O mar de incertezas de coronavírus no Brasil

Boletim epidemiológico do Ministério da Saúde tem óbitos com até um mês de atraso

Faltam testes para vivos e mortos. Foto: Francisco França / Secom PB

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 28 de abril. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui.

MAR DE INCERTEZAS

O atraso na notificação de óbitos por covid-19 é de até um mês, segundo o boletim epidemiológico divulgado ontem pelo Ministério. Uma das mortes registradas no último dia 25 tinha acontecido em 29 de março, por exemplo. E, como a própria Pasta já disse, a maior parte dos óbitos que apareceram na quinta passada era de dez dias antes. “Uma questão que sempre vem à tona e que estamos tentando mostrar, por orientação do ministro, é que esses óbitos estão sendo encerrados. São óbitos que ocorreram em momentos distintos e que concluíram as investigações. Não quer dizer que todos os 338 óbitos ocorreram no mesmo momento de ontem para hoje”, disse na coletiva o (ainda) secretário de vigilância em saúde, Wanderson Oliveira.

E há uma gritante diferença entre os achados do Ministério e os do Portal da Transparência do Registro Civil em relação à subnotificação brasileira. A Pasta considera que seus registros são próximos aos dos cartórios, pois estes últimos só registraram até agora 257 mortes por covid-19 a mais do que o governo. A grande questão é que o número considera só os casos confirmados, e abaixo deles deve haver muito mais. O Portal divulgou ontem um painel em que mostra uma alta de 47% no registro dos cartórios de mortes por causa indeterminada desde o início da pandemia. Entre 26 de fevereiro e 17 de abril, foram 1.329 óbitos do tipo, contra 925 no mesmo período do ano passado. Isso pode indicar que pessoas com coronavírus estejam morrendo sem ter avaliação médica – mas pode ser também que pessoas com outras doenças não estejam conseguindo atendimento no meio da pandemia. Além disso, no período analisado, houve um aumento de 680% nas mortes por Síndrome Aguda Respiratória Grave. Os óbitos saltaram de 156 em 2019 para 1.257 este ano.

Patinando em dados escorregadios, o Ministério prevê que o pico de transmissibilidade do coronavírus deve acontecer em algum momento entre as próximas duas e nove semanas. Sim, é uma baita diferença. De todo modo, ainda está ‘longe’, já que nessa pandemia duas semanas mudam tudo. Há 15 dias tínhamos 1,5 mil mortes e 25,2 mil casos confirmados. Agora, 4,5 mil mortes e mais de 66 mil casos.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos