Como Bolsonaro está envenenando nossa comida

Levantamento aponta: esse é o governo que mais liberou agrotóxicos na história. Em 12 meses, 503 novos venenos — um quinto, extremamente tóxicos. Leia também: no mundo, uma a cada cinco mortes se deve à sepse, grave infecção

Por André Antunes e Maíra Mathias

MAIS:
Esta é a edição do dia 17 de janeiro da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui. Não custa nada.

MUITO VENENO NA MESA

De cada cinco agrotóxicos liberados no Brasil pelo governo Bolsonaro em 2019, um é considerado extremamente tóxico pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Cento e dez novos venenos aprovados no ano passado receberam essa classificação – a mais alta da escala que mede o perigo desses produtos para a saúde humana. É o que aponta levantamento publicado no Por Trás do Alimento, parceria entre Agência Pública Repórter Brasil.

Os números, que já são chocantes, na verdade poderiam ser bem piores. Isso porque, em julho, a Anvisa mudou seu marco regulatório para classificação do risco toxicológico oferecido pelos agrotóxicos, tornando mais difíceis os critérios para um produto ser considerado extremamente tóxico. Resultado: até setembro, sob as regras anteriores, 101 dos 353 venenos liberados pelo governo foram classificados pela Anvisa como extremamente tóxicos, ou 28% do total. Daí em diante, com as novas regras, de 150 agrotóxicos aprovados para comercialização no país, apenas nove receberam essa classificação, ou 9%.

E os agrotóxicos que já estavam sendo comercializados também tiveram sua classificação alterada. Antes das mudanças, 800 dos 2,3 mil produtos liberados no país eram considerados extremamente tóxicos. Agora são apenas 43. O glifosato – herbicida mais consumido do país – foi um dos que teve a classificação de toxicidade reduzida: nenhum produto à base desse ingrediente ativo é hoje considerado extremamente tóxico. Antes, eram 24 os produtos que recebiam essa classificação. 

Para piorar, 2019 foi o ano em que mais se aprovou a liberação de agrotóxicos no país: em 12 meses, foram registrados 503 novos produtos, 53 a mais do que no ano anterior. Um recorde, mesmo se for considerado que a primeira liberação, publicada em Diário Oficial no dia 10 de janeiro de 2019, continha produtos liberados ainda no governo Temer, que detinha o recorde de liberações até então, com 450. Essa “honra” é hoje do governo de Jair Bolsonaro. 

VITÓRIAS NA JUSTIÇA 

Uma comunidade indígena de Caarapó, no Mato Grosso do Sul, deverá receber R$ 150 mil como indenização por ter sido vítima de aplicação irregular de agrotóxicos. A Justiça condenou um proprietário rural, um piloto de avião e uma empresa a pagarem o valor à comunidade – a primeira a receber indenização por danos morais coletivos no estado, segundo o Ministério Público Federal, que entrou com a ação. O caso aconteceu em 2015, quando sete famílias tiveram seus barracos diretamente aspergidos por agrotóxicos despejados de um avião que sobrevoou a comunidade, atingindo ainda outros barracos construídos junto a uma plantação de milho. O produto provocou dores de cabeça e garganta, diarreia e febre. Uma lei proíbe a pulverização aérea de agrotóxicos a menos de 500 metros de povoações. 

Enquanto isso, a Bayer está próxima de chegar a um acordo com mais de 75 mil pessoas que procuraram a Justiça para provar que desenvolveram câncer depois de entrarem em contato com o Roundup, herbicida à base de glifosato fabricado pela multinacional, que é uma das maiores produtoras de agrotóxicos do planeta.

UM EM CADA CINCO

No mundo, uma a cada cinco mortes se devem à septicemia – ou infecção generalizada. O número é o dobro do que se pensava antes e foi revelado ontem, com a divulgação de um estudo feito por pesquisadores dos EUA publicado no Lancet que é notícia em toda a mídia internacional. Os cientistas usaram dados de 2017 processados pelo Instituto de Avaliação e Métricas em Saúde e concluíram que, naquele ano, houve quase 50 milhões de casos de sepse no mundo, que levaram a 11 milhões de óbitos. Para se ter uma ideia do que isso representa, a reportagem do Guardian fez a seguinte comparação: em 2018, o câncer matou 9,6 milhões de pessoas, segundo a OMS.  

E os mais vulneráveis são bebês e crianças pequenas de países pobres: mais da metade dos casos de septicemia atingiram essa população, provocando algo em torno de três milhões de óbitos. Os pesquisadores recomendam que os países deem mais foco à prevenção, com programas de vacinação, saneamento e programas de educação para a higiene, e também invistam em medidas de combate à resistência antimicrobiana a medicamentos que afeta, e muito, os desfechos.

QUATRO MORTES

A secretaria estadual de Saúde de Minas confirmou ontem a morte de mais duas pessoas provavelmente intoxicadas pela cerveja Belorizontina, da Backer. São quatro mortes confirmadas até agora. O caso mais recente é o de um homem de 89 anos cuja identidade não foi revelada. Ele estava internado no MaterDei, em Belo Horizonte, com sintomas da síndrome nefroneural, que está sendo ligada pelas autoridades à ingestão da substância dietilenoglicol identificada em lotes da cerveja. Na quarta, morreu Antonio Márcio Quintão de Freitas, 77 anos, que também estava internado no MaterDei. No dia 7 de janeiro, o óbito de Paschoal Dermatini Filho, 55 anos, foi registrado em Juiz de Fora – trata-se do único caso de intoxicação por dietilenoglicol confirmado até o momento. Entre as vítimas está ainda uma mulher de 60 anos, que também não teve sua identidade revelada, e morreu na cidade de Pompéu no dia 28 de dezembro. Ela ingeriu a cerveja durante viagem à BH.

Além do dietilenoglicol, a Polícia Civil de Minas identificou também outra substância tóxica em lotes de cervejas produzidas pela Backer: o monoetilenoglicol. Ambos são produtos utilizados como anticongelantes no processo de fabricação de cervejas. Mas o dietilenoglicol é bem mais tóxico. O G1 detalha a diferença entre as duas substâncias.

E o Ministério da Agricultura informou ontem que identificou a presença das duas substâncias em oito produtos da cervejaria. Além das marcas Belorizontina e Capixaba, foram encontrados traços das substâncias tóxicas nas cervejas Pele Vermelha, Capitão Senra, Fargo 46, Backer Pilsen, Brown e Backer D2. A Polícia Federal realizou uma operação de busca e apreensão em uma empresa que fornecia monoetilenoglicol para a Backer, em Contagem, na região metropolitana de BH. 

NA CONTA DA SAÚDE

O Ministério da Saúde vai pagar a conta da campanha publicitária de Damares Alves. Segundo a coluna Painel, da Folha, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos está sem caixa para bancar a publicidade sobre abstinência sexual como método contraceptivo. Mas como a área técnica da Saúde é contra, não se sabe que bicho vai sair dessa parceria.

FUNCIONANDO NORMALMENTE?

Na quarta, Bolsonaro recebeu o prefeito do Rio Marcelo Crivella (Republicanos) no Palácio do Planalto. E optou por fazer um relato da conversa aos repórteres tocando em um ponto bem específico: “Ele diz que a [Rede] Globo, por exemplo, o tempo todo diz que a saúde não funcionava no Rio. E ele comprovou que funcionava, com atendimentos. Ele fala isso para mim, entre outras coisas.” Nesse tom entre o endosso e o disse-me-disse, Bolsonaro pega carona no discurso do prefeito da capital fluminense de fabricação da realidade e culpabilização do mensageiro – que, aliás, é a sua própria estratégia.  

De acordo com a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Bolsonaro foi o responsável por 121 dos 208 ataques contra veículos de comunicação e jornalistas compilados no Brasil no ano passado. Isso representa nada menos do que 58% do total.

Só para não passar em branco, Crivella deixou de investir, nos últimos três anos, mais de R$ 2 bilhões no SUS, remanejando essas verbas para outros fins – irregulares, acusam o Ministério Público e a Defensoria, que fizeram levantamento das contas da Prefeitura. O resultado foi atraso nos pagamentos às organizações sociais que, por sua vez, suspenderam salários de profissionais da saúde instaurando o caos na cidade, que também viu sua atenção básica reduzida pela gestão Crivella.

PRESO

Cesar Romero, ex-subsecretário estadual de saúde do Rio na gestão de Sergio Cabral e delator do esquema de corrupção que aconteceu na Pasta comandada por Sergio Côrtes, foi preso ontem. Ele é acusado de omitir fatos relevantes em sua delação premiada. De acordo com o Estadão, Romero teria feito isso para proteger um empresário alvo da Operação Calvário que investiga desvios de R$ 134 milhões na saúde de outro estado, a Paraíba. A ordem partiu do juiz Marcelo Bretas.

POLÊMICA NA ALEMANHA

Um projeto de lei para ampliar a doação de órgãos vem causando polêmica na Alemanha. Defendido pelo ministro da Saúde, Jens Spahn, o PL quer que os maiores de 16 anos sejam automaticamente considerados doadores de órgãos, caso não tenham rejeitado explicitamente essa opção em vida. Hoje, acontece o inverso: para ser doador, é preciso expressar essa vontade quando vivo. Segundo reportagem do G1, a Alemanha teve, em 2015, uma taxa de 11,2 doações de órgãos para cada um milhão de habitantes – bem aquém da média mundial, de quase 17 doações. E os números vem caindo nos últimos anos. 

MAIS CASOS

A doença provocada pelo novo coronavírus que surgiu em Wuhan fez sua segunda vítima fatal na China. E as autoridades da Tailândia reportaram um segundo caso da doença – com esse, já são três casos confirmados fora do território chinês. Mas, até agora, todos os casos são ligados à Wuhan, cidade que é epicentro da enfermidade: ou as pessoas infectadas viviam ou viajaram para lá.

MAIS:
Esta é a edição do dia 17 de janeiro da nossa newsletter diária: um resumo interpretado das principais notícias sobre saúde do dia. Para recebê-la toda manhã em seu e-mail, é só clicar aqui. Não custa nada.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos

Leia Também: