Como a indústria da carne arrasa trabalhadores nas pequenas cidades

Pequenos municípios com frigoríficos têm 70% mais acidentes de trabalho que a média nacional, aponta reportagem

Foto: Funtrab / MS

Este texto faz parte da nossa newsletter do dia 7 de outubro. Leia a edição inteira.
Para receber a news toda manhã em seu e-mail, de graça, clique aqui.

O Brasil tem 458 grandes frigoríficos, dos que podem vender carne para todo o país e para o exterior. Quase metade está em municípios com menos de 50 mil habitantes. E, nas pequenas cidades que abrigam essas empresas, o índice de acidentes de trabalho é quase 70% maior que a média nacional, segundo um levantamento d’O Joio e o Trigo. Foram mais de sete mil ocorrências em 2019 só nos frigoríficos, e elas representam 41% de todos os acidentes de trabalho dessas cidades. Movimentos repetitivos, pressão para produzir muito e ritmo de trabalho acelerado ajudam a explicar porque esse setor gera tantos acidentes. 

E o número encontrado pela reportagem está, provavelmente, abaixo do verdadeiro. “Muitas vezes, o trabalhador é encaminhado ao INSS depois de passar pelo médico da empresa, que não reconheceu o nexo epidemiológico [a relação entre a lesão e o trabalho exercido]. O perito acaba por enquadrar o trabalhador no benefício previdenciário [que não tem relação com o trabalho], que não garante depósito de FGTS ou estabilidade de um ano após o retorno ao trabalho”, explica a reportagem. Quem ganha são as empresas.

Aliás, não é à toa que municípios pequenos tenham tantos frigoríficos. Segundo as companhias, a oferta de insumos e a proximidade das fazendas são as principais justificativas para isso. Mas há outras: “Isso se chama análise de risco. Eu vou onde o padre vai pedir a minha bênção e o delegado vai perguntar se pode abrir um inquérito. Essas empresas se aproveitam de redução de impostos, empréstimos públicos e doação de terrenos para expropriar as cidades pequenas, onde quem manda mesmo é o dono do negócio”, afirma Paulo Rogério de Oliveira, especialista em saúde ocupacional.

Gostou do texto? Contribua para manter e ampliar nosso jornalismo de profundidade: OutrosQuinhentos