Duas versões

Dirigentes da Anvisa e do Instituto Butantan se acusam mutuamente de tumultuar o debate sobre a vacina. Entidades pedem fim da “briga de torcida”

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 16 de novembro. Leia a edição inteira.
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Aconteceu na sexta-feira a audiência do Congresso Nacional que colocou Anvisa e Instituto Butantan lado a lado para darem explicações sobre o episódio de paralisação dos testes da CoronaVac. A agência reguladora negou sofrer interferência do presidente Jair Bolsonaro, que comemorou a decisão nas redes sociais. E o Butantan negou sofrer interferência do governador João Doria (PSDB) que já anunciou algumas vezes o início da imunização sem a vacina sequer ter chegado ao estágio dos testes em que dá para pedir autorização de uso emergencial. 

Segundo o diretor-presidente da Anvisa, Antonio Barra Torres, o Butantan recebeu ofício da agência reguladora 40 minutos antes de a decisão sobre a paralisação do estudo clínico ser divulgada. O diretor do instituto, Dimas Covas, confirmou, mas questionou: “Só que eu pergunto: quem é que vai acessar a caixa postal do estudo às 21h04 da noite?”

Para ele, o episódio teve efeitos políticos. “Isso aí obviamente não é positivo, obviamente não é positivo; é negativo e tem implicações, sim. Há implicações, inclusive, na compreensão da importância da vacina. Estamos vivendo um problema muito grave de vacinação. Termina agora a vacinação da poliomielite e do sarampo com a menor adesão dos últimos anos: a adesão está em torno de 40%, 45%, sendo que o esperado seria acima de 85%. Então, todas as questões relativas à vacina – se toma vacina, se é obrigatória a vacina, se a vacina é segura, se a vacina é chinesa – obviamente têm impacto na população”, considerou. 

Barra Torres falou que “o que pode gerar resistência na população é não tratar a rotina como rotina” e voltou a repetir que a decisão partiu da área técnica. “Se tivesse sido tratado desde o princípio como um fato do desenvolvimento vacinal, portanto um fato rotineiro e ligado exclusivamente à área técnica, não estaríamos tendo essa conversa com os senadores e a população não estaria preocupada com o que está acontecendo”. 

Em tempo: a Academia Brasileira de Ciências, a Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil e a Academia Nacional de Medicina condenaram, em nota conjunta divulgada no sábado, a politização dos ensaios clínicos de vacinas contra a covid-19.

“Essa questão não pode continuar a ser tratada como briga de torcida e busca de holofotes na mídia. Mais do que nunca, é necessária uma agenda comum, onde evidências científicas possam ajudar a nortear as decisões. A Anvisa, como agência máxima de saúde, necessita ser respeitada e blindada contra interesses mesquinhos e ignorantes para conseguir manter sua credibilidade”, diz o texto.

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