Em busca de cobaias

ONG recruta voluntários para testar vacinas contra novo coronavírus na arriscada modalidade expressa

(erhui1979/iStock)

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 29 de abril. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

A ONG americana 1 Day Sooner começou a convocar voluntários para testar vacinas contra o novo coronavírus em humanos. Mais de 3,9 mil pessoas já se ofereceram em 52 países; 200 só no Brasil. A ONG não desenvolve nem produz as vacinas, mas quer colocar esses voluntários em contato com as famarcêuticas para acelerar os testes das mais de 70 substâncias que estão sendo desenvolvidas atualmente. E não se trata de uma participação como outra qualquer. Normalmente – explicando de modo bem simplificado –, o que se faz para testar vacinas em humanos é pegar uma quantidade de pessoas, dividir em dois grupos, dar vacina para um e placebo para o outro. Depois, todos os envolvidos voltam à vida normal e são monitorados. Há indício de que a vacina funciona se, depois de um longo tempo de monitoramento, se observar que o grupo que a tomou ficou menos doente do que o do placebo.

Já ideia do 1 Day Sooner, diferente, é conhecida como ensaio com ‘desafio humano’: os voluntários tomam uma vacina experimental e, então, são propositalmente infectados, permanecendo sob observação em vez de voltarem para casa. Isso torna o processo muito mais rápido, é claro. Mas também muito mais questionável do ponto de vista ético. Afinal, quando tomam um composto cuja segurança já foi testada, os participantes dos testes ‘normais’ não enfrentam riscos extras. Eles só seguem vivendo sua vida, expondo-se aos mesmos riscos que já teriam caso não tivessem tomado vacina nenhuma. Já no ‘desafio humano’, todos estão arrsicando suas vidas.

A reportagem da Vice observa que esse tipo de ensaio tem sido defendido por vários pesquisadores durante a pandemia, e que a modalidade já foi usada para doenças menos perigosas, como a gripe comum. A grande questão é que não se sabe muito sobre o novo coronavírus. Mesmo que só entrassem no estudo voluntários de fora dos grupos de risco (só jovens e saudáveis), ainda não se sabe direito o tipo de efeito que a doença pode provocar. Ontem mesmo falamos aqui sobre os AVCs observados em pacientes na faixa dos 30 anos, e autópsias têm revelado efeitos do novo coronavírus em órgãos como cérebro e coração. O site entrevistou um dos pesquisadores favoráveis ao “risco humano” nesse caso, Arthur Caplan. De acordo com ele, ter uma vacina no ritmo tradicional pode levar de quatro a cinco anos, e até lá muita gente vai ter morrido – um número maior do que as que podem morrer nesse estudo. Daí a justificativa.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos