A cor dos testes clínicos

Mesmo para tratamentos de doenças que afetam mais a população negra, ela é sub-representada nesses ensaios.

Mesmo para tratamentos de doenças que afetam mais a população negra, ela é sub-representada nos ensaios. Essa e outras notícias aqui, em oito minutos.

20 de setembro de 2019

A COR DOS TESTES CLÍNICOS

Um levantamento da ProPiblica mostrou que, nos EUA, a população negra é sub-representada nos ensaios clínicos para novos medicamentos, mesmo quando o tratamento é direcionado para uma doença que afeta mais essas pessoas. Ensaios clínicos são aqueles feitos quando um novo tratamento é desenvolvido e passa por testes em humanos antes de ser aprovado. A matéria dá como exemplo o mieloma múltiplo, que tem duas vezes mais chances e ser diagnosticado em negros. Uma droga promissora chamada Ninlaro foi testada e aprovada, mas seus testes envolveram apenas 1,8% de negros.

Essa é a regra: nos testes de 24 dos 31 medicamentos contra o câncer aprovados desde 2015, menos de 5% dos pacientes eram negros (quando eles compõem 13,4 por cento da população dos EUA). Só para um remédio houve 12% de representação – a maior de todas. A análise não pôde incluir hispânicos porque eles não eram uma categoria nos relatórios até o ano passado.

Embora sempre haja riscos, no caso de doenças agressivas ou sem tratamento alguém participar desses testes pode significar sua única chance de cura ou de alívio nos sintomas, então negros estão tendo essa possibilidade negada. Mas não é só isso. A resposta ao tratamento pode variar segundo a etnia, então podemos ter remédios aprovados para doenças mais comuns em negros e que, no entanto, não sabemos se funcionam tão bem para eles.

Entre os motivos para a sub-representação está uma desconfiança da própria população negra, que foi historicamente vitimada por esse tipo de teste. Mas há outros, e um dos mais importantes é a renda. Para participar, frequentemente é  preciso viajar longas distâncias, tirar folga do trabalho ou encontrar assistência infantil, e as farmacêuticas não pagam muito por isso.

COBERTURA CONTRA O ERRO

Uma matéria da BBC conta como está crescendo o mercado de ‘seguros de responsabilidade civil profissional’ no Brasil: trabalhadores como médicos, farmacêuticos e veterinários pagam apólices que variam de R$ 100 a R$ 1000 e, quando se tornam réus em ações relacionadas ao seu trabalho (como em casos de erro médico), os custos do processo são cobertos. Tem 15 empresas atuando nisso por aqui. Em 2015, o valor total das prestações era R$ 236 milhões, e em 2017 já eram R$ 327 milhões.

O crescimento se relaciona ao número de ações por erro médico – hoje são 70 por dia, ou três por hora. A reportagem conversou com Renato Assis, especialista em Direito Sanitário, que avalia que o Brasil esteja se aproximando da cultura americana, “a mais litigante do mundo”:  “O percentual de médicos processados nos EUA gira em torno de 9%. No Brasil, já temos cerca de 7% de médicos processados”, afirma ele. Nos EUA os seguros são a regra e, somente em 2017, os destinados especificamente a médicos somaram prêmios de mais de US$ 9 bilhões, ou R$ 29 bi.

PARA ALÉM DA INTENÇÃO DE VOTO

A última pesquisa do Ibope (lançada dia 18) também avaliou o quanto as pessoas estão dispostas a aceitar “medidas impopulares“. A maioria esmagadora (84%)  discorda “em parte” ou “totalmente” da ideia de “pagar mais impostos para ajudar o Brasil a sair da crise”. À afirmativa “estou disposto(a) a demorar mais tempo para me aposentar, para ajudar a melhorar a situação da Previdência Social no Brasil”, 75% dos entrevistados disseram discordar parcial ou totalmente. O corte de gastos sociais também foi rechaçado: 65% discordaram quando a afirmativa era “apoio a redução de gastos do governo federal em áreas como saúde e educação, se isso for ajudar o País a sair da crise”.

Vale lembrar que o candidato líder na mesma pesquisa, Jair Bolsonaro, não tem nenhum problema com a redução de gastos sociais (inclusive, como deputado, votou pela emenda do teto dos gastos, que os congela até 2036).  Ele também defende uma reforma da previdência, embora seja contra a atual proposta e não tenha dado detalhes a respeito. E esta semana a Folha informou que o economista Paulo Guedes, que deve comandar a Fazenda em caso de vitória de Bolsonaro, pretende recriar “um imposto nos moldes da CPMF”. Não fica claro o que seria, já que a CPMF não era imposto, mas sim contribuição, e são coisas diferentes – contribuições têm finalidades específicas, e no caso da CPMF eram saúde, previdência e combate à pobreza. Impostos arrecadados podem ser gastos como o governo quiser. Guedes também defende alíquota única para o Imposto de Renda, ou seja, quem tem renda tributável pequena ou grande deve o mesmo percentual.

Falando em Bolsonaro, um médico particular vai avaliar a sanidade mental do seu agressor, Adélio Bispo de Oliveira.

VIAGEM 

Dizemos que, no Brasil, as ricas abortam e as pobres morrem tentando. É verdade até certo ponto, porque não pode haver realmente segurança na clandestinidade. Enfim, algumas conseguem segurança de fato. Fora daqui: uma matéria da Folha mostra que um número significativo de brasileiras aborta em Portugal, onde o procedimento é legalizado há mais de uma década, com vistos de turistas. Entre 2014 e 2016, foram mais de 1.200 brasileiras. Quem reside em Portugal, mesmo sendo estrangeira, tem direito a fazer o procedimento gratuitamente na rede pública. Para visitantes, custa entre 500 e 570 euros (ou entre R$ 2.420 mil e R$ 2.780 mil).

RECURSO DA BAYER

A farmacêutica alemã, que comprou a Monsanto, entrou ontem com recurso na justiça americana para reverter ou anular a condenação no caso do homem que desenvolveu câncer após uso do agrotóxico Roundup, com glifosato. E, diz a Folha, no mesmo dia incluiu em sua programação anual um debate para defender o produto.

SOBRE VACINAS OBRIGATÓRIAS

Falamos na segunda-feira sobre a ideia de tornar obrigatória a apresentação do cartão de vacinação para matrícula em escolas e sobre a polêmica em torno disso, já que a medida restringe o acesso à educação. Agora uma matéria da Folha mostra que leis desse tipo vem sendo aprovadas em alguns estados. Só nos últimos três meses, pelo menos quatro governadores sancionaram medidas sobre isso, incluindo escolas públicas e privadas: Paraná, Roraima, Acre e Paraíba.

TUBERCULOSE NO MUNDO

A OMS lançou ontem o relatório global sobre a doença de 2018. Afirma que a tuberculose acometeu e matou menos gente no ano passado – em 2017, foram 1,6 milhão de mortes, uma redução de 44% desde o ano 2000 -, mas ainda é a doença infecciosa mais fatal.

MELHOR, MAS RUIM

O percentual de municípios brasileiros que têm políticas de saneamento aumentou 10 pontos percentuais desde 2011. Mas continua muito baixo: eram 38,2% no ano passado. A informação é do IBGE. Quanto ao plano municipal de saneamento, o aumento foi mais significativo, passando de 10,9% para 41,5% (até o fim do ano que vem, ele vai ser condição para acesso a recursos federais). E só 17,2% têm controle social dos serviços por meio de conselho municipal e, mesmo assim, 41,5% desses conselhos não se reuniram nos 12 meses anteriores à pesquisa.

AJUDA AOS FILANTRÓPICOS

Uma resolução do Conselho Curador do FGTS foi publicada no Diário Oficial de ontem aprovando a criação daquele programa de crédito que Temer já tinha assinado, em favor das entidades filantrópicas conveniadas ao SUS. A linha de crédito vai contar com recursos do FGTS e ter juros de 8,66% ao ano.

DA FUNASA PARA A ANVISA

Temer indicou ontem o nome de Rodrigo Sergio Dias, atual presidente da Funasa, para diretor da Anvisa. O Senado ainda precisa aprovar. Dias é réu por agressão à ex-mulher, e servidoras da Anvisa lançaram uma nota contra a indicação. Assessoria do possível novo diretor também divulgou nota em que afiram que o processo está em “fase de instrução” e que foram colhidas provas que “atestarão a sua inocência”.

TRABALHO INFANTIL NA PRÉ-HISTÓRIA

Até pouco tempo atrás, arqueólogos não tinham muito interesse em estudar o papel de crianças no passado. Nem de mulheres, aliás. Foi nos anos 1990 que elas começaram a ser mais examinadas e, a partir daí, cientistas começaram a olhar para crianças também, segundo a Nature. E a análise de ossadas e artefatos mostram que, milhares de anos atrás, crianças trabalhavam durodesde cedo. As evidências sugerem sua presença na mineração e sal entre os anos 1000 e 1300 a.C, já que foram achados instrumentos como minúsculas picaretas em minas da Áustria. E havia outros trabalhos, como costura e produção de cerâmica: tem impressões digitais de crianças menores de seis anos em vasos, tijolos e telhas.

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