EUA: drogas legais por trás explosão de mortes por overdose

Óbitos por abuso de substâncias psicoativas já superam os homicídios e acidentes de trânsito, combinados. Mas os vilões não são as drogas proscritas, e sim os opioides – produzidos por grandes corporações farmacêuticas

A epidemia de adição às drogas nos Estados Unidos alcançou um novo patamar: entre abril de 2020 e abril de 2021, 100.306 pessoas morreram de overdose no país. É um aumento de 2,6 vezes em dez anos e um salto em comparação mesmo ao ano anterior, quando o registro foi 28% menor. Algumas das explicações para o fato, muito noticiado em jornais brasileiros, são o isolamento durante o período da pandemia, a vulnerabilidade (inclusive psíquica) a que a população ficou exposta, o desinteresse pela busca de tratamento e outras questões sociais e econômicas.

Mas um olhar pouco atento a esses números pode não enxergar um dado crucial da realidade: não são as drogas proibidas que estão causando esse surto de óbitos. Os opioides – que incluem a heroína, mas principalmente remédios legais para a dor, produzidos por grandes corporações farmacêuticas e receitados em larga escala por médicos – foram responsáveis por 75,4% das mortes, 3,6 vezes mais que a cocaína, por exemplo. É o que mostra o gráfico abaixo.

Fonte: Centers for Disease Control and Prevention (EUA)

Um dos vilões do aumento das mortes por abuso de drogas é o crescimento do uso de fentanil, um opiáceo de 50 a 100 vezes mais forte que a morfina, indicado para o uso de pacientes com dores provenientes de câncer. Seu uso, que explodiu na última década, foi um grande responsável pelas mortes registradas em 2020. Sua venda no mercado ilegal parece estar abastecendo pacientes que se tornaram adictos a opioides legais durante tratamento. Uma reportagem publicada por Outras Palavras em 2018 contava como a indústria farmacêutica fez investimentos bilionários para o incentivo para que médicos receitem opioides. Também frisava que que 99% dos médicos indicam os remédios por tempo maior que o recomendado – apesar do seu grande potencial de gerar dependência. Ao final do tratamento, sugere a revista norte-americana NPR, pessoas suprem suas necessidades comprando no mercado ilegal.

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