Gestão no escuro

Estados e o governo federal ainda não conhecem a disponibilidade de leitos de UTI; gestão unificada dos setores público e privada evitaria mortes na fila

Foto: Marcelo Casall Jr / Agência Brasil

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Uma das últimas ações de Luiz Henrique Mandetta como chefe do Ministério da Saúde foi estabelecer que hospitais privados que prestam serviços ao SUS informassem diariamente a taxa de ocupação dos seus leitos, com multas gordas em caso de descumprimento. A determinação foi tardia, com o coronavírus já espalhado no país e muito tempo depois da previsão de que o SUS entraria em colapso em um breve futuro. Quase 20 dias depois, em alguns estados esse futuro chegou. Mas, mesmo assim, o governo federal ainda não tem ideia de quantos leitos de UTI estão disponíveis para os casos graves de covid-19.

As secretarias estaduais tampouco têm esses dados unificados. Quando os governadores informam suas taxas (e a gente noticia aqui), sempre são dados fragmentados, tratando, por exemplo, só da rede estadual ou só dos leitos reservados para os pacientes com coronavírus. Uma reportagem do El País entrou em contato com os 26 estados e o Distrito Federal; só conseguiu respostas de 12, e ainda assim difusas. Mesmo os estados que admitem a possibilidade de requisitar leitos privados desconhecem a disponibilidade do setor, e em relação aos hospitais de campanha a situação também é nebulosa. É, no mínimo, muito difícil planejar e gerenciar qualquer coisa dessa maneira.

A essa altura, o governo federal poderia estar fazendo a gestão unificada dos leitos públicos, privados e dos hospitais de campanha, para evitar que morra gente na fila. “Tendo um estoque único, do SUS, do não SUS (setor privado) e da rede extraordinária (criada para a pandemia), você orienta a ocupação deles por critérios de gravidade, de chegada do paciente. Se você não regula isso urgentemente, vai ser regulado aos pedaços pela Justiça. E aí vamos ter um sistema mais desorganizado e com maior desigualdade”, alerta Mario Scheffer, da USP. Essa desorganização já está acontecendo: muitas famílias estão entrando na Justiça para conseguir leitos.

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