Grave crise nas evidências

Crise na Colaboração Cochrane coloca em xeque atuação da entidade, que revisa estudos sobre intervenções em saúde

18 de setembro de 2018

GRAVE CRISE NAS EVIDÊNCIAS

A Colaboração Cochrane – a mais prestigiada organização do mundo quando se trata de revisões independentes de estudos sobre intervenções em saúde, e cujas análises ajudam a entender se remédios, procedimentos e tratamentos têm ou não evidências que os embasam – expulsou um de seus co-fundadores, Peter Gøtzsche, de seu Conselho Diretor. Em 25 anos da organização, foi a primeira vez que um membro foi expulso. Outros quatro membros do Conselho renunciaram, em protesto. E, segundo a Nature, é possível que o Conselho inteiro se dissolva.

As razões para a expulsão não foram bem explicadas. Mas Gøtzsche vinha pondo em xeque a credibilidade da organização e, no mês passado, ele  e outros dois colegas publicaram um artigo no British Medical Journal criticando uma análise Cochrane que era muito favorável à vacinação contra HPV. De acordo com eles, a revisão da Cochrarne se baseou em 26 ensaios clínicos com 73,4 mil mulheres, mas omitiu outros 46 ensaios com mais de 120 mil mulheres. Além disso, ignorou fatores que podem ter enviesado os resultados

Em nota, Gøtzsche também denuncia  uma cultura autoritária e um modelo “comercial” da colaboração (que recentemente passou a receber doações de entidades como a Fundação Bill e Melinda Gates). “Eu propus um ano atrás que não deveria haver autores de revisões Cochrane com conflitos financeiros de interesses com empresas relacionadas aos produtos estudados. A proposta foi apoiada por outros membros, mas não progrediu”, diz Gertzsche”.

No BMJ, um artigo de Maryanne Demasi diz que, “atualmente, a Cochrane permite que até a metade dos autores em uma revisão tenha conflitos de interesse, uma política amplamente criticada por pessoas de dentro e amplamente desconhecida do público”. Segundo um membro do Conselho, a organização “tornou-se sensível demais às críticas da indústria farmacêutica”.

EXIGÊNCIAS YANOMAMI

No norte de Roraima, indígenas Yanomami impedem a saída da aldeia de 21 profissionais de saúde, além de quatro pilotos, retendo as três aeronaves usadas por eles. Os profissionais seguem realizando atendimentos, segundo o governo. A matéria da Agência Brasil diz que a manifestação acontece depois que duas crianças menores de um ano morreram na região em um curto espaço de tempo. Eles exigem a saída do coordenador do Distrito Sanitário Especial Indígena Yanomami (DSEI-Y), Rousicler de Jesus Oliveira.

A reclamação é que Rousicleer não mantém diálogo com as comunidades e não atende as demandas da população, diz o G1. Comunidades mais isoladas, que dependem de helicópteros para acessarem serviços de saúde, ficaram 90 dias sem atendimento porque o veículo não estava voando. Esta matéria diz, na manchete, que os servidores foram feitos “reféns”. Ao longo do texto, porém, diz que não há ameaças, violência nem confronto.

BOM DESTAQUE NA IMPRENSA

Aquela análise dos planos de governo dos candidatos à presidência feita por pesquisadores da Abrasco (leia aqui) foi capa da Folha impressa ontem e ganhou uma matéria grande no Globoaté bem mais completa. “São propostas não concretas, intenções vagas, o que torna muito difícil controlar [o cumprimento] depois”, disse Ligia Bahia à Folha. Exemplo disso é a definição dos recursos financeiros: “O que a gente percebeu é que há um esforço de dizer que é muito pouco, e que é preciso aumentar, mas fica parecendo conversa para boi dormir, porque não mostram de onde viriam os recursos”, desenha a mesma Ligia, no Globo. 

A promessa de alguns candidatos de revogar o teto dos gastos, não torna os programas de governo factíveis. “Derrubar o teto não é suficiente, porque não cria novos recursos. Pode, no máximo, reduzir a queda do orçamento”, afirma Mario Scheffer, também no Globo. 

Esse jornal trata também de uma proposta de Marina de que o orçamento não seja executado pelos prefeitos e governadores, mas pelos cerca de 400 conselhos regionais, que atenderiam as demandas diversas de uma região. “Seria necessário mudar o sistema de transferência dos recursos, que está baseada na prestação de serviços e não no gasto per capita. E teria que mudar a lógica política, que respeita os quatro anos de mandato e a necessidade que os governantes têm de mostrar o que estão fazendo para as pessoas da sua cidade. Até seria melhor do que ter cada unidade federada como é hoje, mas dificilmente funciona, porque um governante de uma cidade é de um partido e o outro é de outra legenda. Essa é a dificuldade”, comenta Ligia.

Para resolver o problema do atendimento, tanto Marina como Ciro apostam no setor privado – ele ainda mais diretamente do que ela, pois quer não só manter uma rede integrada à outra, mas ampliar a compra de serviços privados pelo SUS. Já o PT quer expandir o Mais Médicos, que, segundo o Globo, é “muito criticado por Bolsonaro em seu programa e ignorado pelos demais adversários mais competitivos”.

Embora haja algum consenso na defesa da ampliação dos serviços da atenção básica, não se definem os custos ou o patamar em que se dará a expansão, aponta a Folha. A solução do prontuário eletrônico, que aparece em quase todos os planos, é algo prometido há anos, mas difícil de ser alcançado, tanto pelo custo como pela fragmentação da rede assistencial.

SHOW DE HORRORES

O vice de Bolsonaro, general Mourão, substitui muito bem o candidato hospitalizado em vários aspectos, inclusive em termos de declarações bizarras. Ontem ele participou de debate no Sindicato do Mercado Imobiliário. Disse que famílias pobres “sem pai e avô, mas com mãe e avó” são “fábricas de elementos desajustados” que tendem a entrar no narcotráfico. E, ao criticar a política externa dos governos Lula, afirmou que “nós nos ligamos com toda a mulambada, me perdoem o termo, do lado de lá e de cá do oceano na diplomacia Sul-Sul”, referindo-se aos projetos de cooperação com países sul-americanos e africanos – entre as áreas de cooperação, a saúde é ums dos principais.

O CUSTO DOS PLANOS

Por que planos de saúde custam tão caro e têm aumentos tão exorbitantes? O Uol fala disso esta semana. Os motivos clássicos alegados pelos planos são: o alto custo das novas tecnologias e o envelhecimento da população.

Mas há outros, diz o texto. Por exemplo,as fraudes e o desperdício, que, como já falamos aqui na newsletter, chegam a 19% dos custos totais dos planos de saúde, segundo pesquisa do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar. A cada dez exames, quatro são repetidos ou desnecessários, e Raquel Marimon, de uma consultoria chamada Strategy, comenta ainda que médicos ganham comissões pelos exames pedidos, e frequentemente indicam o laboratório. E, de acordo com ela, os hospitais particulares precisam bater meta de internações, um dos serviços mais caros em unidades de saúde, e por isso “mandam internar sem necessidade”.

A saída apontada pela matéria é algo que vem sendo ventilado há um tempinho pelo próprio setor privado e que temos visto em várias reportagens: de um lado, incentivar a atenção primária e, de outro, pagar hospitais e clínicas conveniadas  por resultado, e não por procedimentos, dias de internação, materiais usados…

No fim da reportagem, um box sobre coparticipação e franquia retoma a tentativa da ANS de estabelecer a cobrança extra dos clientes desse tipo de plano em 40% do valor dos procedimentos. Para a agência, é o modelo atual que “induz à sobreutilização dos recursos e, portanto, a desperdícios”. A ideia de que cobrar a mais das pessoas pode reduzir consultas e exames desnecessários é antiga, mas nem um pouco unânime. Já falamos disso nesse texto sobre planos acessíveis.

NÍVEIS “INACEITÁVEIS”

Uma criança morre a cada cinco segundos em todo o mundo, diz um informe produzido pela OMS, pelo Banco Mundial e pelo Unicef, que considerou crianças e adolescentes menores de 15 anos. No ano passado, 6,3 crianças morreram, sendo 5,4 milhões menores de cinco anos, e metade das mortes aconteceram na África subsaariana. Segundo o documento, a maior parte poderia ter sido salva com soluções como água limpa e vacinas. O texto também cita a situação brasileira, onde a diminuição da mortalidade infantil foi freada.

BANCO DOS CÉREBROS

Na Faculdade de Medicina da USP, quatro mil cérebros humanos, de pessoas que morreram de causas naturais com 50 anos ou mais, ajudam a entender doenças do cérebro. Os  órgãos foram doados por familiares dos mortos e compõem o Projeto Envelhecimento Cerebral e Biobanco para Estudos no Envelhecimento da faculdade. Foi lá que pesquisadores descobriram onde o mal de Alzheimer começa. “Segundo a pesquisadora [Lea Grinberg], graças a essa descoberta, agora é possível diagnosticar o mal em fases ainda mais iniciais, entender a relação entre essas primeiras alterações e sintomas como depressão, ansiedade, problemas de sono e apetite. O que já se descobriu também em relação a esses sintomas é que eles não são fatores de risco para Alzheimer, como se pensava antes, mas, sim, consequências da doença”, diz a matéria da BBC. Grinberg trabalha agora para desenvolver um exame simples de rastreio,como a mamografia, para identificar a doença precocemente.

OBRIGAÇÃO

O Ministério da Saúde estuda tornar a vacinação infantil obrigatória no país, conforme matéria do Estadão. Na verdade já há um calendário oficial obrigatório, mas a reportagem se refere especificamente à criação de um mecanismo que faça a carteira de imunização se tornar pré-requisito para a matrícula escolar. Hoje, há apenas uma recomendação nesse sentido. A proposta foi apresentada pela coordenadora do Programa Nacional de Imunizações do Ministério, Carla Domingues, em um evento da Procuradoria-Geral da República ontem. Mas é polêmica porque, ao que parece, é inconstitucional.  “O acesso a serviços de saúde e de educação são complementares, e não podem ser condicionais. Restringir o acesso à educação em razão de um dever ligado à vacinação é uma previsão que não tem o menor cabimento. A inconstitucionalidade seria flagrante”; “Essa condicional prevê que a formação integral da criança, que se dá a partir da educação e da saúde, não se complementaria”, disse Luiz Guilherme Conci, professor de direito da PUC-SP.

SAIU O BALANÇO

E o Ministério da Saúde divulgou ontem os resultados da campanha de vacinação contra pólio e sarampo. A meta de imunizar 95% das crianças de um a seis anos foi atingida: foi registrada uma cobertura de 95,4% para pólio e 95,3% para sarampo. Mais de 4,4 mil municípios bateram a meta..

AGENDA

Hoje à tarde tem aula aberta sobre “Efeitos da austeridade: desigualdade, pobreza e fome. Como monitorar?”, com Francisco Menezes, pesquisador do Ibase e colaborador da ActionAid. É no Icict/Fiocruz, às 14h.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos