territórios essenciais, usados para o acesso aos riso e para ritos tradicionais. Segundo o Intercept, o projeto coloca essa etnia em risco de extinção. 

Enquanto isso, em Rondônia, os índios estão cercados. A matéria da piauí conta como a grilagem de terras e o roubo de madeira facilitam a entrada de brancos em territórios indígenas, cujos líderes vivem ameaças cotidianas.

E em Brasília, no Acampamento Terra Livre, os indígenas participantes tiveram que que mudar o lugar das barracas. Segundo a Folha, entraram em acordo com a PM: vão ficar um quilômetro mais distantes, mas com fornecimento de água e energia. 

QUEREM PRIVATIZAR

Em tom de crítica, uma matéria do Estadão diz que as “barreiras regulatórias” impedem o avanço da iniciativa privada no saneamento básico, “hoje considerado o setor mais atrasado da infraestrutura” no Brasil. Segundo o texto, o setor público “não tem dinheiro” nem “capacidade de endividamento” para solucionar os problemas, enquanto a falta de acesso da população ao saneamento “salta aos olhos de investidores com dinheiro para aplicar no setor”. Uma das reclamações é que a legislação não permite a renovação de contratos sem licitação. A MP 868, que tramita no Congresso, pode mudar isso. Aliás, ela é super criticada por especialistas justamente por facilitar a privatização desse direito essencial. 

SEM DOENÇA

A ministra do STF Carmen Lúcia suspendeu uma decisão da Justiça do Distrito Federal que, em 2017, abriu brechas para psicólogos oferecerem terapias de “reversão sexuais” a homossexuais. A tal cura gay. Ela atendeu a um pedido do Conselho Federal de Psicologia, que apresentou ainda no ano passado uma reclamação contra aquela decisão. A resolução 01/99 do CFP proíbe esse tipo de tratamento. “A psicologia brasileira não será instrumento de promoção do sofrimento, do preconceito, da intolerância e da exclusão”, destacou o Conselho em seu site. Mas o caso ainda precisa ser analisado pelo plenário do Supremo.

Folha deu na manchete um pastor “ex-gay“, que se diz “curado graças a Deus e a terapia de reversão”. Robson Staines entrou nesse debate público em 2015, afirma que se relacionou com homens por ter sido estuprado na infância e agradece à psicóloga que “compreendeu seu desejo de parar de desejar homens”. A matéria, porém, diz que as taxas de suicídios dobram entre gays que tentam essas terapias.

A GRANDE MULTIPLICAÇÃO

A nova Política Nacional de Drogas mostrou bem rápido a que veio. O governo federal já aumentou tremendamente o investimento em comunidades terapêuticas religiosas, e elas vão receber R$ 153,7 milhões – o Globo nota que é quase o mesmo valor recebido pelos Caps, do sistema público. Por enquanto, 496 comunidades vão receber verba pública, ou seja, uma em cada quatro existentes. Esse número deve aumentar, porque está previsto um novo edital para firmar contratos ainda este ano. 

E a Câmara enfim terminou ontem a votação do projeto que permite usar recursos do FGTS para dar empréstimos a santas casas e hospitais filantrópicos. Agora, o texto vai para o Senado.

DAR SATISFAÇÃO

O ministro Mandetta pode ser convocado para dar explicações na Comissão da Saúde sobre a situação do Mais Médicos. A informação foi passada ao BR18 pelo líder do Podemos, José Nelto (GO). Ele disse que vai denunciar o “fracasso” de Mandetta na pasta: “Ele não conseguiu repor os médicos. Não está fazendo um bom trabalho”.

INCORPORADO

Era uma promessa antiga do mesmo Mandetta (e pela qual ele era cobrado quase diariamente em suas redes sociais): ontem, o Ministério da Saúde anunciou a incorporação ao SUS do remédio Spiranza, usado no tratamento da Atrofia Muscular Espinhal (AME). A previsão é que esteja disponível em centros especializados em até 180 dias. Por enquanto, é para o tipo 1 da doença. Para outros, a pasta estuda a incorporação por meio do compartilhamento de risco – já amplamente citado pelo ministro –, quando o governo só paga pelo remédio se ele funcionar. 

POR TRÁS DA MORTE

Faz quase dois meses que Rodrigo Lopes, empregado em um frigorífico, morreu em uma máquina de moer frango. O inquérito ainda não definiu se foi acidente de trabalho, suicídio ou homicídio – estas últimas, opções pouco prováveis segundo a família. O De olho nos ruralistas tenta montar sua história, e também a do frigorífico. E lembra o quanto esses lugares são ambientes de trabalho perigosos. Entre 2006 e 2013, houve 47 mortes no setor por conta de acidentes. Fora os traumatismos de cabeça, de abdômem, ombro, braço, as queimaduras e outras lesões diversas, os problemas de saúde mental…

É OFICIAL

Já havíamos comentado aqui sobre isso, mas agora a OMS fez o anúncio oficial: uma vacina contra a malária vai começar a ser testada em grande escala. Malaui, Gana e Quênia receberão as doses. A vacina se chama RTS,S e é a primeira a mostrar efeito protetor contra a doença em crianças pequenas. A proteção, contudo, é parcial. 

SEM TELAS, COM MOVIMENTO

Pela primeira vez, a OMS lançou diretrizes sobre atividades físicas para crianças menores de cinco anos. Algumas recomendações: bebês com menos de um ano não devem ser expostos a telas, e dos dois aos quatro anos o limite deve ser uma hora por dia; os menores de um ano devem ficar ativos fisicamente várias vezes ao dia e, de um a quatro anos, passar no mínimo três horas diárias em atividades físicas variadas; todas as crianças devem dormir bem (entre 12 e 17 horas no caso dos menores de um ano, de 11 a 14 horas para entre um e dois anos, e de 10 a 13 horas para os de três e quatro anos). 

ARMADOS

Ontem, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou um projeto de lei que permite o porte de armas para agentes do Degase, instituição socioeducativa para menores infratores. Eles poderão usar armas fora do ambiente do trabalho. Era a mesma proposta que permitia o porte para deputados, mas essa parte caiu.

E, na Flórida, avança um projeto para permitir que professores permaneçam armados nas escolas. Isso apesar da oposição de estudantes de Parkland, onde um ano atrás 17 pessoas foram mortas em tiroteio. Ironicamente, é esta tragédia que inspira o projeto.

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